
Fotografia João Bettencourt Bacelar

O Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova, erguido no vale da Ribeira do Lucefécit, considerado um vale sagrado em forma de concha,
é o santuário mariano mais antigo do Alentejo com sete séculos de história.
Classificado Monumento Nacional desde 1910. Fotografia João Bettencourt Bacelar, Terena, 2026
Em Terena, Alentejo profundo e raiano, no concelho de Alandroal, encontra-se o Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova, antiga igreja de Santa Maria de Terena, um dos mais singulares exemplos da arquitetura religiosa medieval portuguesa. Aqui, o sagrado articula-se com a lógica militar, dando forma a uma igreja-fortaleza de rara coerência e notável continuidade histórica.



Consolidado no século XIV, no reinado de D. Afonso IV, o templo prolonga uma tradição devocional anterior, já evocada nas Cantigas de Santa Maria de Afonso X (avô do Rei D. Dinis), num território onde o culto cristão poderá ter sucedido a práticas mais antigas. Essa sobreposição de sentidos traduz-se numa arquitetura invulgar. Planta em cruz grega, austera e geométrica, envolvida por elementos defensivos que inscrevem o edifício na paisagem de fronteira e no imaginário político medieval.

O santuário representado no Livro das Fortalezas, Duarte de Armas, 1509-1510



No interior, a contenção exterior abre-se a uma espacialidade ampla e elevada, onde se destaca o retábulo maneirista atribuído a Francisco de Campos. De forte intensidade expressiva, as suas tábuas introduzem uma linguagem pictórica sofisticada, inserindo o conjunto numa circulação artística de escala europeia.
É neste contexto que a Confraria de Nossa Senhora da Boa Nova mantém uma continuidade rara, hoje representada por Nuno Miguel Alves Rosado Pereira, seu Juiz. Herdeiro de uma linhagem profundamente ligada ao Santuário, evoca a figura do bisavô, Mariano José Rosado, que marcou a vida religiosa e cívica local ao longo do século XX.


Painel em madeira atribuido a Francisco de Campos, século XVI . Fotografia João Bettencourt Bacelar, Terena, 2026

Painel em madeira atribuido a Francisco de Campos, século XVI . Fotografia João Bettencourt Bacelar, Terena, 2026

“Assumir a Confraria é dar continuidade a um legado onde fé, história e identidade permanecem inseparáveis. São séculos de história; para além de ser devoto e crente, acresce o facto de os meus terem passado por aqui, o que fizeram, o que defenderam… é um orgulho muito grande e uma enorme responsabilidade. Também sou pai e gostava que, um dia, a minha filha pudesse igualmente contribuir.”
Nuno Pereira
Juiz da Confraria de Nossa Senhora da Boa Nova

À frente, Mariano José Rosado, bisavô de Nuno Pereira, no dia da benção da coroa de ouro oferecida pelo povo à imagem da Nossa Senhora da Boa Nova, pelo Arcebispo de Évora, D. Manuel da Conceição Santos, 1952

Ex-voto embutido no lado esquerdo do altar, trazido do Templo Endovélico

Jarra Vista Alegre, de edição limitada, década de 50, século XX
A tradição popular associa ainda o santuário a uma promessa régia ligada à Batalha do Salado, atribuindo a D. Maria de Portugal a origem simbólica da invocação da “Boa Nova”. Para Nuno Pereira, porém, o significado permanece claro: a celebração da ressurreição, assinalada na festa que ocorre oito dias após a Páscoa.
Entre os momentos mais marcantes da memória coletiva destaca-se a coroação da imagem com ouro oferecido pelos fiéis, na presença do arcebispo de Évora, episódio ainda hoje central no imaginário local. Classificado como Monumento Nacional, o Santuário da Boa Nova preserva uma notável estratificação artística, do maneirismo à talha barroca, que testemunha a continuidade e adaptação do culto ao longo dos séculos. Hoje, a romaria da Pascoela prolonga essa permanência, mantendo o espaço como ponto de convergência entre devoção, memória e identidade coletiva, num dos mais consistentes exemplos de longa duração religiosa no interior alentejano.

Este fresco do Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova, apresenta uma cena alegórica inspirada no imaginário do Apocalipse de São João, onde uma figura feminina coroada domina uma criatura policéfala de carácter fantástico, próxima do dragão apocalíptico, símbolo do mal e das forças caóticas que se opõem à ordem divina.
A personagem feminina, representada com autoridade e serenidade, não corresponde a uma figura narrativa concreta, mas a uma personificação teológica, compatível com a Igreja triunfante ou com a própria Virgem Maria vencedora do mal. Embora o texto bíblico descreva a perseguição da Mulher pelo dragão, a pintura adopta uma leitura posterior, comum na arte religiosa dos séculos XVII e XVIII, transformando o confronto em imagem de vitória espiritual. O facto de a figura estar montada sobre a criatura indica domínio absoluto e reforça a função didática do programa iconográfico, inserindo-se na tradição pós-tridentina de pintura mural destinada a transmitir ensinamentos morais e teológicos através de alegorias fortes e facilmente reconhecíveis pelos fiéis.











Dois exemplos de Ex-votos em folha de Flandres do acervo do Santuário, oferecidos por devotos ao longo
dos séculos. Desta coleção fazem parte diversos objetos, como quadros pintados em madeira, fotografias,
peças de ourivesaria, entre outros. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2026


