Por Pedro Costa Pinto
Fotografia João Bettencourt Bacelar
A porta está fechada há anos. A tinta já nem descasca, desprende-se lenta e preguiçosamente, como se também ela tivesse desistido de esperar, enquanto uma fita improvisada impede a entrada, embora ninguém se recorde da última vez que alguém manifestou vontade de entrar.
A humidade, entretanto, ocupa-se de resolver o assunto com a perseverança que falta aos homens. Quem passa abranda o passo, olha, reconhece vagamente o edifício e continua caminho. Não é exactamente abandono, porque em Portugal o abandono patrimonial raramente se assume com tamanha frontalidade. É antes uma forma de presença sem compromisso, uma espécie de convivência prolongada com a ruína, suficientemente próxima para sabermos que existe e suficientemente distante para não termos de fazer grande coisa a seu respeito.
Há países que preservam património, contudo em Portugal desenvolveu-se, ao longo do tempo, uma abordagem bastante mais subtil, que consiste em acompanhá-lo, quase paliativamente, até ao fim. Não se pense, porém, que isto se faz de qualquer maneira. Nada de gestos bruscos ou decisões intempestivas. Entre nós, a degradação exige tempo, método e, sobretudo, a linguagem apropriada, existindo todo um vocabulário destinado a conferir dignidade administrativa à inacção.

Tudo começa sem alarme. Uma telha cede, uma caleira deixa de cumprir a sua função, surge uma fissura que inicialmente não parece justificar preocupação e a humidade instala-se, discreta mas tenaz, alargando pouco a pouco os seus domínios. Nunca existe, por isso, um instante solene em que se possa declarar que começou a ruína. Há apenas uma sucessão de pequenas cedências, cada uma demasiado insignificante para provocar uma decisão, até que a soma de todas consegue transformar um edifício numa questão.
É nessa altura que o património português atinge uma das suas fases mais interessantes, porque deixa progressivamente de ser um lugar para passar a ser um assunto. E os assuntos, como se sabe, merecem atenção, pelo que começa então a falar-se de enquadramento, valorização, potencial estratégico, modelos de gestão, articulação institucional ou intervenção faseada.
Quanto mais frágil se torna o edifício, mais robusto parece tornar-se o vocabulário que o rodeia e, enquanto se produzem conceitos, intenções e possibilidades, a construção continua a tratar da sua própria demolição com uma eficácia que dispensaria, em boa verdade, qualquer plano de trabalhos.

Há, contudo, um momento particularmente importante, aquele em que alguém observa o edifício, inclina ligeiramente a cabeça e declara que aquilo é património. A palavra produz então um efeito quase sacramental e, a partir daí, o imóvel já não é apenas uma construção antiga, degradada ou ameaçada. Passa a pertencer a uma categoria superior, merecedora de estudos, pareceres, cautelas e sucessivas ponderações.
Como sucede frequentemente às coisas consideradas importantes, começa também a beneficiar de uma forma muito portuguesa de protecção, aquela que aconselha a não fazer nada enquanto não estiverem reunidas todas as condições para fazer tudo. Intervir pode ser arriscado, porque implica decidir, escolher, gastar dinheiro, estabelecer prioridades e, piorainda, assumir responsabilidades. Estudar é consideravelmente mais seguro. Não desloca umapedra e dificilmente compromete alguém.Por isso, o património português não está abandonado. Está frequentemente em análise e,enquanto se analisa, o edifício prossegue a sua evolução natural rumo ao desaparecimento. A chuva não precisa de despacho, o vento dispensa parecer jurídico e as raízes não aguardamcabimento orçamental. O tempo, esse, é provavelmente o mais eficiente gestor de projectos que o património nacional conhece, porque trabalha todos os dias, não pede reuniões e cumpre escrupulosamente aquilo que lhe compete.
Quando a situação deixa finalmente de permitir grandes exercícios de interpretação e o risco de colapso substitui o simples mau estado de conservação, entra-se numa fase de grande actividade. Realizam-se visitas técnicas, promovem-se reuniões, pedem-se levantamentos, estudam-se modelos de utilização e anunciam-se candidaturas em preparação, expressão que merece especial atenção, porque em Portugal uma candidatura em preparação pode adquirir uma longevidade muito superior à do próprio edifício a que se destina.
É então que se forma o indispensável consenso de que temos de fazer qualquer coisa. Naturalmente que temos e alguém há-de assegurar que a situação está a ser acompanhada.Acompanha-se, aliás, com tal perseverança que não poucas vezes se chega exactamente a tempo de testemunhar aquilo que durante anos se procurou evitar em documentos, intenções e reuniões. O colapso, pelo menos, tem uma vantagem bastante concreta, porque elimina grande parte das dúvidas.

Depois chega a fase verdadeiramente elegante do processo, aquela em que a matéria cede finalmente o lugar à memória e surge a placa. A placa é talvez uma das mais engenhosas soluções da gestão patrimonial. Permite explicar, com rigor histórico e dignidade gráfica, aquilo que já não foi possível conservar fisicamente. Ali se informa o visitante de que naquele lugar existiu uma igreja, uma fortaleza, uma casa, uma fábrica, uma estação ou qualquer outra coisa que o tempo, ajudado por uma longa cadeia de hesitações, acabou por fazer desaparecer.
Resolve-se assim uma dificuldade antiga, conservando a memória e dispensando o incómodo de conservar o objecto. É uma solução extraordinariamente limpa. O visitante lê, imagina e prossegue, enquanto onde antes existia património passa a existir interpretação do património. A matéria, sempre tão exigente em consolidações, coberturas, drenagens, manutenção e dinheiro, deixa finalmente de constituir problema.
Mas nem sempre o processo termina aqui. Por vezes, depois de anos de prudência peranteaquilo que existia, descobre-se uma inesperada capacidade de decisão quando chega o momento de construir aquilo que o substituirá. O novo aparece então com uma confiança que o velho nunca mereceu e o betão avança sem os escrúpulos que durante décadas rodearam cada hipótese de intervenção.
As linhas tornam-se direitas, as superfícies lisas e os volumes afirmativos, enquanto aquilo queantes exigia reflexão, compatibilização, memória e cuidado passa subitamente a admitir uma solução surpreendentemente expedita. Não é necessário que o novo dialogue particularmente com aquilo que ali esteve. Basta que resolva.
E há nisso qualquer coisa de profundamente tranquilizadora, porque onde antes existiam paredes antigas, infiltrações, técnicas construtivas difíceis, memórias contraditórias e umaespessura histórica incómoda passam a existir superfícies novas que não exigem interpretaçãoe que, pelo menos durante alguns anos, também não exigirão grandes trabalhos de manutenção.

Portugal, portanto, não perde património. Seria uma formulação demasiado grosseira. Portugal transfere-o progressivamente do domínio material para o domínio da evocação e fá-lo sem grandes rupturas, sem dramatismo excessivo e, sobretudo, sem que seja fácil perceber o momento exacto em que ainda teria sido possível inverter o processo.
Quando finalmente já não existem coberturas para reparar, paredes para consolidar ouestruturas para salvar, desaparece também grande parte da urgência. Resta então a memória, eventualmente acompanhada por uma fotografia antiga, um painel interpretativo e uma frase pronunciada com a serenidade própria das coisas consumadas.
Era património. Era.
Agora é memória, que, como se sabe, não infiltra nem mete água….

