SEMENTE SURFBOARDS

por Susana Jacobetty. Fotografia João Bettencourt Bacelar

Semente, a origem de um sonho chamado surf

Quando, em 1982, Miguel Katzenstein e Nick Uricchio fundaram a Semente, não estavam apenas a criar a mais antiga marca portuguesa de pranchas de surf. Estavam a abrir caminho a uma cultura que transformaria para sempre a relação de Portugal com o mar, um país que sempre olhara o Atlântico como rota de saída, e não como território de lazer ou estilo de vida.

Miguel e Nick

Nick nascera em Connecticut e crescera em Los Angeles, onde começou a surfar aos 15 anos. Aos 21, viajou pela Europa com uma mochila às costas, até chegar a Portugal, último destino da rota. Encontrou em Carcavelos ondas consistentes, praias quase desertas e a promessa de uma vida simples, perto da natureza. Regressou aos Estados Unidos apenas para juntar dinheiro e, pouco depois, voltou de vez. Instalou-se em Catalazete, pagava cinco dólares por dia na pousada, e sonhava com um futuro no mar.

 

A primeira Lipstik

Foi na Costa da Caparica que conheceu Miguel, que já surfava desde os 18 anos. O início foi de desconfiança mútua, mas rapidamente nasceu uma amizade que se tornaria irmandade. Nick já fazia pranchas, as Lipstick, uma das primeiras marcas nacionais, e juntos começaram a viajar para a Ericeira, então remota e quase inacessível. Em tempos de gasolina cara e carros raros, os surfistas juntavam dinheiro em “vaquinhas” para conseguir chegar ao mar.

A primeira Semente

Decidiram mudar-se. E mudaram tudo.

Nos anos 80, a Ericeira era um reduto de silêncio. Não havia parque de campismo, nem escolas de surf, nem turismo. Apenas ondas perfeitas, lagartos gigantes ao sol das falésias e um punhado de pioneiros. Quando surfavam nos Coxos, a chegada de mais um surfista era celebrada como acontecimento. A comunidade era pequena, mas intensa: partilhava ondas, refeições e até dívidas fiadas no café Vitória de Ribamar.

O nome da marca surgiu entre amigos. Na lista improvisada de possibilidades, apareciam “Jamanta” e “Semente”. No registo oficial da empresa, prevaleceu Jamanta, mas foi como Semente que a marca ficou gravada na história. A palavra não podia ser mais simbólica, não era apenas uma prancha, era o gesto de plantar futuro.

Primeiro poster. Design e ilustração, João Parrinha

O início foi difícil, com encomendas escassas e entregas feitas em Lisboa, prancha a prancha. Mas a perseverança de Miguel e a visão artesanal de Nick foram criando reputação. As pranchas, primeiro feitas totalmente à mão, começaram a circular, e com elas crescia a ideia de que o surf podia ser mais do que uma aventura marginal. Vieram depois as linhas de roupa, os bodyboards em fibra, os skimboards, até miniaturas para o Natal. E, lentamente, a cultura expandiu-se.

eddie Veder (Pearl Jam) em Ribeira D’ilhas com uma semente

Hoje, a Ericeira é Reserva Mundial de Surf, destino de peregrinação para milhares de surfistas. O mar que outrora parecia infinito e solitário está agora saturado de escolas, turistas e pacotes de “experiência”. Para Miguel e Nick, a Reserva protegeu mais a costa do que as ondas. O surf tornou-se economia, motor vital para a vila. Mas, ao mesmo tempo, perdeu-se algo, a inocência de uma comunidade que celebrava cada rosto novo na água.

Primeiro logotipo. Design, João Parrinha

Apesar disso, a Semente continua. Quarenta anos depois, mantém-se fiel ao espírito original, oferecendo treinos personalizados, exigentes, livres do molde turístico. Ainda hoje, Miguel e Nick repetem que a melhor onda da Reserva são os Coxos, o lugar onde tudo começou.

Mais do que pranchas, a Semente deixou um legado, a transformação de um país inteiro na forma como olha para o mar. É uma metáfora viva. Porque uma semente não é apenas o que germina no presente. É o que permanece, atravessa gerações e faz da memória uma raiz.