Mandala da Ericeira

Por Susana Jacobetty

Fotografia João Bettencourt Bacelar

Na Ericeira, o mar é herança, sustento e identidade. Todos os anos, a Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem reúne a comunidade piscatória para pedir proteção à padroeira antes de enfrentar o oceano. É neste contexto que, em 2011, nasceu a Mandala da Ericeira, expressão artística que mistura devoção, memória e criatividade.

A iniciativa é de António Brites, conhecido como “Toninho”, trabalhador da União de Freguesias da Azueira e Sobral da Abelheira e descendente de uma família de pescadores. Inspirado pelo mar, Toninho criou os primeiros desenhos com corda, sal e areia, materiais simples, mas carregados de simbolismo local. O projeto cresceu rapidamente, tornando-se num rito artístico coletivo reconhecido pelo cuidado e pela ligação às tradições marítimas.

Ao longo dos anos, Toninho e a equipa têm explorado novas técnicas e cores, ampliando o tapete sem perder a temática marítima. Peixes, redes, ondas e símbolos da fé continuam a marcar cada mandala, renovando a tradição a cada verão.

A construção da obra começa por volta das 23 horas de sexta-feira, na véspera da festa, sempre no primeiro sábado após 15 de agosto e, prolonga-se durante toda a noite, terminando cerca das 11 horas de sábado.

A mandala permanece em exposição junto à Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem até domingo, transformando a rua num altar efémero de arte e devoção.

Mais do que um ornamento festivo, a Mandala da Ericeira tornou-se símbolo vivo da memória marítima, um elo entre o sagrado e o artístico, que se renova todos os verões, tal como as ondas regressam à mesma praia.