O Quotidiano da Mesa Real

Por Susana Jacobetty

Esta sala, já da década de 1880, apresenta decoração neorenascentista. Obra de Leandro Braga, a ornamentação em madeira de castanho incorporou fragmentos de talha dos séculos XVI e XVII, característica do ecletismo do século XIX. Diariamente sentavam-se à Mesa de Estado: o rei, a rainha, o infante D. Afonso, os dignatários de serviço e, por vezes, convidados

A exposição O Quotidiano da Mesa Real no Palácio Nacional da Ajuda”, abre ao público dia 21 de Novembro de 2025

Há exposições que se limitam a mostrar objectos e há outras, mais raras, que revelam sistemas. O Quotidiano da Mesa Real, que irá inaugurar a 21 de Novembro de 2025, no Palácio Nacional da Ajuda, pertence claramente à segunda categoria. Não se trata apenas de porcelanas, cristais, talheres ou toalharias. Trata-se, antes, de uma arqueologia da vida palaciana, um estudo minucioso sobre a forma como o poder se servia, era servido e, acima de tudo, se representava através do ritual da refeição.

A Ajuda, com o seu peso histórico e o seu permanente diálogo entre passado vivido e passado musealizado, é o palco natural para esta incursão no universo da mesa régia. O visitante entra como quem avança para o interior de uma engrenagem cuja monumentalidade só é perceptível quando se conhece o detalhe. E a exposição, estruturada com rigor quase litúrgico, joga precisamente com essa dupla escala, do macro ao microscópico, da etiqueta às mãos que a executavam.

Chá, café e chocolate tornaram-se comuns na segunda metade do século XIX e parte importante da sociabilidade da época, entre outras bebidas como cerveja, capilé, groselha, limonada, orchata e água gaseificada. Acompanhando a característica oitocentista de uma especialização da forma para cada função, vendiam-se na época conjuntos próprios, autónomos, para determinadas bebidas. A par destes, a maior parte dos serviços de mesa integrava peças destinadas às bebidas quentes.

 “Este projeto começou por ser uma apresentação de algumas peças relacionadas com a mesa real e neste momento, há uma parte que é claramente uma solução museológica adaptada aos dias de hoje, para mostrarmos mais peças, mas também houve recuperação de património para salas que nunca estiveram abertas ao público”.

José Alberto Ribeiro, Diretor do Palácio Nacional da Ajuda

A mesa como teatro de Estado

Se a mesa doméstica comum é, na melhor das hipóteses, um espaço de encontro, a mesa real era um palco. O cerimonial, codificado ao longo de séculos, funcionava como uma gramática política: cada gesto tinha significado, cada posição anunciava lugar na hierarquia, cada objecto, do sal à salva, era simultaneamente funcional e simbólico. A exposição recupera esse idioma silencioso, revelando a surpreendente complexidade logística por detrás de um jantar real.

As peças expostas, algumas nunca antes apresentadas ao público, mostram a evolução estética da monarquia portuguesa: desde os serviços oitocentistas de grande aparato aos refinamentos mais intimistas do início do século XX. São objectos que, isolados, poderiam ser apreciados pela excelência técnica; mas que, aqui, se inscrevem numa narrativa mais ampla, onde o que importa não é apenas o que está à mesa, mas o que está por detrás dela.

“Estamos a valorizar o período de 1862-1910, o palácio teve várias vivências anteriores, mas estes são os anos de uma permanente vivência real. É a primeira vez que apresentamos tantos objectos juntos, mais de três mil ao longo do percurso”.

José Alberto Ribeiro, Diretor do Palácio Nacional da Ajuda

Os bastidores do ritual

Uma das virtudes da mostra está no modo como ilumina aquilo que normalmente permanece invisível: o trabalho dos criados da Casa Real, a coreografia precisa necessária para que nada perturbasse a impecável aparência de naturalidade. Através de documentos, inventários, registos de serviço e fotografias raras, percebe-se que a mesa régia era uma máquina humana, dependente de dezenas de profissionais altamente especializados.

Ao dar rosto, ainda que retroactivamente, a esses agentes anónimos do quotidiano da corte, O Quotidiano da Mesa Real desmonta a ideia de que o cerimonial era apenas uma ostentação ociosa. Era, pelo contrário, uma tecnologia política, sustentada em trabalho, conhecimento e disciplina.

“Há mesa eram sempre 11, 12 pessoas, não havia privacidade na corte. Os reis sentavam-se ao centro da mesa num serviço à russa, que é equivalente a um restaurante de cinco estrelas, os pratos já vinham empratados da copa, que ficava ao lado. Para podermos imaginar era muito melhor que o ritual da série Downton Abbey”. 

Cristina Neiva Correia, curadora da exposição e conservadora do Palácio Nacional da Ajuda

A experiência do olhar

A museografia, sóbria e inteligentemente iluminada, reforça a dimensão contemplativa da exposição. Não há excesso nem ruído. Cada núcleo convida a um olhar pausada, quase meditativo, como se a modernidade pedisse licença para entrar numa sala onde ainda se escutam passos antigos.

A exposição não se limita a documentar a vida da corte, mas oferecer-nos as ferramentas para compreender o modo como as sociedades se organizam em torno da representação. A mesa, esse objecto tão quotidiano, surge aqui como um lugar privilegiado para observar a história.

“Fomos descobrindo aos bocadinhos quem servia à mesa neste circuito. Os cinco moços da prata, seguiam pelo corredor da sala de jantar até à sala de lavagem”.

Cristina Neiva Correia, curadora da exposição e conservadora do Palácio Nacional da Ajuda

A cada refeição, as peças levadas à Mesa de Estado eram depois trazidas aqui para lavagem, contagem e arrumação. Este seria um lugar de grande dinamismo mas também de atenção e cuidado. Registavam-se as peças em más condições ou que não deviam voltar a ser usadas. A caldeira de ferro e o grande lava-louça revelam o uso deste espaço. Apresentamos aqui as baterias de cobres e latões, equipamento e utensílios que evocam, por seu lado, as grandes cozinhas, na época localizadas na ala norte.

Em tempos de aceleração e consumo rápido, O Quotidiano da Mesa Real propõe justamente o contrário: um regresso à atenção, ao ritmo cerimonioso, à ideia de que a forma como sentamos e servimos diz mais sobre nós do que imaginamos. Uma exposição para ver devagar, como quem se senta à mesa com a história.

Mesas do Sirius. Embarcação de recreio da Casa Real, o veleiro Sirius foi equipado com serviços próprios e de grande requinte. Construído no Telheiro das Galeotas Reais, à Junqueira, foi lançado à água em 14 de Abril de 1877 e oferecido pelo rei D. Luís a D. Maria Pia nesse mesmo ano. Elegante e estável, com interiores de luxo e casco de cobre, com uma tripulação de 8 homens, atingia a velocidade de 11 nós.