Por Susana Jacobetty
Fotografia João Bettencourt Bacelar

Na Sala Estúdio do MAAT, dez formas metálicas ocupam o espaço com a aparência de esculturas abstratas. As peças vibram, recebem vozes, devolvem-nas transformadas e fazem da própria sala parte da composição. Em New Age, João Pimenta Gomes constrói uma obra em que a escultura não acompanha o som, é o som.
Artista visual, músico e produtor, Pimenta Gomes, nascido em Lisboa em 1989, trabalha há vários anos nessa zona pouco confortável onde as disciplinas deixam de obedecer às suas fronteiras habituais. Som, imagem, desenho, tecnologia e objeto surgem como diferentes instrumentos de uma mesma investigação. A música foi o território onde primeiro ganhou reconhecimento, mas a sua prática visual sempre esteve ligada à construção de dispositivos capazes de produzir, alterar ou transmitir som.

New Age nasce de uma apropriação do Cristal Baschet, instrumento desenvolvido pelos irmãos Bernard e François Baschet em França, nos anos 1950. Pimenta Gomes interessa-se pelos seus ressonadores metálicos, superfícies foliformes concebidas para amplificar vibrações, tornamdo-se esculturas que funcionam simultaneamente como corpos acústicos.
Sobre essas superfícies incidem vibrações provenientes de vozes previamente gravadas e processadas pelo artista. O som não é reproduzido, é transformado pela matéria. Cada peça altera aquilo que recebe, enquanto a distância e a orientação entre os elementos determinam a forma como as frequências se cruzam e desaparecem. O resultado aproxima-se menos de uma composição musical convencional do que de um organismo acústico em funcionamento.


A arquitetura da Sala Estúdio é, por isso, parte integrante da obra. O número de esculturas, a sua disposição e os intervalos entre elas foram definidos em função das características do espaço. Não se trata de instalar uma obra num lugar, mas de construir a obra a partir desse lugar. A sala interfere no som e o som altera a perceção da sala.
Esta relação entre objeto e produção sonora atravessa o trabalho de Pimenta Gomes. O seu interesse por instrumentos, equipamentos analógicos e digitais e dispositivos de gravação não é apenas uma forma de colecionismo tecnológico. Esses objetos constituem um arquivo material que o artista desmonta, desloca e reinventa. Um instrumento musical é também uma escultura funcional, uma peça de design, uma tecnologia e um testemunho de uma determinada cultura.


Formado em Produção Musical, Fotografia e Desenho, Pimenta Gomes foi professor convidado de Som e Imagem na Escola das Artes da Universidade Católica do Porto. Entre os seus projetos recentes encontram-se Dois Stereos e Line Array (2025), Últimos sons (2024), Love Cry e Two Virgins (2023), Poly-Free e Alto Mar / Metavox (2022), além da série Doppelganger e de outros trabalhos apresentados em Lisboa, Braga, Almada, Berlim e São Paulo.
Em New Age, toda essa pesquisa aparece reduzida ao essencial, matéria, vibração, espaço e tempo. As vozes deixam de ser identificáveis como vozes, os objetos deixam de ser apenas objetos. O visitante é colocado no interior dessa transformação, obrigado a aproximar-se e a escutar as diferenças.
Não há uma procura em representar a música através da escultura, nem transformar a escultura numa ilustração sonora. Nesta exposição, olhar e ouvir passam a ser, por momentos, a mesma coisa.

