
Há artistas cuja obra se confunde com a biografia. Não porque a vida se imponha à criação, mas porque ambas obedecem ao mesmo princípio de vida. É esse o retrato que emerge das conversas com Bruno Réquillart, Graça Vasconcellos e outros amigos, sobre a Inês Barahona, uma mulher que fez da liberdade uma forma de estar no mundo, recusando compromissos estéticos, sociais e comerciais.
Nascida numa família aristocrática do Alentejo, Maria Inês Arnaud Vieira de Barahona (1939 – 2020) cresceuem confronto com um universo ultra conservador que a rodeava. Ainda criança foi enviada para um colégio interno na Suíça, foi uma experiência que lhe abriu horizontes e consolidou uma autonomia que nunca mais abandonaria. Foi aluna de Virgílio Ferreira em Évora, que nela encontraria inspiração para a personagem Sofia do livro Aparição (1959). Inês frequentou Belas-Artes e o Conservatório de Teatro em Lisboa, porém, cedo percebeu que o seu lugar seria fora do país.
Paris tornou-se esse lugar. Chegou em meados da década de 1960 praticamente sem dinheiro, sobrevivendo com pequenos trabalhos para continuar a pintar. A precariedadenunca alterou a sua convicção de que a criação artística não podia submeter-se às regras do mercado.

Inês Barahona por Linda Benedict-Jones. Cambridge, Massachusetts. Polaroid 10,2 x 12,7 cm. 1980
Foi no histórico Atelier 17, de Stanley William Hayter, que aprofundou a formação e conviveu com figuras como Max Ernst, Miró e Alexander Calder. Pouco depois conheceu Maria Helena Vieira da Silva, que reconheceu imediatamente a singularidade do seu trabalho. Recomendando-a para uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian em 1971, para estudar arte em Paris, assim como o prolongamento da mesma para os anos de 1972 e 1973. Com evidente admiração, passou a tratar Inês por “o meu pequeno soldado”, numa referência à sua determinação.


Sem Título. Inês Barahona. Acrílico sobre tela, 81×130, 1972
Apesar do reconhecimento e do interesse de galeristas, recusou contratos de exclusividade e afastou-se deliberadamente da lógica comercial da arte. Preferia garantir a independência através do trabalho do que transformar a pintura num objeto de especulação, apesar de ter participado em diversas exposições, como por exemplo na Fundação Calouste Gulbenkian, na extinta Galeria Janela Verde e no Grand Palais, em Paris. Muitas obras foram oferecidas a amigos, outras vendidas e outras permaneceram consigo. Estas escolhas explicam hoje a dispersão do seu legado e a dificuldade em reconstituir integralmente o seu percurso.
A mesma independência marcava a sua vida intelectual. Era leitora de Simone de Beauvoir, Thomas Mann, Henry Miller e de numerosos autores anglo-saxónicos, assim cultivando discussões sobre arte, literatura, filosofia e política, recusando qualquer forma de dogma ou conformismo. Bruno Requillart recorda uma mulher incapaz de aceitar ideias feitas, sempre pronta a desafiar consensos.
Foi também essa curiosidade que a aproximou de algumas das figuras centrais da cultura europeia do século XX. Simone de Beauvoir fazia parte do seu círculo parisiense. Francis Bacon convidou-a a visitar o seu atelier. Maria Helena Vieira da Silva, René Char, Henri Michaux e Arpad Szenes surgem no seu percurso não como distinções
biográficas, mas como parte do ambiente intelectual onde viveu e trabalhou. Portugal permaneceu uma presença ambivalente. Conservou amizades, regressava ocasionalmente ao Alentejo e manteve uma profunda ligação ao avô materno, uma das poucas figuras familiares por quem nutria verdadeira ternura. A relação com a mãe foi sempre difícil e o país deixou de representar um lugar de pertença. A casa de Pavia, herdada dos avós maternos, tornou-se sobretudo um espaço de encontro para artistas e amigos, enquantoParis permaneceu o centro da sua vida criativa.
Os testemunhos recolhidos na vila e entre quem a conheceu completam este retrato. Permanece a memória de uma jovem de beleza invulgar, sempre de franja e cigarro na mão, recordada como alguém profundamente diferente do meio onde cresceu. A rebeldia, a recusa das convenções e a coragem para enfrentar um contexto conservador confirmam a coerência de uma vida inteiramente vivida segundo as suas próprias regras.


“Uma empregada dos seus pais contou-me que, aos 6 ou 7 anos, Inês desapareceu de casa. A polícia iria encontrá-la numa estrada, com uma pequena mala na mão… «Vou para Paris», dissera”. – Bruno Réquillart, Catálogo da Exposição “Inês Barahona A Life As Art”, Centro
Interpretativo do Tapete de Arraiolos, 2026

Fim de semana em Pavia com um grupo de amigos. O grupo à porta da casa de Pavia. Década de 60. (Eu: Madalena Castro Amaro). Inês Barahona, rebelde e dona de uma personalidade livre, fazia amigos em todas as classes sociais. As suas origens aristocráticas permitiam-lhe, por outro lado, frequentar as festas do Estoril onde se reuniam famílias reais europeias no exílio. Francisco Pinto Balsemão fazia parte desse círculo de amigos da Linha. Num excerto da sua autobiografia, Balsemão recorda Inês, o amor da sua juventude, entre encontros vigiados, viagens de Vespa até Évora e uma tarde memorável na Bénard. Não chegaram a casar, mas Inês deixou uma marca profunda na sua formação cultural e na sua vida.

Inês Barahona e Graça Vasconcellos, Évora, década de 50.

Inês Barahona, Templo de Diana, Évora, década de 50.

Inês Barahona era fan de banda desenhada e o seu boneco preferido era o Marsupilami

Fotografia de Inês Barahona na casa de Pavia, com a sua coleção de livros do Prince Valiant

ISem Título. Inês Barahona. Letraset sobre cartão, 50×65, 1970
Inês Barahona foi aluna de Vergílio Ferreira, em Évora, e terá inspirado a personagem Sofia, de Aparição. Enigmática, sensual e provocadora, Sofia desafia convenções e qualquer ideia de estabilidade. Figura de sedução e ruptura, a sua presença perturba Alberto Soares, protagonista e narrador do romance, também seu professor na ficção, expondo a fragilidade humana perante a paixão, a violência e o absurdo.

Capa do Livro Aparição de virgilio Ferreira, 2ª edição 1960
” Sofia. À luz do meu Inverno, eis que te lembro no teu corpo esguio, no teu olhar ácido de pecado…
Domingos de Primavera pelos campos, noites quentes de Verão no Alto de São Bento, a planície banhada de uma lua enorme. E tu voltada para o céu, cantando, cantando (…)”
Excerto do livro Aparição de Virgilio Ferreira, 1959

Tapeçaria, Inês Barahona

Paisagem. Inês Barahona. Acrílico sobre tela, 114 x 146, 1978

Inês Barahona. Acrílico sobre tela

Inês Barahona. Acrílico sobre tela

Diário de Noticias 1974

28 jun 1974. Inauguração da exposição de Inês Barahona na Fundação Calouste Gulbenkian. Inês Barahona e José Sommer Ribeiro (atrás, ao centro). Fotografia Carlos Coelho da Silva. Arquivos Gulbenkian, Lisboa / COM F04-07731. em baixo capa do Catálogo da Exposição.
“A MONTAGEM DA EXPOSIÇÃO DE INÊS BARAHONA, NA FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN, FOI CAÓTICA. DOIS MESES DEPOIS DO 25 DE ABRIL, NINGUÉM QUERIA PENSAR EM EXPOSIÇÕES NEM EM CATÁLOGOS. PARTE DOS FUNCIONÁRIOS DA FCG ESTAVA EM GREVE, E O QUE TODOS QUERÍAMOS ERA ANDAR NA RUA, A RESPIRAR A NOVA LIBERDADE. MAS, NA INAUGURAÇÃO, COMO FREQUENTEMENTE ACONTECE, NADA DISSO TRANSPARECE, E TUDO FOI PERFEITO.”
GRAÇA VASCONCELLOS

Capa do Catalogo da Exposição na Fundação Caloust Gulbenkian
Exposição da artista Inês Barahona em 1974, integrada na iniciativa de expor a obra dos bolseiros da Fundação Calouste Gulbenkian. Nesta mostra, a pintora portuguesa apresentou uma série de 38 trabalhos a óleo, relacionados com a vigência da sua bolsa.

carta de recomendação para atribuição de uma Bolsa Gulbenkian a Inês Barahona por Manuel Cargaleiro

carta de recomendação para atribuição de uma Bolsa Gulbenkian a Inês Barahona por Vieira da Silva

Inês Barahona por Linda Benedict-Jones. Cambridge, Massachusetts, EUA, 1980. Linda, fotógrafa e curadora no Carnegie Museum, em Pittsburgh. Foi uma grande amiga de Inês e ainda o é de Bruno, tendo sido ela que os apresentou em Paris nos anos 70.
“INÊS NUNCA PINTAVA PARA AGRADAR. PINTAVA PORQUE PRECISAVA DE COMPREENDER QUALQUER COISA”
BRUNO RÉQUILLART

Bruno e Inês, Cherbourg. França, 1979

Bruno e Inês, fotografia Salvador Taborda Ferreira, Galeria Janela Verde. Lisboa, 1990
É hoje Bruno Réquillart, também artista e fotógrafo, com quem viveu 42 anos, que assume a responsabilidade de preservar esse legado, reunindo obras dispersas, reconstruindo a memória da artista e promovendo exposições que devolvam a Barahona o lugar que lhe pertence na história da arte portuguesa.
Dias antes de me encontrar com Graça Vasconcellos, entro na casa de Pavia guiada por Bruno Requillart. O silêncio daquele lugar não tem o peso da ausência, mas o da permanência. A sua imensa coleção de livros organizada em estantes, nas paredes as fotografias com amigos e dos escritores que admirava. O atelier está pintado com o mesmo azul e, os quartos com as camas feitas, aguardam com vagar os amigos que chegaram de Paris, Londres ou Nova Iorque, sem aviso. Nada parece preparado para preservar uma memória, a memória continua simplesmente a habitar a casa.
Graça conheceu Inês aos doze anos, no Colégio das Escravas, em Lisboa, e nunca deixaram verdadeiramente de ser amigas. Houve distância geográfica, nunca distância afetiva. “Foi como se nos tivéssemos visto na véspera”, diz, antes de recordar um episódio revelador das suas realidades. Na altura, Graça ficou chocada ao descobrir que Inês vivia num pequeno apartamento parisiense sem casa de banho. Inês, por sua vez, não compreendia o casaco de raposa que a amiga usava. Durante anos riram-se dessa diferença de perspetiva. Hoje, Graça sabe que não era uma questão de conforto ou de estilo, mas de uma forma distinta de olhar para o mundo, claramente de o viver de acordo com as suas convicções.
Costuma dizer-se que Inês escolheu a pintura. Graça corrige: “Ela não escolheu a pintura. Escolheu a liberdade.” A frase resume a vida de Inês. A pintura nunca foi uma carreira, nem um projeto profissional. Foi a linguagem através da qual exprimiu uma liberdade conquistada muito antes de entrar num atelier. Quase no final da conversa, Graça deixa escapar uma frase que permanece muito depois da entrevista terminar: “Dei a uma das minhas filhas o nome Inês porque era sinónimo de alegria”. Talvez seja essa também, uma das palavras que melhor a definem. Não felicidade, porque depende das circunstâncias, mas alegria como forma de existir. É ela que atravessa todos os testemunhos, a casa de Pavia, a memória dos amigos e a pintura.
Inês Barahona, foi uma mulher rebelde, que enquanto artista recusou fazer concessões, deixou o exemplo raro de uma coerência absoluta entre vida e obra. A liberdade não foi apenas um tema da sua pintura, mas a sua maior criação. Inês foi sobretudo, uma mulher profundamente livre.

Paisagem. Inês Barahona. Acrílico sobre tela, 81 x 130, 1975

Sem Título. Inês Barahona. Acrílico sobre tela, 93 x 61, sem data

Paisagem. Inês Barahona. Acrílico sobre tela, 114 x 146, 1987

Inês Barahona. Acrílico sobre tela, 1973

entrevista à revista Flama

Inês Barahona por Bruno Réquillart, Normandia, 1979
Para Ruth Channing, Inês foi a primeira amiga em Paris: uma mulher de beleza singular, espírito livre e profunda convicção na igualdade entre as pessoas. O seu pequeno quarto na rue Bezout tornou-se ponto de encontro de artistas e desconhecidos, unidos pela generosidade e pela personalidade de uma mulher que, sem luxos nem artifícios, era extremamente glamorosa.
“O SEU MODO DE VIDA E O AMBIENTE QUE CRIOU ERAM, POR SI SÓ, UMA OBRA DE ARTE.”
Chloe e Vincent Mac Laughlin – Catálogo da Exposição “Inês Barahona A Life As Art”, Centro Interpretativo do Tapete de Arraiolos, 2026



Exposição “Inês – A Life as Art | Inês Barahona”. Patente de 4 de junho a 27 de Setembro de 2026

AGRADECIMENTOS: Bruno Réquillart, Cita- Centro Interpretativo do Tapete de Arraiolos, Custódia Casanova, Fundação Caloust Gulbenkian, Graça Vasconcellos, Inês Ruella Ramos.


