Por Susana Jacobetty
Há livros que nos acompanham durante anos e outros que nos mudam em poucas páginas. Livros que regressam connosco para casa, que ficam sublinhados, dobrados, gastos pelo tempo e pela memória. Ler continua a ser um dos raros gestos de liberdade absoluta. Um encontro silencioso entre um leitor e uma ideia.
Num tempo acelerado, o livro em papel mantém um certo luxo discreto. O vagar de escolher onde ler, um sofá fundo, um cadeirão junto à lareira, um banco de jardim, a sombra quente de uma buganvília, faz parte da experiência. Ler exige tempo, mas devolve profundidade. Talvez por isso continue a resistir.
Neste exercício simples e revelador, desafiámos dez pessoas diferentes a escolherem um livro marcante. Cinco mulheres, cinco homens, percursos distintos, idades diferentes, sensibilidades opostas. Mais do que uma lista de sugestões, este é um retrato íntimo da relação que cada um mantém com a leitura.
Porque os livros que escolhemos permanecem connosco e, são inevitavelmente, parte de nós.

Fotografia João Bettencourt Bacelar
ALBANO JERÓNIMO, ator e encenador
Malparidos de Claudia Lucas Chéu
Malparidos, de Cláudia Lucas Chéu, que para mim é uma das escritoras mais incríveis e interessantes da contemporaneidade portuguesa. A autora divide-se entre a poesia, o romance e a escrita para teatro, sendo também professora na Universidade de Évora. Para mim, é, sem dúvida, uma das escritoras com mais pujança e tração, comunicando de forma absolutamente justa, no sentido em que todo o universo próximo da pele tem a coragem de se inscrever através do corpo e da cabeça, sendo essa a sua forma de escrever através dos dedos. É alguém que coloco numa espécie de Olimpo, semelhante à Adília Lopes. É uma autora extremamente necessária, com uma margem de evolução absolutamente gigante.
Mal Paridos é um livro que parece escrito num estado de combustão íntima, onde cada frase vive entre a violência e a ternura, entre o grotesco e uma estranha lucidez afetiva. Cláudia Lucas Chéu trabalha a linguagem como quem rasga tecido vivo, expondo aquilo que normalmente permanece escondido: o desconforto do corpo, a falência das relações, a solidão e a necessidade quase animal de contacto. Há no livro uma espécie de pulsação febril, profundamente contemporânea, que transforma o excesso em matéria literária e faz da escrita um lugar de confronto absoluto com o humano.

Editora Companhia das Ilhas

Fotografia João Bettencourt Bacelar
ANA PAULA AMENDOEIRA, historiadora
Sétimo Dia de Daniel Faria

Editora Assírio & Alvim, 2021

Fotografia João Bettencourt Bacelar
ANTÓNIO CANDEIAS, Reitor da Universidade de Évora
Os Bichos de Miguel Torga

Editora D. Quixote

Fotografia João Bettencourt Bacelar
BELA SILVA, artista
Ghost Stories de Siri Hustvedt
Não sei o que seria da vida sem livros. A leitura diária é um momento de intimidade, de viagens a muitos lugares. Gosto muito de Paul Auster e da Siri, escritores de NY, cidade onde vivi e que continua a mexer com o meu ser.
Em Lisboa, tive a oportunidade de jantar com António Prado Coelho, Mísia e Siri, uma mulher muito bela e inteligente. Na altura, ela deu-me um conselho que iria ajudar imenso o meu filho. A Sophie, sua filha, andava na escola Lee Strasberg, e o meu filho acabou por frequentá-la também. Na altura, quando o acompanhava, passar pelos corredores onde via os retratos de Marilyn e Marlon Brando, que frequentaram estes sítios, era algo verdadeiramente emocionante.
Em Arles, acabei por encontrar, ao acaso, a Siri com o seu marido, filha e genro. Ela lembrava-se de mim… Paul disse que adorava Lisboa e recuou no tempo, à época em que por cá passou durante as filmagens de um filme. Muitas gargalhadas, um momento inesquecível.
Este livro descreve todo o processo, desde a descoberta do cancro de Paul até à sua morte. Um médico recusou-se a operá-lo; respondeu que, se a operação não corresse bem, não queria ser conhecido como o médico que causou a morte de Paul Auster, escritor maravilhoso.
O livro fala também de todo o processo de evolução como escritor, de como é a relação entre dois artistas, do “falling in love”, da vida. Obrigado, Siri, pela tua coragem e transparência descritas neste livro. A vida é feita de encontros, e o vosso encontro foi enriquecedor e estimulante para vocês e para nós, leitores. Ambas as partes saíram beneficiadas. God bless.

Editora Hodder & Stoughton

Fotografia Matilde Fieschi
BERNARDO MENDONÇA, autor e jornalista
As Malditas, de Camila Sosa Villada

Editora Bcf Editores

Fotografia João Bettencourt Bacelar
MANUEL LOBO ANTUNES, embaixador
El amor en los tempos del cólera (O Amor nos Tempos de Cólera) de Gabriel Garcia Márquez
Publicado em 1985, segundo me indica a internet, foi um pouco mais tarde, na tradução portuguesa, que li este romance de Gabriel Garcia Márquez. Antes, como muitos milhares de pessoas, tinha ficado encantado com o Cem Anos de Solidão. Esta obra foi na altura uma descoberta, qualquer coisa realmente nova para mim. Só li uma único vez “O Amor nos Tempos de Cólera” , e nem sei onde o guardei nesta vida de mudanças a que me obrigou a minha profissão. Se calhar extraviou-se entre camiões. Mas nunca mais o esqueci e vou-o oferecendo ou sugerindo quando calha. O impacto que me causou foi imenso e considerei-o então superior ao “Cem Anos de Solidão”.
Ao falar do amor, da busca do amor, da luta pelo amor, é universal e intemporal. Vai ao âmago do que somos, da busca da felicidade que todos procuramos. Somos ao longo das suas páginas confrontados connosco próprios, com
a nossa realidade humana frágil como é.
Leiam este romance e verão que encontram um outro mundo incomparavelmente mais belo e encantatório do que toda a mediocridade que nos impingem agora para matar o aborrecimento, iludir as nossas frustrações ou alimentar os nossos egos injustificadamente ambiciosos.

Editora D. Quixote

Fotografia Susana Jacobetty
MARIA JACOBETTY BACELAR, autora e artista
Human Acts de Han Kang
Recomendo Human Acts (2014), de Han Kang, vencedora do Nobel da Literatura. Deparei-me com este livro ainda na escola e, surpreendeu-me muito pela positiva. Pessoalmente, gosto de histórias verídicas. Dado que o livro retrata as consequências do Levante de Gwangju, na Coreia do Sul, em 1980, foi extremamente enriquecedor expandir o meu conhecimento sobre História. O acontecimento em específico é uma reflexão sobre como o poder, e a falta dele, podem ter um impacto devastador. Tal diálogo é aproveitado para compreender inúmeros outros conflitos.
A estrutura do livro, composta por sete capítulos, é viciante e inteligente. Isto porque cada capítulo apresenta uma voz diferente, que enverga a sua própria estrutura e narrador, que por vezes está na primeira pessoa, outras na segunda e na terceira. As características inerentes destes narradores são felizes casamentos com o arco de cada personagem, tornando-os únicos e pessoais, materializando assim a ideia de que cada mente funciona de forma diferente.
A autora faz com que nos sintamos profundamente apegados ao que cada pessoa viveu e aos traumas com que tem de lidar. A comunicação de tudo isso é extremamente perspicaz e nada glorificada. Pelo contrário, por vezes a violência, seja emocional ou física, está escondida na própria escrita, de forma tão subtil que o leitor se torna um detetive. Um detetive que vai desvendando, e apercebendo-se, do que o ser humano é capaz de fazer ao outro. Especialmente quando a reflexão recai sobre a alma, que vai para além do corpo. Ao mesmo tempo, as personagens, estas vozes, partilham uma ligação apenas evidente para o leitor, algo que torna essa ligação entre elas ainda mais comovente.
A escrita é incrivelmente poética, repleta de símbolos que nos acompanham ao longo destas vozes. À medida que a complexidade emocional de cada personagem cresce, vai-se desvendando mais sobre a forma como viveram durante o acontecimento e sobre como vivem depois dele. Estes símbolos transformam-se, ganhando novos significados, salientando a dificuldade de reintegração numa sociedade que os fez passar por tantas provações, marcas essas que chegam até à geração seguinte. Tal é observado pela última voz ser a da própria escritora, algo profundamente marcante. E sim, a obra enverga conceitos básicos, como a ideia de que existe luz ao fundo do túnel, mas a forma como a autora nos faz navegar por eles é tudo menos básica.
Os temas da violência, do trauma, da dignidade, do testemunho e da memória são lidos sem esforço, porque simplesmente não conseguimos parar de ler. Foi um livro que me emocionou muito.

Editora Random House Publishing Group

Fotografia, fonte: instagram de Patricia Reis @pat_reis
PATRICIA REIS, autora e jornalista
Sodade de Ana Cunha

Editora Sibila Publicações

Fotografia, Cassiano Ferraz
ROSARINHO CRUZ, designer e artista
Duas Amigas de Rita Homem de Melo
Há livros que chegam até nós no momento exacto em que mais precisamos deles, mesmo sem o sabermos. Duas Amigas, de Rita Homem de Melo, foi precisamente esse género de encontro. Escolhi-o por duas razões muito pessoais, primeiro, porque há muito tempo não conseguia ler um livro até ao fim. O ritmo exaustivo dos dias, a pressão constante e aquela dispersão mental que o quotidiano moderno impõe tinham-me afastado da leitura profunda. Depois, porque havia algo na premissa desta história, que me despertou imediatamente curiosidade.
O que não esperava era ser completamente absorvida pela narrativa. Comecei a ler sem grandes expetativas e acabei por devorar o livro de um só fôlego, quase com urgência, como quem tenta acompanhar personagens que já ganharam vida própria dentro da nossa cabeça. Há narrativas que entretêm e há outras que nos arrastam para dentro delas, esta pertence claramente à segunda categoria. A escrita tem fluidez, mas também subtileza psicológica, e as emoções vão-se acumulando de forma tão natural que, a certa altura, deixamos de sentir que estamos a ler, estamos apenas a viver dentro daquela história.
E depois há o Carlos. Fechei o livro apenas quando tive absoluta certeza de quem ele era verdadeiramente, porque a autora constrói essa personagem com uma ambiguidade rara e inteligente, obrigando-nos a ler não apenas as palavras, mas os silêncios, os gestos e aquilo que fica suspenso entre linhas. Foi isso que mais me impressionou, a capacidade de um romance aparentemente simples se transformar numa experiência emocional intensa e inesperadamente viciante. Duas Amigas devolveu-me um prazer de leitura que julgava perdido e, talvez seja essa a maior qualidade que um livro pode ter.

Editora Sibila Publicações

Fotografia, fonte: https://www.cm-porto.pt/executivo/jorge-sobrado
JORGE SOBRADO,Vereador da Cultura na Câmara Municipal do Porto
Daqui Houve Nome Portugal
Um livro, em particular, acompanha-me, nas funções de vereador da Cultura do Porto: Daqui Houve Nome Portugal, uma antologia de verso e prosa sobre o Porto, organizada e prefaciada por Eugénio de Andrade, com direção artística e gráfica de Armando Alves, tendo por editor um nome maior dos livros e dos autores da cidade: José Cruz Santos. A grandeza dos seus textos como pórtico do Porto, e o mistério do seu labirinto de autores e sensibilidades, renovam-se a cada leitura.
O livro conheceu diversas edições, desde 1968. A que uso no dia-a-dia, qual guia de viagem ou dicionário de bolso, é a terceira edição, com chancela da O Oiro do Dia e reúne uma coletânea aumentada de textos, fotografias e pinturas sobre o Porto, fechando com o poema “Pôr de Sol na Foz”, de Jorge de Sousa Braga, porventura a mais inesperada e poderosa transposição metafórica da imagem desse ocaso irrepetível na foz do Douro.
Quando me interrogo sobre o Porto – o seu coração de pedra (Eugénio), a sua alma de muralha (Agustina), esse começo de todos os maravilhamentos e todas as angústias (Sophia) – regresso a este livro. E sobre o resto também. Porque sim e porque não. Por causa da história ou do devir. Porque a sua leitura e descoberta me dão prazer, e por motivação alguma. Mergulhando na cidade, não lhe escapa o mistério universal e intemporal da existência.

Editora Modo de Ler

Ilustração João Bettencourt Bacelar para o livro 101 Palavras e Meia para saberes antes de crescer, Oficina do Livro

