Palácio Nacional de Mafra por Sérgio Gorjão

A 1 de janeiro de 1707, D. João V é aclamado rei de Portugal. Com apenas 17 anos de idade, este jovem monarca, desde cedo, começa a projetar a imagem que pretende de si, de Portugal e do seu vasto império ultramarino, como forma de consolidação do poder, da dinastia e de afirmação de Portugal no contexto das grandes nações europeias. Mafra tornou-se um desígnio nacional num contexto histórico de exceção.

“Mariana e Maria na Biblioteca”. Palácio Nacional de Mafra.
Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2015

Biblioteca. Palácio Nacional de Mafra.
Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025

“Albano Jerónimo”. Biblioteca, Palácio Nacional de Mafra.
Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025

Casado com a Arquiduquesa da Áustria, Maria Ana de Habsburgo, em 1808, conta a tradição que fez um voto de construir um convento franciscano em Mafra caso Deus lhe garantisse sucessão.

Em 1711, estando a rainha com evidências de gravidez, o rei manda construir um pequeno cenóbio em cumprimento do voto pelo nascimento do primogénito. A 4 de dezembro desse ano nasce a princesa Maria Bárbara, mais tarde, rainha de Espanha pelo casamento com Fernando VI.

D. João V tinha, também, outro desejo: o de modernizar as instituições e construir um palácio condigno e moderno, adequado à grandeza de Portugal, que pudesse acolher a corte em segurança e salubridade. Lisboa, o local inicialmente escolhido para esse novo palácio, revelou não ser o adequado, pelo que o rei decide que esse projeto seria também realizado em Mafra.

Assim, entre 1711 e 1714, o âmbito desta obra mudou. D. João V decidiu-se por construir um dos maiores palácios da Europa, agregando-lhe um convento para a Ordem Franciscana reformada da Arrábida, cuja capacidade passou de 13, para 80 e, por fim, para 300 religiosos.

“Gustavo e os Mártires de Marrocos”.
Palácio Nacional de Mafra. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2015

O lançamento da primeira pedra do edifício ocorreu a 17 de novembro de 1717, e a obra ficou sob direção de João Frederico Ludovice (ourives e arquiteto suábio) e Custódio Vieira, engenheiro mor do reino.

Após quase 13 anos de intensa construção, em que por vezes estiveram presentes em obra mais de 45.000 trabalhadores, a primeira fase foi concluída com a sagração da capela-real do Palácio, elevada à dignidade de Basílica, a 22 de outubro de 1730, dia do 41.º aniversário de D. João V. A construção continuou, ainda, por toda a década de 40 do século XVIII, terminando com o grande salão destinado a acolher a Real Livraria. Anexo ao Palácio existe o Jardim do

Cerco, um espaço de 9 hectares, a que acresce uma vasta tapada, com cerca de 1.200 hectares, delimitada por um muro com 21 km. O palácio é dividido em quatro grandes áreas habitacionais: uma destinada ao rei e ao seu séquito, outra para a rainha, outras duas para os infantes e para as infantas.

“Albano Jerónimo”.
Palácio Nacional de Mafra. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025

“Carolina na Enfermaria”. Palácio Nacional de Mafra.
Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2015

A biblioteca e a basílica são as principais “salas” do edifício, funcionando de forma quase autónoma. A basílica foi dedicada à Virgem Maria com o Menino e Santo António, e é adornada por um dos maiores conjuntos de estatuária barroca italiana fora de Itália, composta por mais de 60 esculturas em mármore de Carrara, produzidas maioritariamente em Roma e Florença. Também para a basílica confluíram trabalhos de grandes pintores italianos e portugueses, muitos deles copiados e transferidos para pedra, na segunda metade do século XVIII, e, ainda, objetos em prata e têxteis, dos mais ricos do seu tempo.

Pormenor, Palácio Nacional de Mafra.
Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025

Nas torres sineiras encontram-se instalados 119 sinos, nestes contando-se dois carrilhões (com 92 sinos), um fundido em Liége, na oficina de Nicolas Levache, e outro em Antuérpia, por William Witlockx. Este carrilhão, instalado na torre sul, é considerado hoje um dos maiores e o melhor carrilhão histórico do século XVIII, no mundo. Associados aos carrilhões estão os dois maiores conjuntos de relógios e de cilindros de melodia automática (quatro cilindros rotativos com cavilhas e alavancas), construídos pelo relojoeiro holandês De Beefe, capazes de tocar de modo intermutável dezasseis peças de música.

“Helena na Cozinha”. Palácio Nacional de Mafra.
Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2015

Também, na basílica, substituindo seis órgãos originais do tempo de D. João V, encontra-se hoje um conjunto de seis órgãos históricos, construídos pelos mestres organeiros portugueses Peres Fontanes e António Xavier Machado e Cerveira, instalados entre 1792 e 1807, únicos no mundo por terem sido concebidos para poderem tocar a solo, a pares, a quatro ou mesmo a seis. Este conjunto foi restaurado a partir de 1994, pelo mestre organeiro Dinarte Machado, tendo recebido o prémio Europa Nostra.

“Maria na Sala do Trono”. Palácio Nacional de Mafra.
Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2015

O palácio-convento implanta-se em cerca de 38.000m2, com cerca de 170.000m2 de pisos. Tem 156 conjuntos de escadarias, 5.200 janelas e mais de 1.000 divisões. No piso nobre, destinado a residência de Estado, as principais estâncias encontram-se acessíveis ao público desde pelo menos 1904. Com a implantação da República, em outubro de 1910, foi o primeiro palácio real a ser transformado em museu, abrindo portas ao público a 14 de maio de 1911.

Destacam-se diversas salas pintadas sob direção de Cirilo Wolkmar Machado, como a Sala do Trono (em cuja decoração também participou o famoso pintor Domingos António Sequeira), a Sala de Diana, a do Corpo da Guarda, a dos Destinos, a das Descobertas, a dos Camaristas e, ainda, os oratórios reais do torreão norte e do torreão sul.

“Maria na Sala do Trono”. Palácio Nacional de Mafra.
Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2015

sala do Trono. Fotografia João Bettencourt Bacelar 2025

“Albano Jerónimo na Sala do Trono”. Palácio Nacional de Mafra.
Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025

No primeiro piso, destaque para o núcleo de arte sacra, onde se reúnem alguns dos principais objetos da basílica; e o complexo da enfermaria, a mais antiga sobrevivente do seu tempo na Europa. No piso térreo existe Campo Santo e a sua Capela, espaço que foi destinado às cerimónias fúnebres da comunidade religiosa de Mafra, e uma série de outras divisões, hoje com funções diversas, como a Casa dos Pintores, os apartamentos onde residiram Vieira Lusitano e Cirilo Wolkmar Machado; a antiga Mantearia Real e as dependências do Torreão Norte, onde se encontra em reserva o Museu de Escultura Comparada – Gipsoteca.

O Palácio de Mafra foi a principal escola de construção do século XVIII em Portugal. Nesta formaram-se grande parte dos arquitetos, engenheiros e construtores que vieram, mais tarde, a espraiar-se pelo império português e que permitiu ter técnicos e mão de obra especializada usada na reconstrução de Lisboa, após o terramoto de 1755.

Também aqui foi instalada a Real Escola de Escultura de Mafra, criada por D. José I, em 1754, sob orientação do escultor italiano Alessandro Giusti, que serviu como primeira academia artística em Portugal e foi percussora das academias de Lisboa e do Rio de Janeiro.

“AmÍlcar na Sala da Música”. Palácio Nacional de Mafra.
Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2015

Corredor, Palacio Nacional de Mafra. Fotografia João Bettencourt Ba celar 2025

A Real Livraria de Mafra, instituída por D. João V, mas só concretizada nos reinados de D. José e D. Maria I (em 1771 com a construção das estantes e em 1794 com a instalação dos livros), encontra-se na sequência dos aposentos privados dos infantes e das infantas de Portugal. Desenvolve-se num grande salão, em galeria, ocupando uma área de quase 1.000 m2.

No centro da cúpula central do teto, elevada a 13m do pavimento, encontra-se esculpido um grande sol com face humana, uma alegoria à sabedoria no contexto emergente do iluminismo. Atualmente a Biblioteca continua a seguir a organização de Frei João de Santana, que catalogou os livros em 1809. Estes cerca de 30.000 volumes dispõem-se

hierarquicamente na Biblioteca e nas estantes, desde os textos sagrados (a norte), como as Bíblias, vidas de santos, matérias de religião, doutrina e de direito canónico; até às obras “profanas”, a sul: ciências exatas, ciências humanas, artes liberais, história, geografia, direito, entre outras; passando pelas obras de referência, que se encontram no “equador” da Biblioteca, entre estes dois “hemisférios”. Conta, ainda, com um importante número de livros raros, Livros de Horas renascentistas e uma coleção de Livros Proibidos peloIndex, conservados na Biblioteca de Mafra sob especial autorização papal, através de uma Bula de Bento XIV, datada de 1745.

O espólio do Palácio Nacional de Mafra é vasto. Além das peças de uso palaciano de várias épocas, inclui outros núcleos, como os de arte sacra da Basílica (têxteis, ourivesaria, esculturas, pintura e metalurgia) e, ainda, peças procedentes do Convento, da Real Escola de Escultura de Mafra e do Museu de Escultura Comparada.

Planta dos encanamentos de água na Real Tapada de Mafra

SISTEMAS HIDRÁULICOS

Para o funcionamento de um edifício tão vasto e dos seus jardins, era essencial o abastecimento contínuo de água. Para dar resposta a esta necessidade, o engenheiro Custódio Vieira (e outros engenheiros que também trabalharam no aqueduto das Águas Livres, em Lisboa), definiram o projeto de captação e adução de água, com origem em vários pontos na Tapada, construindo uma vasta rede de aquedutos (com cerca de 5.402m). A água captada na tapada, em nascentes e minas, era conduzida através de canais subterrâneos, ou por arcos aéreos, com tubagens de madeira, chumbo ou em telhas de meia-cana, e, por sua vez, era depositada em mães de água. Daí era dirigida para o jardim e para o interior do edifício.

No jardim, a água era acumulada em depósitos e no tanque das Omnias, associado a uma grande cisterna, a partir da qual a água era extraída através de uma nora de extraordinárias dimensões. A água do jardim servia, essencialmente, as regas das plantas ornamentais, das plantas de uso culinário e medicinal, e para as hortas e pomares, mas também alimentava alguns jogos de água, que nunca tiveram expressão monumental.

Sabe-se que estava projetado para a fachada do palácio um grande tanque “com as suas figuras jorrando água”, mas este nunca foi construído, talvez porque não existia suficiente pressão para dar grandeza aos jogos de água. No interior do edifício, além do Jardim do Buxo, existia água corrente nas cozinhas do convento e do palácio, num sistema inovador para o seu tempo.

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