NANA DA REPOLHA

Maria Fernanda Serra Silva Abrantes, conhecida por Nana da Repolha, é uma das figuras mais emblemáticas da Ericeira. Aos 85 anos, conserva a memória viva da gente do mar. Filha de Maria “Repolha”, peixeira, e de Gregório “Russo”, pescador, começou a amanhar peixe aos dez anos, ajudando a mãe no mercado da terra, ofício que manteve até aos oitenta. O mar corre-lhe nas veias, neta, filha e mulher de pescador, hoje o seu neto, Alfredo, continua a tradição, vendendo peixe na praça. Entre recordações de privações e mares bravios, Nana fala com orgulho da sua vida de varina — “Adoro isto”, diz com um sorriso. Em relação ao peixe que toda a vida vendeu, gosta especialmente de sardinhas e fanecas, sabores que guardam a alma da sua Ericeira.

Fotografia João Bettencourt Bacelar
Ilustração Alexandra Grelha

A história de Nana da Repolha cruza-se com um acontecimento emblemático da História de Portugal, o embarque da família real para o exílio, a 5 de Outubro de 1910. Em casa, sempre se ouviu contar que o avô de Nana, João da Silva Carremona, juntamente com dois tios-avôs, José e Gregório da Silva Carremona, integraram o grupo de pescadores que nesse dia auxiliou a partida do último rei de Portugal, D. Manuel II, da rainha mãe D. Amélia e da rainha D. Maria Pia, sua avó, rumo ao exílio.

Pormenor da primeira de 4 fotografias de José Maria da Silva que registam o embarque na tarde de 5 de Outubro de 1910. do momento em que a familia real e a sua comitiva chegam praia dos pescadores. Revista Ilustração Portuguesa do Jornal O Século Nº 243 , de 1910

Fotografia de José Maria da Silva no momento em que a barca Bomfim, transportando D. Manuel II, é colocada na água. Revista Ilustração Portuguesa do Jornal O Século Nº 243 , de 1910

O embarque da Familia real para o exílio, Praia dos pescadores. Fotografia de José Maria da Silva. Revista Ilustração Portuguesa do Jornal O Século Nº 243 , de 1910

A barca Navegador transportando as rainhas D. Amélia e D. Maria Pia, para o Iate Amélia IV. Fotografia de José Maria da Silva. Revista Ilustração Portuguesa do Jornal O Século Nº 243 , de 1910

O comandate do iate Amélia IV, João Velez Caldeira, encontrava-se em serviço no Paço, enquanto o imediato, capitão da fragata João Jorge Moreira de Sá, se encontrava a bordo do iate. Foi graças à sua astúcia e lealdade que a família real pôde partir sem ser detida durante a revolução republicana. Segundo relata no livro “Aclarando a Verdade” 1910-1940, publicado pelo Mar de Letras, o iate conseguiu evadir-se do Tejo de forma engenhosa, fundeando na Baía de Cascais pela uma hora e meia, já de madrugada.

Na baía encontrava-se o infante D. Afonso, tio de D. Manuel II e irmão de D. Carlos I, que foi aconselhado a embarcar após contactos com Sintra e Mafra. Na manhã de 5 de Outubro, D. Afonso, acompanhado do conde José de Melo Sabugosa, sobe a bordo e ordena que se dirijam à Ericeira. Sabugosa desembarca num salva-vidas com a missão de informar o rei em Mafra de que o iate Amélia IV se encontrava à sua disposição.

Fotografia do Iate Amélia IV, ancorado no Rio Tejo em Lisboa, de onde partiu para a Ericeira a 4 de Outubro de 1910. Fonte Hemeroteca Digital, Arquivo Municipal de Lisboa

Ilustração da partida da familia Real na Praia dos Pescadores da Ericeira, por Cecile King. Originalmente Publicada no Illustrated London News e reproduzida na Illustrated Portuguesa, Nº246, a 7 de Novembro de 1917

O delegado marítimo José Jacob Bensabat, então capitão do porto da Ericeira, fornece pormenores cruciais no seu livro “A Verdade dos Factos” (1929, edição de autor). A preparação do embarque inicia-se pelas 13h30, com Bensabat dirigindo-se à firma Rosa & Comandita para alugar duas barcas. Como descreve,

“chamei o pouco pessoal que naquela ocasião ali tinha e dirigimo-nos para a rampa Norte que dava acesso à praia (…) foram aparecendo muitos marítimos que eu convidei a ajudarem a colocar as barcas na praia.”

A bandeira artesanal, pertencente a ericeirenses monárquicos, terá sido nesse dia colocada na barca Bomfim. Consta que Thomaz de Mello Breyner, 4º conde de Mafra e amigo íntimo da família real, a terá retirado pessoalmente da embarcação quando esta regressou à areia, procurando protegê-la dos revolucionários que vinham de Lisboa. Muitos anos depois, ofereceu-a a um grande amigo, também colecionador de antiguidades.

Bandeira Monárquica Portuguesa, coleção privada. Fotografia de João de Bettencourt Bacelar, 2025.

A família real chega à Ericeira em dois automóveis pela estrada de Mafra, mas para evitar a antiga Praça Rainha D. Amélia, atual Praça da República, mas sempre conhecida como Jogo da Bola, cheia de populares, é desviada por outro percurso. António Serrão Franco, ericeirense, corretor e amigo pessoal do rei, aconselha que desçam a pé pelas ruas do Norte.

“Durante o trajecto do Adro até à praia, a família real foi rodeada de muitas pessoas de categoria e muita gente do povo, mulheres e crianças que muito respeitosamente queriam ver El-Rei, atropelando-se as mulheres para ver as Rainhas e beijar-lhe as mãos”.

O embarque da familia real. Aguarela de Alberto de Sousa

Sentinelas foram colocadas nas duas rampas de acesso à praia do Peixe, para garantir que ninguém interferisse com a passagem da comitiva. Quatro fotografias tiradas por José Maria da Silva registam os últimos momentos do rei D. Manuel II em Portugal.

“O iate largou o porto da Ericeira às três horas da tarde. As barcas Bom fim e Navegador foram escolhidas por serem as que mais perto se encontravam da areia”.

Da esquerda para a direita: João Carriço, José Ramalho, António Maria Pachita, José Sardo, Gerónimo Carramona, Basílio Casado Junior e António Marques

Da esquerda para a direita: José da Silva Carramona, António Gonçalves, Miguel dos Santos, José Soares, Albino Sardo, José Valadão e José Maria

A compilação de relatos reunida no livro O Embarque (Acontecimento/Ericina,1990) evidencia a estranheza do absoluto silêncio, apesar da presença de uma multidão, naquele dia da História de Portugal. Três figuras foram cruciais para o sucesso do embarque, João Jorge Moreira de Sá, José Jacob Bensabat e António Serrão Franco, apoiados por toda uma vila que acolheu, protegeu e facilitou a operação.