
TODA A OBRA CRIATIVA É O RESULTADO DE UMA VISÃO PESSOAL, DE UM PONTO DE VISTA, DE UM “ÂNGULO” ATRAVÉS DO QUAL O ARTISTA ABORDA AS TEMÁTICAS QUE MOVEM A SUA OBRA. REALIZADORES, ENCENADORES, ACTORES, MÚSICOS, ARTISTAS, BAILARINOS, COREÓGRAFOS SÃO CONVIDADOS A DISSERTAR SOBRE O QUE OS INCLINA A FAZER O QUE FAZEM, COMO O FAZEM, PARA QUEM E PORQUÊ.

Fotografia João Bettencourt Bacelar
Seguindo a lógica de “o que nasce primeiro, o ovo ou a galinha”, o que está na génese das tuas obras: uma ideia ou uma imagem? Ou outra coisa qualquer?
Escrever, realizar e fazer arte é um processo horrivelmente stressante e cheio de ansiedade para mim. É repleto de crises de insegurança, síndrome de impostor, auto-ódio, depressão. Penso que o primeiro momento, quando surge uma ideia, normalmente é rápido. Tenho muitas ideias soltas. Em termos de cinema, posso começar por pensar num género:
“quero fazer um filme de terror” (“Amelia’s Children”) ou “quero fazer uma comédia slapstick” (Diamantino). Faço pesquisa — vejo uma data de filmes de terror e leio uma data de livros de terror, ou vejo todas as comédias slapstick dos anos 40. Grande parte do meu processo é mimético – gosto de copiar, como uma criança, a morder a língua, a rabiscar a cópia da imagem que gosta.
Acredito que a inovação, ou a novidade, vem dos acidentes quando falhamos ao copiar. Durante toda a minha adolescência, tentei copiar os pastéis sado-masoquistas da Paula Rego ou os nus de Lucian Freud. Como adulto, também gasto muita energia a tentar copiar — falho ao tentar copiar Lubitsch, Kubrick, Pasolini, Lynch, etc. Ultimamente muito tem vindo de copiar a vida (a minha autobiografia), os temas da arte e da criação artística nas minhas pinturas (músicos, pintores, cineastas, videoartistas), bem como temas de doença e deficiência (cadeiras de rodas, muletas). A minha mais recente vídeo-instalação, Bardo Loops, é uma extrapolação direta da vida, quase um ensaio pessoal sobre o meu diário.

Fotografia João Bettencourt Bacelar
Na pintura, passo muito tempo a experimentar técnicas. Antes de voltar a pintar, experimentei vários
instrumentos óticos que Vermeer usava, e experimentei usar pastéis outra vez, como fazia quando copiava Paula Rego — foi um processo de um ano à procura de uma linguagem, uma técnica, uma forma de pintar, que começasse a parecer minha. Todo o trabalho é o resultado do fracasso em atingir o desejo de o fazer. Penso que no início — o ovo e a galinha — está o desejo. O impulso. Aquilo a que Kierkegaard chama Amor. Aquilo a que Heidegger chama cuidado. Acho que muitas vezes nos esquecemos do que amamos, do que nos importa. Ficamos confusos, distraídos, deprimidos e ansiosos, e tentamos corresponder às expectativas de todos. Queremos
fazer todos felizes. Queremos que todos nos amem. Ser ricos. Ser radicais. Ser glamorosos, e famosos e sexy, e assustadores e engraçados, ousados e consensuais, tornarmo-nos tendência, virais, influencers, captar cliques, likes, comentários, surfar na onda, conquistar uma fatia de atenção, atrair olhares. Queremos tanto ser todas estas coisas ao mesmo tempo e para todos, que nos esquecemos do pequeno monstro que vive dentro de nós e que até é bastante interessante.

Cartaz filme Diamantino
Que outros artistas, mortos ou vivos, consideras que têm um ponto de vista aproximado ao teu?
Em termos de perspetiva — quem partilha a minha visão? Não sei. A sério. Adoro coisas estranhas e divergentes. Se fizesse um top quatro no Letterboxd, provavelmente seria Django Unchained, To Be or Not to Be, Ratatouille e Salò. Mas não sou fã da política do Tarantino, e quem é que realmente fez Ratatouille?
E Lubitsch — gostaria de partilhar a sua perspetiva — ele parece tão elegante, tão inteligente, tão refinado, tão querido, ótimo nos negócios, melhor na arte, mas acho que não tenho o ponto de vista dele. Acho que aspiro ao ponto de vista dele, essa ironia divertida e confortável, essa ironia não confrontacional — algo que é populista ao mesmo tempo que é inteligente e hilariante. Mas,ao mesmo tempo, algo me puxa para os desenhosanimados slapstick do Brad Bird. E depois parte de mimadora mesmo a perversão erudita do Joshua Cohen. Avery Singer inspirou-me muito na pintura, assim como tantos outros pintores — mas será que partilho a perspetiva deles? Acho que não.
Imaginemos que a tua produção artística dava início a um novo movimento, como o impressionismo, ou realismo, ou surrealismo. Como se chamaria e porquê? Melodramatismo? Realismo irónico?
Os artistas nunca dão nome a movimentos — isso é sempre coisa de críticos. Os artistas que deram nome a movimentos eram tontos — estavam mais preocupados com o manifesto e com a embalagem do que com a arte. Normalmente, a arte deles não era nada de especial.

Arguments in Favor of love
O que é que é uma inevitabilidade na tua obra? O humor? A crítica social? A cor? Tudo isto? Nada disto?
Acho que quero que todo o meu trabalho seja engraçado, perverso, político, surreal e sobre arte. Mas, mais uma vez, isto são desejos. São coisas que adoro. Adoro ler uma boa crítica feroz. Adoro um filme que faz algum raciocínio ou me dá uma nova perspetiva sobre o nosso momento político. Adoro rir-me. Rio-me de quase tudo — rio-me até do Au Hasard Balthazar.
Qual é o teu ângulo futuro? Para onde vai o teu olhar? A tua arte?
A minha perspetiva sobre o futuro é sombria. Basta ler o “AI2027” —a versão boa e a versão má. Ambas são horríveis. “Merdificação”. De tudo. Do cinema, da arte, da política, dos media, das notícias, das relações sociais, dos amigos. O mundo inteiro está a despedaçar-se e a catapultar-se para uma massa merdosa alimentada por algoritmos — lixo de IA a apodrecer mentes, córneas distendidas, ligados a ecrãs mais de 13 horas por dia, doom infinito a um scroll de distância. Chega, Trump, Bolsonaro, Le Pen são todos mestres em surfar o algoritmo e esta nova paisagem mediática “merdificada” — são os silver-surfers da onda de merda que estamos todos a navegar. E a única solução que o PS, Bloco, Livre ou Bernie vão ter para concorrer com isto é “enshittificarem-se” também. Todos têm de se tornar merdosos. Não há opção — não há “caminho nobre”, não há “tratar isto como um problema de saúde pública, como uma epidemia” — a epidemia de merda superpoderosa da IA é imparável.


