O Anjo por josé Luís Peixoto

Diz-me uma história, pediu a criança. Queres uma história de quê?, perguntei como se respondesse.

Quero uma história de anjos, disse a criança e, nos seus olhos, vi o reflexo da história que comecei a contar.

Era um céu que poderia ser feito de mármore, mas que era feito de nuvens. A sua superfície era tão macia que os anjos, ao caminharem sobre esse céu, sentiam que os seus pés pousavam sobre uma carícia. Entre eles, havia um que era o mais bonito de todos. Os outros anjos, quando passavam por ele, não sentiam inveja da sua beleza.

Os anjos não sentem inveja. Os outros anjos, quando passavam por ele, olhavam-no e aprendiam com a sua beleza.

Aprendiam com a sua beleza?, perguntou a criança.

Sim, continuei, olhavam para o seu rosto perfeito, o nariz perfeito, os olhos perfeitos, a pele perfeita, e aprendiam que a perfeição existe. Noutro dia, voltavam a passar por ele e voltavam a lembrar-se de que a perfeição existe. E assim viviam nesse céu em que as lágrimas eram gotinhas de cristal que caíam sobre as nuvens e brilhavam.

Mas um dia, o olhar desse anjo lindo entristeceu.
Os outros anjos, aproximaram-se e perguntaram-lhe o que tinha. A sua voz, habitualmente límpida como nascentes, era pesada, as suas mãos de brisa eram pesadas, e o anjo disse que estava doente.

Os anjos também ficam doentes?, perguntou a criança.

Sim, continuei, os anjos ficam doentes quandoa luz fica fraca nos seus olhos, quando as asas ficam murchas nas costas, quando deixam de acreditar. Os outros anjos não lhe fizeram mais perguntas, levaram-no para a nuvem mais próxima do sol.

O anjo ficou deitado durante muitos dias. Os raios de sol pousavam-lhe sobre a pele do peito e, aos poucos, davam-lhe força. Aos poucos, a luz regressava aos seus olhos, as asas ganhavam o brilho que tinham perdido, a esperança voltava a encontrar o caminho do seu peito. Durante todos esses dias, houve sempre anjos à sua volta.

Foi também pela força do amor desses anjos que, num dia, os seus olhos se abriram com uma luz mais nítida do que o sol, e que as asas se ergueram nas suas costas, e que a esperança se ergueu no seu interior. Nos olhos dos outros anjos, houve lágrimas de alegria que foram gotas de cristal espalhadas pelas nuvens, a brilhar.

Só muito tempo depois se soube que o anjo ficou doente no momento em que deixou de acreditar.

Mas nada disso era já importante porque o anjo estava outra vez na nuvem onde todos os outros anjos passavam para admirar o seu rosto perfeito, o nariz perfeito, os olhos perfeitos, a pele perfeita, e para aprenderem que a perfeição existe. Quando passavam por ele, não sentiam inveja da sua beleza. Os anjos não sentem inveja. Passavam por ele, olhavam-no e aprendiam com a sua beleza.Já acabou a história?, perguntou-me a criança. Sim, já acabou.

Eu sabia que a hora da visita iria terminar dentro de minutos. Ouviam-se os passos das visitas que saíam dos outros quartos e que atravessavam os corredores do hospital. A criança, sentada na cama, tinha as mãos pousadas sobre o lençol e olhava pela janela, muito longe, na direção do céu.

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