Ericeira Reserva Mundial de Surf

ERICEIRA RESERVA MUNDIAL DE SURF E PATRIMÓNIO DE MAFRA

Em 2011, a Ericeira tornou-se a primeira localidade europeia distinguida como Reserva Mundial de Surf pela organização norte-americana Save the Waves Coalition. Foi a segunda região do mundo a receber esta distinção, após Malibu (Califórnia), resultado de uma proposta conjunta de quatro entidades guardiãs, a Câmara Municipal de Mafra, o Ericeira Surf Clube, a Associação dos Amigos da Baía dos Coxos e a SOS Salvem o Surf. A reserva abrange quatro quilómetros de costa, com sete ondas icónicas: Pedra Branca, Reef, Ribeira d’Ilhas, Cave, Crazy Left, Coxos e São Lourenço.

A escolha assentou em três critérios fundamentais, a qualidade excecional das ondas, a força da comunidade surfista local e o apoio governamental à proposta. A distinção acrescenta uma nova camada a uma vila que foi durante séculos porto de pesca e comércio, marcada pela sardinha, pelo polvo e pelas embarcações tradicionais.

Hoje, a Ericeira combina esse legado com a dimensão global do surf, que impulsiona o turismo, a economia local e a projeção cultural do município de Mafra. A designação, porém, traz responsabilidades, nomeadamente proteger falésias, dunas e biodiversidade, garantir ordenamento sustentável e equilibrar a pressão turística com a preservação do território. A Ericeira afirma-se, assim, como caso exemplar de articulação entre património natural, identidade histórica e dinâmica contemporânea.

Logotipo do Ericeira Surf Clube, criado por João Bettencourt Bacelar em 1992/3, que se manteve durante 20 anos

Os dois primeiros cartazes do Ericeira Surf Clube, criados por João Bettencourt Bacelar em 1992

Ilustração João Bettencourt Bacelar

Para Miguel Barata, presidente do Ericeira Surf Clube, a proteção vai muito além das ondas: “É preciso salvaguardar todo o espaço envolvente.” A integração no Plano de Ordenamento da Orla Costeira garante alguma defesa, mas a pressão urbanística, o turismo em massa e o excesso de escolas de surf desreguladas ameaçam a sustentabilidade da reserva.

O clube que dirige enfrenta ainda limites financeiros, apoia atletas em fases iniciais, mas não consegue oferecer as condições estruturais vistas em países como Austrália ou Brasil. Muitos jovens acabam por desistir ao terminar a escola. O percurso de Tiago “Saca” Pires, que partiu da Ericeira para o topo mundial, permanece exceção e inspiração.

Para Barata, o grande desafio é equilibrar a projeção global da Ericeira com a preservação do território e a criação de uma verdadeira cultura desportiva sustentável.

SEMENTE, A ORIGEM DE UM SONHO CHAMADO SURF

Em 1982, Miguel Katzenstein e Nick Uricchio fundaram a Semente, a mais antiga marca portuguesa de pranchas de surf. Mais do que fabricar pranchas, lançaram a cultura de uma ideia, o Atlântico como território de pertença.

Nick, nascido nos Estados Unidos, chegou a Portugal após uma viagem pela Europa e encontrou em Carcavelos e na Costa da Caparica ondas que o fixaram, instalando-se em Catalazete. Conheceu Miguel e, de uma amizade improvável nasceu uma irmandade, que os levou à Ericeira. Isolada, sem turismo nem escolas de surf, a Ericeira tinha ondas perfeitas e uma comunidade que partilhava refeições, dívidas e sonhos. Decidiram mudar-se. E mudaram tudo.

Segunda fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025

As primeiras pranchas foram feitas de forma artesanal, numa oficina que cresceu ao mesmo tempo que o surf se tornava identidade cultural. Quarenta anos depois, a Ericeira é Reserva Mundial de Surf é destino global, mas, para os fundadores da Semente, a consagração trouxe também uma certa perda, a inocência de uma comunidade que celebrava cada novo rosto no mar.

Fiel ao espírito original, a Semente continua a ser mais do que uma marca. É raiz, memória e resistência. E, para Miguel e Nick, os Coxos permanecem a onda que melhor guarda o sonho que um dia decidiram viver.

SACA” TiAGO PIRES

Tiago Pires. primeiro português a entrar na elite do surf mundial, o World Championship Tour (WCT).  Fotografia João Bettencourt Bacelar Ribeira D’Ilhas, 2015

“A Ericeira teve um impacto muito grande na minha vida. É lá que tenho as minhas primeiras memórias enquanto

pessoa e foi o meu primeiro destino de férias. Cresci na praia de São Lourenço, numa época em que a indústria do surf era ainda muito embrionária e a realidade completamente distinta. Só por volta dos meus dez, onze anos é que comecei a ir para a Ericeira, que é um ninho de coisas boas, como a gastronomia e o surf, que considero um património natural. A Ericeira moldou-me porque foi lá que decidi tornar-me profissional de surf, foram aquelas ondas que me viram crescer. Fui atrás de um sonho e, felizmente, consegui agarrá-lo. Sinto-me uma pessoa muito concretizada.

A Ericeira dos dias de hoje assistiu a um boom do surf, do qual também me sinto um pouco responsável. É uma Ericeira que já não me atrai tanto, apesar de continuar muito ligado à terra, adorar sentir o cheiro da maresia e passear pelas ruas. Sinto que está a atravessar uma fase perigosa de descaracterização, os jagozes estão quase extintos, menos visíveis e importantes. A Ericeira está a tornar-se uma vila multicultural, com muita influência estrangeira, voltada para festas e negócio.

Tiago Pires e Teresa Bonvalot.  Fotografia João Bettencourt Bacelar Ribeira D’Ilhas, 2015

Acho que estamos numa fase crucial da história da Ericeira, porque, se não soubermos conservar o património da vila e não soubermos impor os valores da terra, vamos assistir a que se torne numa espécie de Califórnia, um sítio completamente vazio em termos de costumes, valores e referências. Temos de saber regrar e governar, para que a história da vila, que é muito forte, autêntica e bonita, não se perca. Faço figas e votos para que haja um corpo governamental capaz de preservar este legado tão precioso”.

Ilustração João Bettencourt Bacelar

“SOU SURFISTA DESDE OS 15 ANOS (1981) E FAÇO SURF NA ERICEIRA DESDE 1985, PRINCIPAL RAZÃO POR QUE ME MUDEI, A MIM E À DESPOMAR, PARA A ERICEIRA. A CRIAÇÃO DA RESERVA MUNDIAL DE SURF NA ERICEIRA É, E SERÁ, UMA GARANTIA DA PRESERVAÇÃO DAS PRAIAS E ONDAS DA ERICEIRA, PARA NÓS E PARA AS FUTURAS GERAÇÕES.”

Paulo Morais Martins “pescas”
Fundador da Despomar, empresa que representa entre outras marcas
a Billabong, Element e RVCA e proprietária das lojas Ericeira Surf&Skate
e 58SURF.