por Susana Jacobetty
Fotografia João Bettencourt Bacelar


MAC/CCB: cinco décadas de arte contemporânea



“Esta exposição apresenta uma grande multiplicidade de vozes de artistas, de formas de pensar, de entender e sentir o mundo. Reúne de uma maneira histórica e ampla as possíveis relações entre as obras, tendo um lugar de encontro, de tempos, espaços e gerações”.
Nuria Enguita, cocuradora da exposição e diretora artística do MAC/CCB

“Esta exposição é especial porque vai surpreender o público na descoberta de muitas obras, que também podem criar pistas para outras derivas e circulações no museu. Coloca a arte contemporânea com um foco muito interessante, que começa na década de setenta e chega até aos dias de hoje. São vários artistas, uma imensidão de obras de arte com técnicas, propostas e olhares, que nos fazem entender a riqueza da arte”.
Marta Mestre, cocuradora da exposição e curadora do MAC/CCB



“A ideia de trabalhar com estéticas infantis no meu trabalho, vem do que se chama uma crença no anti-adultismo. Pensar a doçura, o calor, a suavidade e o humor, como uma ternura radical, política, como forma de resistência contra a crueldade do sistema. A arte politica latino-americana é figurativa, varonil, muito forte e viril, escoho a possibilidade de pensar uma arte feminista e politica com figuras pueris, com a ternura como ferramenta politica. Vem também na linha da arte argentina dos anos noventa, projetar o prazer e a alegria como resistência e resposta à ditadura”.
Ad Minoliti, artista, Argentina

“A pertinência desta mostra assenta na possibilidade do público poder ter um contacto com obras criadas nos anos setenta, mas também com outras criadas especialmente para esta exposição, com interesses existenciais muito diferentes, são linguagens e gerações distintas, que se encontram no espaço do MAC/CCB como uma espécie de uma constelação, como se fosse uma introdução às muitas possibilidades do que chamamos de arte contemporânea”.


O título cita a performance May I Help You? (1991), de Andrea Fraser, considerada um marco da crítica institucional. Nessa obra, a artista encenou, com atores, diferentes perfis sociais a interagir com obras de arte, expondo os mecanismos de mediação, poder e legitimação que estruturam o sistema artístico. A pergunta “posso ajudar?” surge como fórmula de cortesia, mas também como dispositivo crítico que revela hierarquias e expectativas no espaço expositivo.



É a partir dessa ambiguidade que o MAC/CCB organiza uma leitura estrutural das coleções em depósito, Coleção Berardo, Coleção Ellipse (em comodato do Estado) e Coleção Teixeira de Freitas, reunindo 127 obras de 80 artistas. O objetivo não é propor uma narrativa linear da arte contemporânea, mas evidenciar fraturas, deslocações e simultaneidades que atravessam o campo artístico desde a década de 1970.

A década de 1970 como ponto de inflexão
O subtítulo situa os anos 1970 como momento de rutura. O período é marcado por crises económicas, pela expansão do capitalismo global, pelo fortalecimento de movimentos feministas e pós-coloniais e pela redefinição do estatuto do objeto artístico. A arte deixa de se circunscrever às categorias tradicionais e incorpora performance, vídeo, instalação, fotografia conceptual e práticas discursivas.
No contexto museológico, a interrogação “posso ajudar?” devolve outras questões: que mediação é hoje possível? Como pode o museu evitar a neutralização da diferença? De que modo a arte suspende a lógica da resposta imediata para produzir fricção crítica?

Três eixos conceptuais
A exposição organiza-se em três eixos, Produções, Mudanças e Tramas, que funcionam em articulação, sem compartimentações rígidas, numa circulação aberta, permitindo percursos não lineares.
Produções: aborda a transformação do objeto artístico, do minimalismo às práticas conceptuais, interrogando categorias de gosto e valor. Estão representados artistas como Dan Flavin, Jeff Koons, Doris Salcedo e Ana Jotta.
Mudanças: concentra-se no impacto social e político da arte, incluindo reflexões sobre colonialismo, patriarcado e violência estrutural. Participam, entre outros, Kara Walker, Alberto Carneiro e o coletivo Vídeo nas Aldeias.
Tramas: explora estruturas seriais, sistemas de repetição e redes de interdependência formal e conceptual, com obras de Daniel Buren, Helena Almeida, Rosemarie Trockel e Fernanda Fragateiro.
A exposição abre com uma obra de grande escala da dupla britânica Gilbert & George e uma instalação mural da artista argentina Ad Minoliti, estabelecendo um diálogo entre a tradição conceptual europeia e abordagens críticas mais recentes.


Arte portuguesa em diálogo internacional
Um dos pontos centrais da exposição é o posicionamento da arte portuguesa em diálogo direto com referências internacionais. Helena Almeida, Gabriel Abrantes e Ana Jotta surgem lado a lado com Richard Serra, Jenny Holzer e Félix González-Torres.
A proposta não é integrar uma periferia num centro consolidado, mas afirmar a participação ativa da produção portuguesa na construção das narrativas globais da arte contemporânea.





Curadoria e estratégia institucional
A curadoria é assinada por Nuria Enguita, diretora artística do MAC/CCB, e Marta Mestre, com a colaboração de Raphael Fonseca, curador do Denver Art Museum e especialista em arte moderna e contemporânea da América Latina. A colaboração introduz um olhar informado sobre práticas oriundas do chamado Sul Global e reforça uma perspetiva menos centrada na narrativa ocidental dominante.
Com esta reformulação, o MAC/CCB consolida a sua posição como o único museu em Portugal que apresenta, de forma permanente, um percurso da arte desde 1909 até à atualidade. “May I Help You? Posso Ajudar?” conclui o processo de reorganização da coleção e afirma o museu como plataforma de pensamento crítico, circulação internacional e reinterpretação contínua do seu próprio acervo.
Mais do que oferecer respostas, a exposição institucionaliza a pergunta e, desloca o papel do museu de instância explicativa para espaço de confronto e construção ativa de sentido.

Nuria Enguita, Marta Mestre e Raphael Fonseca
ARTISTAS:
Gabriel Abrantes, Helena Almeida, Giovanni Anselmo, Robert Barry, Taysir Batniji, Lothar Baumgarten, Bernd & Hilla Becher, Sara Bichão, Irma Blank, Alighiero Boetti, Christian Boltanski, Olaf Breuning, Daniel Buren, Alberto Carneiro, Gabriel Chaile, Adriano Costa, Jim Dine, Jimmie Durham, Carla Filipe, Fischli & Weiss, Dan Flavin, Fernanda Fragateiro, Andrea Fraser, Gilbert & George, Simryn Gill, Fernanda Gomes, Félix González-Torres, Dan Graham, Hans Haacke, David Hammons, Ana Hatherly, Mona Hatoum, Kiluanji Kia Henda, Thomas Hirschhorn, Jenny Holzer, Rebecca Horn, Sanja Iveković, Ana Jotta, Donald Judd, Mike Kelley, Yazan Khalili, Jeff Koons, Joseph Kosuth, Jannis Kounellis, Barbara Kruger, Louise Lawler, Sol LeWitt, Glenn Ligon, João Marçal, Agnes Martin, Cildo Meireles, Mario Merz, Ad Minoliti, Matt Mullican, Bruce Nauman, Senga Nengudi, Chris Ofili, Gabriel Orozco, Damián Ortega, Pino Pascali, Silvestre Pestana, Raymond Pettibon, Antonio Pichillá, Sandra Poulson, Robert Rauschenberg, Doris Salcedo, Alan Saret, Julião Sarmento, Allan Sekula, Richard Serra, Jim Shaw, Susana Solano, Haim Steinbach, Frank Stella, Wolfgang Tillmans, Rosemarie Trockel, João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira, Júlia Ventura, Vídeo nas Aldeias, Kara Walker, Franz West, Yonamine, Bruno Zhu.
“MAY I HELP YOU? POSSO AJUDAR?”
Artes e artistas da década de 1970 em diante
Arts and Artists from the 1970s Onwards
Exposição permanente
Piso -1 MAC/CCB
PROGRAMAS PÚBLICOS:
Conversa e visita com as curadoras
Sábado, 21 março, às 16h00
Participação gratuita, mediante inscrição prévia através de formulário ou e-mail servico.educativo.
Visita guiada à exposição
Domingo, 1 março, às 11h00
Domingo, 12 abril, às 11h00
Entrada livre, mediante inscrição prévia através de formulário ou pelo e-mail servico.educativo.

