Por Susana Jacobetty
No MAC/CCB, 2026 surge como um ano de revisões e recomeços. Um laboratório de ideias onde a arte contemporânea se pensa a si própria. Sob direção de Nuria Enguita, o museu reafirma-se como um campo de investigação crítica, onde as fronteiras entre passado e presente se tornam porosas, e o museu é entendido não como repositório, mas como organismo vivo.

©João Bettencourt Bacelar

©João Bettencourt Bacelar
O programa expositivo parte de três eixos, a revisão das narrativas canônicas, a valorização das práticas emergentes e a reimaginação do papel dos museus e, articula-se num percurso que atravessa a história recente da arte e da arquitetura portuguesas, em diálogo com vozes internacionais.

Gilbert&George, March1992. Exposição May I Help You

Poodle, Jeff Coons. Exposição May I Help You?
Em fevereiro, a exposição “May I Help You? / Posso Ajudar?” reabre a coleção permanente com um gesto simbólico: repensar a relação entre instituição, artista e público. Inspirada na performance de Andrea Fraser, a mostra reúne obras de mais de noventa artistas, de Helena Almeida a Kara Walker, para questionar o próprio sistema da arte.

José Pedro Croft,20225. ©PatKilgore.

José Pedro Croft, 2021. ©João Bettencourt Bacelar
Entrevista a José Pedro Croft NA AMAGAZINE
A internacionalização do programa faz-se sentir em “Olhos Múltiplos”, que reúne Ines Doujak, Lubaina Himid e Patricia Domínguez num ensaio visual sobre narração, ancestralidade e resistência; em “Cloud of Confusion”, Frida Orupabo desmonta o arquivo colonial e digital, expondo o abismo entre memória e imagem; e na primeira apresentação em Portugal de Neïl Beloufa, que transforma o museu num jogo de ficção interativa sobre as confusões da geopolítica contemporânea.

Marisol Escobar. ©Ben Martin
A retrospetiva “Marisol: When Things Are Just Beginning” encerra o ano com mais de cem desenhos da artista venezuelano-americana, revelando a força silenciosa de uma criadora que habitou as margens da pop art com uma ironia íntima e política.

Francisca Carvalho. ©AJS2025
No campo da arquitetura, o Centro de Arquitetura do MAC/CCB inaugura “Habitar Portugal”, uma leitura de cinquenta anos de prática arquitetónica nacional como gesto político e memória coletiva, e “Terra Crua”, uma proposta ecológica que devolve à matéria do solo o seu poder de resistência e reinvenção.

Angela Ferreira. ©Laurent Lecat
Em paralelo, o Programa Público e o Serviço Educativo reforçam o museu como espaço de encontro, de escuta e de experimentação, com iniciativas como Música no Museu, Museu ao Vivo e programas de mediação dirigidos a escolas, famílias e comunidades com Alzheimer.

Patricia Dominguez. ©ImagenSubliminal
“Rever o que parecia dado, abrir o que estava fechado, dizer o que ainda não foi dito” é esta a promessa curatorial de um ano que entende a arte como espaço crítico e vivo. No MAC/CCB, 2026 será menos uma sucessão de exposições do que uma cartografia da incerteza, o museu como espelho do mundo e oficina do possível.


