Carlos Bonvalot

Pintor Carlos Bonvalot no atelier, 1900. Arquivo Hitórico Municipal de Cascais.

POR BY SUSANA JACOBETTY

Carlos Augusto Bonvalot, bisavô da surfista Teresa Bonvalot, nasceu em Paço de Arcos,no dia 24 de julho de 1893. Sua mãe, Amélia Augusta Gonçalves Bonvalot cresceu num ambiente artístico, pois tinha como primos vários mestres e pintores e o pai, João Bonvalot, era primo do explorador da Ásia Central e Tibete, Gabriel Bonvalot (1853-1933), sendo a família originária de Besançon, onde em 1291, no século XIII, eram membros do conselho que regia a cidade.

Bonvalot iniciou os seus estudos de desenho e pintura na Escola de Belas Artes de Lisboa em 1907, com apenas 14 anos de idade. Nesta instituição, que frequentou até 1916, com uma média de 19 e 20 valores, foi aluno dos pintores Luciano Freire, Ernesto Condeixa e Simões de Almeida no curso geral de Desenho e seu mestre no curso especial de Pintura, Veloso Salgado. Frequentou também o curso de Anatomia Artística na Faculdade
de Medicina de Lisboa, onde foi seu professor Henrique de Vilhena.

Praia dos Pescadores em cascais. Óleo soBre tela, 60 x 42 cm. carlos Bonvalot, 1929. Museu condes de castro guIMarães fotografIa: João Bettencourt Bacelar

Depois de servir o exército português, participando na Primeira Guerra Mundial em França, é-lhe atribuída uma bolsa e, em 1920 vai para Paris estudar na École Supérieure des Beaux Arts, onde frequenta o atelier do consagrado pintor F. Cormon. Viaja também para outras cidades francesas, assim como para Roma, onde estuda técnicas de restauro de pintura dos séculos XV e XVI, igualmente com uma bolsa de arte no Instituto Português e, depois, parte para a Suíça.

Senhora com Criança Numa Rua de Cascais. Óleo sobre tela, 58 x 38 cm. Carlos Bonvalot, Cascais, 1923. Coleção particula

Pintor Carlos Bonvalot

Excerto de carta enviada por Carlos Bonvalot a um amigo, Paris, 1919. Coleção particular. Fotografia João Bettencourt Bacelar

Ao longo dos anos, participou em várias exposições nacionais e internacionais, expondo pela primeira vez em 1913, ainda estudante, na Sociedade Nacional de Belas Artes, tendo sido uma presença constante nas suas exposições. Foi vencedor de vários prémios, nomeadamente da medalha de ouro na Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro em 1922, com a obra, O Sacristão. Nesse ano regressa a Portugal, onde desenvolve maioritariamente trabalho na área da pintura e conservação e restauro.

Em 1923, muda-se definitivamente para Cascais, terra que irá inspirar muitas das suas obras e onde fará a sua vida, ao lado de Suzana, uma alemã que conheceu em Carcavelos, vinda da Alemanha aos sete anos de idade, de quem vem a ter dois filhos, Maria Teresa e António Carlos. Dá aulas de desenho e pintura, desenvolve vários estudos sobre as origens e composições das tintas, das porcelanas, azulejaria, pintura em azulejo e azulejistas portugueses. Escreve manuscritos para os seus alunos sobre a História da Pintura em Portugal, em França, em Inglaterra e sobre a pintura renascentista portuguesa e realiza-se, pela primeira vez, em Portugal a seu pedido, a primeira radiografia de pinturas.

Radiografia da obra Adoração dos Reis Magos (pormenor), antes do restauro por Carlos Bonvalot, em 1923. Digitalização José Pessoa.Obra: Adoração dos Reis Magos (pormenor), óleo sobre madeira 42 x 128,5 cm. Álvaro Pires, século XVI, Igreja de Nossa Senhora da Assunção, Cascais. Fotografia josé Pessoa.

“Quando em fins da primavera de 1923 se tornaram urgentes certas reparações na Igreja Matriz d’esta villa, (…), apearam-se todos os quadros e assim podemos ver mais à vontade algumas velhas tábuas cheias do sentimento e de côr que a sujidade envolvia. Ofereci-me para libertar, tanto quanto possível, da imundice que as ofuscava (…) E agora para não deixar dúvidas aos investigadores e aos que se interessam por coisas d’arte, sobre a forma como procedi na limpeza dos quadros de Cascaes socega-los-ei dizendo que não houve restauro, simplesmente limpei e pretendi conservar. Limitei sempre o meu entusiasmo a não querer ir além do que me era possível com os processos pacientes e inofensivos, abandonando aquelles que ofereciam perigos e surpresas”.

Carlos Bonvalot

Sem Título. Carlos Bonvalot, 1893-1934. Coleção particular.

Reconhece-se hoje o talento e visão de Carlos Bonvalot enquanto experimentalista a nível técnico. Nos seus retratos de natureza intimista, pelas suas representações da vida familiar e do quotidiano de Cascais, da sua pintura surrealista e também na área de conservação e restauro de obras de arte. Tendo sido pioneiro na realização de exames técnicos de pinturas através de raios-X em Portugal.

Frescos do teto da nave central da Igreja de Santo António do Estoril. Carlos Bonvalot, 1928

“Não cabe aqui falar do Amigo, do Camarada, do seu carácter, da sua simpatia, da sua modéstia, virtudes que só pode apreciar quem bem o conheceu. Estou a ouvi-lo ainda, quando, acabado o seu tempo de bolseiro, comovidos os dois, o acompanhei ao Quai d’Orsay no seu regresso à Pátria: – Vou ver se encaminho a vida de maneira a tentar fazer qualquer coisa que me agrade, e poder, uma vez por outra, dar um salto a esta terra que levo no coração! Delicado sentimentos, mas também de saúde, a sorte não lho permitiu! Foi pena! e foi pena porque a Arte, mas sobretudo o seu ensino (porque a Escola ia chamá-lo) perdeu um grande animador e um grande Mestre”.

Abel Manta

Pierrot e Columbina, guache sobre papel, 25 x 18 cm. Carlos Bonvalot 1920. Coleção particular.

“Tenho muitos quadros preferidos do meu avô, mas sempre gostei muito da obra Pierrot e Columbina, é uma aguarela e, se calhar, não é das mais importantes que terá criado. Também gosto muito da obra Inspiração. Tenho uma grande admiração pelo seu trabalho, pelo que ele representou. Temos todos imensa pena que tenha partido tão cedo, era uma pessoa com um talento natural tão grande, que podia ter mostrado muito mais, ter deixado um legado ainda maior”.

neto João Bonvalot

A Esfinge. Óleo sobre tela, 152,5 x 122 cm. Carlos Bonvalot, 1918. Museu da Cidade, Lisboa.

Boca do Inferno. Óleo sobre tela, 32 x 40,2 cm. Carlos Bonvalot, 1930. Coleção particular. Fotografia Luísa Oliveira

“O nome do pintor Carlos Bonvalot está ligado a Cascais pelo amor que teve a esta terra que escolheu e ao Museu Condes de Castro Guimarães, do qual foi conservador, de 1932 até à sua morte”.

Catálogo da Exposiçãode Pinturas e Desenhos de Carlos Bonvalot, no Museu Condes de Castro Guimarães, pelo VI Centenário do Concelho de Cascais, 1970.

Vista do Museu Condes de Castro Guimarães. Óleo sobre cartão, 25,8 x 21. Carlos Bonvalot 1930. Coleção particular. Fotografia Pedro Aboim Borges

Capela de São Sebastião. Óleo sobre cartão, 18,6 x 25 cm. Carlos Bonvalot, Coleção particular. Fotografia Pedro Aboim Borges

farol de santa Marta. Óleo soBre cartão, 32,5 x 38 cM carlos Bonvalot, sem data coleção Particular. fotografIa: luísa olIveIra

Sua mulher, Suzana ficou casada apenas durante seis anos antes de enviuvar e, apesar de ficar sozinha com os seus dois filhos, Teresa e António, nunca vendeu a casa da Rua dos Bem Lembrados, idealizada e construída pelo seu marido, assim como nunca vendeu nenhuma das suas obras. No verão, alugava a casa durante três meses a famílias de Lisboa e vivia com os filhos em pequenas casas de pescadores.

Suzana Bonvalot – Mulher do artista com coelho. Óleo sobre tela, diametro 98,5 cm. Carlos Bonvalot. Sem data, coleção particular. Fotografia Pedro Aboim Borges

Sala Azul ou Retrato da Mulher do Pintor. Óleo sobre cartão, 41 x 32,5 cm. Carlos Bonvalot, 1927. Coleção particular. Fotografia Pedro Aboim Borges

A casa da rua dos Bem Lembrados em Cascais, idealizada e mandada construir pelo artista, na qual pintou uma sala em estilo arte decorativa com fauno, cabrinha, pavões e vegetação muito colorida.

Casa em Cascais, 1928. Carlos Bonnvalot. Fotografgia Paulo Costa. CAM-Centro de Arte Moderna Gulbenkian, Lisboa

“O QUE NOS INTERESSA N’UM ARTISTA
É A MANEIRA COMO ELE REAGE EM FACE DA VIDA

VER PELOS SEUS PRÓPRIOS OLHOS E NÃO PELOS OLHOS DE OUTREM”

Carlos Bonvalot

Inspiração. Óleo sobre tela, 80 x 100 cm. Carlos Bonvalot, 1917. Coleção particular.

Em 1932 é nomeado conservador do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães, relegando Fernando Pessoa para segundo lugar e, em 1934, é convidado por João Couto, antigo conservador e diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, para a posição de conservador, cargo que nunca ocupou, pois morreu a caminho do comboio Cascais-Lisboa, no dia que tomaria posse. Tinha 40 anos de idade.

Os Faunos (painel decorativo), guache sobre papel, 29 x 64 cm. Carlos Bonnvalot, 1920. Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa.