
POR SUSANA JACOBETTY

Cascais 2023, fotografia João Bettencourt Bacelar
Teresa Bonvalot, cascalense (1999) e bisneta do pintor Carlos Bonvalot (1893-1934), começou cedo a sua relação com o mar, porque o pai era muito ligado ao mar, embora não fosse surfista, passavam em família muito tempo na praia. “Desde pequenina que adorava estar dentro de água, era a melhor parte do dia e do próprio verão, poder estar dentro de água. Passava o dia todo de fato, os pais até se aborreciam por eu nunca tirar o fato, só saía da água para comer. Estar dentro de água transmitia-me uma liberdade imensa, especialmente numa idade tão jovem. Era eu e o mar, as minhas decisões, sem ter de justificar nada, poder fazer tudo da forma como queria e sentia”.


“Sempre adorei fazer desporto, na altura quando comecei a surfar também fazia vela e jogava futebol, que aliás era a minha grande paixão, mas foi no surf que percebi que este seria o meu caminho, é o que mais gosto de fazer. Comecei logo a competir e, como não gosto de perder nem a feijões, foi uma motivação para querer fazer mais e melhor. Apesar das minhas conquistas nunca terem sido fáceis, lutei muito por elas e, porque o futuro é uma incógnita, estou aqui para trabalhar muito”.

Casa da Guia, Cascais 2023. Fotografia João Bettencourt Bacelar
Teresa foi a atleta mais nova a ganhar o título de Campeã Nacional no surf feminino, para além de muitas outras conquistas. A qualificação para os Jogos Olímpicos de Tóquio 2021 elevou a prática do surf para outro patamar e o facto de ter sido a primeira surfista feminina do Mundo a apanhar uma onda é algo que vai ficar para a História: “Estar no maior evento desportivo do Mundo, no meio dos melhores atletas à escala mundial, foi muito especial e marcou- me muito. Já me qualifiquei para os Jogos Olímpicos de Paris, em 2024”. E nós só lhe podemos desejar o melhor.

Prémios, Cascais 2023. Fotografia João Bettencourt Bacelar


Carta de Teresa Bonvalot à sua Mãe. Cascais 2010
No entanto, relativamente ao surf feminino, sente que ainda são prejudicadas em termos de apoios, contratos e até nos prémios de prize money em alguns campeonatos. “Há um maior investimento nos rapazes, eu posso estar exatamente ao mesmo nível de performance, mas recebo menos por ser mulher. Infelizmente isto é o desporto em Portugal. Não faz sentido, mas é assim. Embora haja a persistência de um esforço internacional, transversal, a todos os desportos, pela igualdade de género, a paridade no desporto, e em particular no surf, ainda não existe. Pergunto-me por que é que os homens devem ganhar mais que as mulheres, quando preciso de comprar um bilhete de avião, alugar uma casa ou fazer compras no supermercado, tenho os mesmos gastos, porque não me fazem desconto por ser mulher”.

O que sente quando está a fazer surf é o mesmo que sentia quando começou?
Sinto uma liberdade enorme. É um momento em que consigo relativizar todos os problemas que possa estar a ter. Dentro de água tenho uma profunda sensação de paz, de que qualquer decisão que tome na minha vida, será a melhor. Quando era novinha, durante o verão, ficava oito horas dentro de água, às vezes nem apanhava ondas, era mesmo pela felicidade de usufruir do mar. Tenho algumas saudades desse tempo, tudo era mais simples, da felicidade gigante de ir apenas em frente numa onda, as minhas expectativas eram mais baixas. Ao longo do tempo os objetivos vão crescendo, aumenta a pressão para fazer mais e melhor, mas a felicidade de estar dentro de água continua. Neste momento, o meu foco é qualificar-me para o WCT e ser campeã do Mundo.

Teresa Bonvalot,Lakey Peak. Indonésia, 2016
Qual a sua onda preferida?
Em Portugal é o Guincho. Foi onde aprendi a surfar, onde tudo começou e, ali, sinto sempre uma paixão gigante e faz-me sempre sentido surfar. Lá fora, Lakey Peak, na Indonésia, tem uma esquerda perfeita.
O que ainda falta no surf português?
O surf feminino em Portugal tem crescido imenso, aliás é onde noto um maior crescimento. O profissionalismo das surfistas tem elevado o nosso surf de uma forma que penso, que poucos portugueses terão consciência. Temos conseguido demonstrar qualidade, o caminho é continuar a lutar e a elevar a nossa bandeira ao mais alto nível. As pessoas que vejo com mais disciplina, foco e esforço são as que vejo a crescer mais e, tenho notado essa evolução nas raparigas mais do que nos rapazes. Vejo uma maior evolução no surf feminino do que no masculino. Embora Portugal já esteja mais virado para o surf, ainda faltam os apoios das marcas aos atletas, que são a base de tudo.
Sem esse apoio precoce, mesmo dando o nosso máximo, não conseguimos chegar mais cedo aos campeonatos mundiais, o que faz toda a diferença. Mas também falta um maior apoio integrado a nível escolar, muitos atletas desistem na transição para a faculdade.

Hotel Artsy Cascais 2023. Fotografia João Bettencourt Bacelar
O maior susto numa onda?
Aconteceu-me uma ou duas vezes o shop enrolar-se no meu pescoço debaixo de água.

Hotel Artsy Cascais 2023. Fotografia João Bettencourt Bacelar
Melhor surpresa de onda?
Foi a onda da Nazaré. Foi alcançar o impossível. Deviam estar à volta de dez metros e embora não quisesse só “dropar” e sair, não sabia se iria conseguir fazer alguma manobra. Mas consegui e para mim foi um enorme momento de superação e conquista.

Casa Sommer, Cascais 2023. Fotografia João Bettencourt Bacelar
Quais as suas grandes referências no surf? A Stephanie Gilmore, que tem o estilo mais bonito. A Carissa Moore, porque tem a vertente do power. São as duas uma grande inspiração, porque no meu surf, procuro precisamente ter essas características, o estilo aliado ao power. Mas também o Tiago Pires, que foi o primeiro surfista a qualificar-se para o WCT e, por isso, será sempre uma referência para mim de que tudo é possível, mesmo quando vimos de um país relativamente pequeno. Essa sua conquista deu-me sempre muita esperança, que mesmo sendo pequeninos podemos alcançar coisas grandes e podemos estar no meio dos melhores.

Casa Sommer, Cascais 2023. Fotografia João Bettencourt Bacelar

“É incrível ser homenageada com uma boneca feita à minha semelhança. Espero que isso ajude as meninas a perceberem que podem conseguir qualquer coisa se trabalharem arduamente para isso”
Teresa Bonvalot, Barbie Roll Models, Dia Internacional das Mulheres, 2019


