

Camisa regional de pescador. Calções, Gabriel Silva Barros

Camisola artesanal, regional em lã. Calções, +351 (Loja das Meias)
Albano Jerónimo, ator e encenador formado pela Escola Superior de Teatro e Cinema, construiu ao longo de duas décadas uma das carreiras mais consistentes do panorama artístico português. Entre teatro, cinema e televisão, destacou-se pela intensidade emocional, rigor técnico e versatilidade. Para Albano Jerónimo, atuar é um exercício total, emocional, físico e intelectual, que o leva a explorar a complexidade humana com autenticidade e profundidade. Essa entrega valeu-lhe reconhecimento nacional e internacional, culminando em 2025 com o Prémio Sophia de Melhor Ator por O Pior Homem de Londres. Figura central do teatro e do cinema contemporâneo, Albano Jerónimo afirma-se como um criador inquieto e reflexivo, para quem representar é também uma forma de questionar o sentido da existência.

Atuar envolve uma grande carga emotiva e energética, com ritmos de trabalho intensos e horários de filmagens frequentemente irregulares. Como é que se dialoga com essa exigência, conciliando o ofício de ator com os outros compromissos da vida, nomeadamente a paternidade? E, nesse equilíbrio delicado, o que significa para ti ser a melhor versão de ti próprio, não apenas diante da câmara, mas em todos os momentos da tua vida?
Tocaste num ponto que eu acho que é muito importante. Na minha opinião, na minha resposta, não nas tuas perguntas. Eu sou pai, sou amigo, sou irmão, sou marido. Tento, às vezes, ser ator e encenador.
A base da minha vida é a família. Não quero falar nisto num tom conservador ou político. Mas é a família, é aí que tudo começa. E a minha base é essa, é eu tornar-me uma versão melhor de um “eu” que exercito todos os dias, que eu ponho em prática, eu educo-me para ser melhor. Para ser melhor pai, melhor marido, amigo, irmão. E a minha profissão tem a sorte de me dar, além de fazer aquilo que gosto. Dá-me estas ferramentas para exercitar a minha escuta sobre aquilo que desconheço.
Porque, no final do dia, a vida, para mim, é a construção de um pensamento ou a construção de um conhecimento. E é aí o meu foco. Portanto, essa gestão toda que falavas, às vezes é mais fácil, é mais exigente, noutros momentos.
Porque a entrega, por sua vez, naquilo que faço, tendo como base isto, o mergulho que tu dás nos trabalhos, é muito mais libertador. Porque se a base é a família, se a base é uma ilha, tu para viajares para outra ilha, que é o filme que tu estás a fazer, quando viajas para outra ilha vais solto, vais livre, vais livre de egos, de preconceitos, vais de peito aberto, pronto para um salto de fé. E este salto de fé é o trabalho que estás a fazer. Mas tudo começa de dentro para fora.
No nosso trabalho, é engraçado, muitas vezes não se fala. Pelo menos é uma coisa que me preenche diariamente, que é… Vivemos num mundo cada vez mais violento, não é? Ele sempre foi, o mundo. Mas hoje em dia, ora por redes sociais, ora por plataformas várias que te dão a possibilidade de aceder as violências várias no mundo inteiro.
Há vários exemplos, infelizmente, a acontecerem neste preciso momento em que falamos. A minha tentativa, naquilo que eu faço, é trazer um pouco mais de amor para o mundo. Amor em compaixão, em empatia, em abraçar o estrangeiro.
E isso está cada vez mais difícil. Tu trazeres essa carga de amor, e esta palavra é muito importante, “amor”, para a equação do mundo. E, no meio desta tentativa, eu tento reconhecer-me.
Como é que eu existo, como é que eu me revejo nestas tentativas, destes inputs de amor, de compreensão, de conhecimento, através daquilo que eu faço, para partilhar com o mundo. E estas tentativas são cada vez mais exigentes.

Tens alguma técnica ou rotina específica para entrares na mentalidade da tua personagem antes de filmar ou ensaiar?
Tenho. Sabes que seres pai dá-te uma rotina muito forte.
E uma das coisas que eu aprendi… Eu costumo dizer que as minhas filhas fizeram-me pai. Quando elas nasceram, também nasceu um pai. E é um bocadinho esta lógica, porque eu todos os dias literalmente aprendo a ser pai.
Ninguém me ensinou. Eu li umas coisas, falei com muitas pessoas que foram pais e por aí fora, mas ninguém no teu corpo, na tua pele, te ensinou como é que tu sentes, como é que tu vês, como é que tu geres. Portanto, esta é a minha rotina, de estar atento àquilo que eu tenho e não àquilo que eu gostaria de ter.
E a otimizar-me naquilo que eu tenho. Se eu acabar um dia e pensar, “hoje foi um dia bom”, ou acordo de manhã e penso, “consigo tomar banho de forma autónoma”. Coisas tão simples quanto isto já são motivos de gratidão. Portanto, eu foco nestas coisas muito pequeninas, porque na verdade acho que é isso que me empurra para tudo o que é mais global ou mais exterior. E acho que, sinceramente, se todos fizéssemos um bocadinho isso, focarmos nas pequenas coisas, nos pequenos gestos, acho que a coisa seria diferente, sabes? O meu exercício diário é isso.
Posso dizer-te coisas específicas, sei lá, eu gosto muito de andar, não tenho carro, e gosto de andar no metro, transportes públicos. E vou sempre com auscultadores, e muitas vezes vou com eles sem som, para ouvir o que está a acontecer à minha volta. Para ver pessoas. Porque eu gosto de ir nessa posição, de estar um bocado quase vampiresco, ver o que está à minha volta.
Portanto, a minha rotina passa muito por estas coisas. De estar atento, no fundo, ao que está à minha volta.



Como foi entrar no universo de Camilo Castelo Branco?
Foi uma viagem inacreditável com um grupo de pessoas que, isso sim, eu jamais esquecerei. Uma equipa absolutamente fantástica. E são essas pessoas que eu gravo e tenho gravadas no meu coração. A ideia de mergulharmos num universo camiliano é, por si só, um desafio dificílimo.
Um bocado remeteu–me muitas vezes para o filme do Edgar Pêra, que foi um mergulho também na obra do Fernando Pessoa. São pessoas com vários mundos dentro. O Camilo é uma personagem marcada por muitas coisas, mas pela dor, o sofrimento, a morte, com uma genialidade inacreditável, com uma capacidade de falar sobre pessoas que desconhecia.
Eu desconhecia mesmo, porque o Camilo, sabes, nunca saiu de Portugal. Nunca. E tinha a capacidade de viajar para fora deste país completamente. Uma figura incontornável na hora do romantismo, de épocas literárias, o romantismo e o realismo. Foi o único que fez essa ponte. O Eça nasceu numa lógica de realismo. O Camilo, romantismo, mas que catapultou-se ainda para o autorismo. Portanto, estamos a falar aqui de uma pessoa que usava, uma vez mais, outro detalhe. Para construir o seu imaginário, os seus livros, ele usava perto de 3 mil palavras. O Eça, perto de mil, só para veres a diferença.
Portanto, Manuel Pina disse uma coisa que eu acho que sintetiza muito bem a figura deste Camilo. O Camilo não é bustizável. O Eça de Queiroz é. Ou seja, é impossível tu criares um busto. É impossível tu pegares nesta figura e pô-la num panteão. Ele é um inconformado. É uma pessoa que não veste uma roupa fácil. É difícil de seres o alfaiate do Camilo.
E nesta lógica, como é que tu habitas este “bicho”? Por uma lógica de filmagem, de universo, criado pelo diretor de fotografia do João Ribeiro, pelo realizador Sérgio Graciano, pelo produtor Paulo Branco, como é que tu habitas este mundo, este ecossistema? No fundo, como te disse há pouco, foi um exercício de desculpa e de libertação daquilo que tu acreditas.

Camisa regional de pescador. Calças, Lightning Bolt, sandálias Lidija Kolovrat
No teu processo de habitar este “bicho”, houve uma investigação da tua parte?
Total. Eu faço isso para todos os trabalhos. Há uma investigação exaustiva de tudo aquilo que está ao meu alcance. Ora de pintura de banda desenhada, música, que seja ali quase tudo do Camilo, numa lógica de encher-me com essa informação para depois ser confrontado com um guião que já me limita à leitura daquilo que tive de fazer.
E depois chegares a um plateau, a uma roupa, a uma figurina, a um look, tudo isso me vai fechando possibilidades para chegar a um possível Camilo, final, com roupa, figurina, tudo em cima e veres-te ao espelho e veres um mundo de possibilidades depois. No fundo, eu gosto de encher tudo com a informação toda para depois dinamitar todo o trabalho que estiveste a fazer e reconstruíres.

Ficaste contente com o resultado da tua interpretação?
Se o realizador ficou e o diretor de fotografia, eu fiquei. Mais do que isso, porque aí já entraria a minha perspetiva que é redutora e não é interessante para o trabalho, porque não é o meu filme, não é sobre mim. É sobre o Camilo e as pessoas que o pensaram.
Eu só estou ali para servir essa ideia. Se eles ficaram contentes, surpreendidos, quem sabe? Perfeito.

Onde encontras o meio termo entre as intenções artísticas do realizador e a tua própria interpretação da personagem?
Eu sou sempre um veículo ao serviço de outra coisa que está acima de mim. E, nessa lógica, eu estou sempre numa posição de escuta, para me colar ao máximo à visão de um realizador, de um encenador, de um argumentista, daquilo que me pedem no fundo. Porque uma das grandes virtudes de vida, mas nesta profissão sobretudo, é saber o lugar que tu ocupas enquanto artista.
Não és simplesmente um fazedor, és um criador, sim, mas tens de saber o lugar que ocupas numa estrutura, seja ela teatral, cinematográfica, ou o que seja.

Consideras o processo de conceber um filme, um trabalho de equipa?
Sim. Aliás, é a razão, uma das razões centrais para eu fazer aquilo que faço hoje em dia, para estar nesta profissão, é porque convoca pessoas de diferentes áreas. Tenho várias perspectivas onde aprendo imenso, onde o meu trabalho de ator, que por norma é mais visível que o trabalho de um técnico, por exemplo, é fruto de um trabalho, sem dúvida nenhuma, duma coletiva.
E isso, sobretudo nos tempos que vivemos, congregar a importância do trabalho de cada ser numa estrutura é fundamental. O cinema e o teatro dependem muito do trabalho que um realizador faz, que um diretor de fotografia, que um maquinista faz, que uma maquilhagem pode fazer, ou um figurino, por aí fora. Portanto, gosto muito desta profissão porque congrega muitos desejos, muitos pontos de vista e muitos artistas à volta de um mesmo objeto.

O que te faz aceitar um papel?
As pessoas. Mais do que um guião, mais do que um texto teatral, é o grupo de pessoas. Acho que é algo que vem com a idade também, ou com a tua experiência, porque o que fica, falo por mim, é esse contato com as pessoas.
É o facto de estar aqui, por exemplo, hoje com vocês, o que fica é a vossa energia, é a vossa vontade de querer fazer diferente, de querer existir na vossa expressão. Isso é o que me move, isso é o que me estimula verdadeiramente. O texto, ou um guião, é um pretexto para poder coexistir, através da arte, com essas pessoas.

Esta visão sempre fez parte de ti, ou foi moldando-se ao longo das tuas experiências profissionais?
Foi algo que foi crescendo, esta consciência, a consciência do outro, que é fundamental.
No início, ou por inexperiência, ou por vontade extrema de quereres fazer coisas e mostrar serviço, como costumamos dizer, focas-te muito em ti e na tua pessoa. Pessoalmente, notava uma insegurança tremenda, porque, de facto, eu acredito verdadeiramente que sou uma continuação de algo que já existe.
E nessa lógica, o meu trabalho é algo que é empurrado, sugerido, por tudo o que está à minha volta. A minha função é estar aberto, é estar atento, permeável a todos esses inputs que possam surgir. E, agora sim, pela minha educação, fui habituado a ver em pequenas coisas, mundos.
Mas isto para dizer que é algo que foi sendo cimentado em mim, essa perspectiva coletiva, e também há aqui outro lado muito interessante, que é a questão da dor na vida. Quando passas por momentos que te mudam, nomeadamente quando sofres, momentos de alegria também te mudam, mas a dor foi fundamental.
A dor deu-me o corpo, devolveu-me o corpo. A dor coloca-me no presente. É ao colocar-me no presente que percebo aquilo que me falta.
Dando um exemplo muito concreto, a pandemia. A pandemia confrontou-nos com as nossas escolhas. Ora, porque não tinha uma casa que pudesse ter, sei lá, um jardim, uma zona exterior, e que isso me dificultava a estar quatro meses fechado no mesmo sítio.
No fundo, ao já ter alguma experiência nesta profissão, deu–me esta perspetiva. O que é que de facto eu preciso para existir? Ou o que é que eu de facto preciso fazer para fazer acontecer determinada linguagem, filme, teatro, o que seja? E aquilo que eu preciso são as pessoas.

De certa forma, são as pessoas que te inspiram e das quais retiras experiências para guiar a tua atuação?
Sim, para falar de pessoas, tenho de conhecer pessoas. E esta é uma máxima que eu uso para muita coisa na vida. E porque isso é que é o fascinante.
Ninguém é perfeito, talvez a natureza seja perfeita, mas as pessoas são imperfeitas.
E é nessa imperfeição, é nesse erro, nessa falha, que reside o fantástico para mim. O fascínio de querer mais, de querer desenvolver e mergulhar, estudar, exercitar essa falha. Porque nessas curvas é que existem pedaços que nos ligam.
É na falha que eu me consigo ligar, que eu consigo escutar, que eu consigo ter empatia pelo outro. E então tudo isso é o que me estimula hoje em dia.

Dirias que certas experiências são dispensáveis, há limites para o que estás disposto vivenciar?
O meu limite é o meu corpo.
Ou seja, dito de outra forma, a minha realidade é o meu corpo. Portanto, o meu limite será sempre o meu corpo. Se eu estiver doente, eu não consigo trabalhar.
Nesta lógica, contudo, não tenho barreiras num trabalho. Vou dar um exemplo muito mais básico, o despir, cenas nuas, tens uma nudez tremenda e exposição total física. Isso não é uma questão. Se o trabalho assim o pedir, terá que ser. Mas o limite passa sempre pelo meu corpo.
Experiências são importantes porque vão-te empurrando para uma zona de trabalho muito franca. No fundo, falo-te de um país ou de um mundo sem fronteiras. Que é isso que é o pretendido naquilo que eu faço, pelo menos para mim. Em uma lógica de liberdade plena. Numa plenitude.
Porque a minha função é essa. É comunicar outras coisas, outros assuntos, outros momentos, outras culturas, outras perspectivas. Pôr-me no lugar do outro permanentemente.
E o lugar do outro é aquilo que eu desconheço. E aquilo que faz essa ponte com aquilo que eu desconheço é, muitas vezes, a empatia. E a vontade de conheceres-te de facto. Sem teres, a priori, uma crítica.

Existe alguma personagem que te tenha ficou querida, tendo em conta que as emoções, situações e relações que representas são intemporais?
Sim, eu tenho a sorte de ter trabalhado em coisas que ainda hoje gosto muito.
Menciono-te vários, os dois filmes que fiz com o Tiago Guedes, “A Herdade” e os “Restos do Vento”. “O Pior Homem de Londres” com o Rodrigo Areias.

Que papel gostavas de fazer, pessoas com quem queres trabalhar, locais para filmar?
Ah, eu acho que há tudo ainda para fazer. Há tudo. Eu sou ambicioso naquilo que desconheço. E como aquilo que eu desconheço é tanta coisa, quero fazer muita coisa ainda, sabes?
Tenho desejos de trabalhar uma vez mais com pessoas. Pessoas que me estimulam imenso ou que me suscitam uma curiosidade tremenda. Como por exemplo, realizadores como Martin Scorsese, Paul Thomas Anderson, Wes Anderson.
Gostava de ir à Escócia, já estive a filmar na Irlanda, que tem uma geografia ali que se pode tocar. Adoro aprender línguas, eu cultivo-me ou educo-me nessa lógica de aumentar o meu alfabeto para comunicar. Trabalhar mais em Espanha, América do Sul, obviamente América do Norte, mas não é assim um grande sonho que eu tenho, não é aquela coisa de querer ir para Hollywood, não, não, longe disso aliás. Até digo mais, o gozo maior seria chegar a esses mercados com um filme made in Portugal. Isso sim, seria um gosto tremendo.
No fundo há, como eu considero que a ignorância é das maiores aliadas, mas quando usada de uma forma construtiva. A minha ignorância nesta perspectiva é tremenda, portanto tenho um mundo à minha espera ainda para fazer, para conhecer e para iluminar. Não há uma coisa específica que eu te diga, “Pá, adoraria fazer isto”. Há muitas coisas que eu adoraria fazer.
Espero, sim, manter-me apaixonado pela vida, manter-me apaixonado por aquilo que me rodeia.

A inteligência artificial é algo que te assusta?
Com a inteligência artificial, há toda uma perspetiva de desumanização do ser humano. Onde é que ficam as relações? Como é que nós nos reconhecemos neste novo mundo que está aí à porta?
Assusta por um lado, como é óbvio. Mas é uma mudança, e as mudanças assustam.
Não quero ser um negacionista, quero abraçar o que vem aí. Porque o mundo caminha para aí, quero ser uma vez mais, através do conhecimento, uma melhor pessoa, ao sentir-me incluída naquilo que está a acontecer à minha volta, através da compreensão. Não através da crítica, porque isso é o mais fácil.
Mas assusta, é claro. Sobretudo porque, acredito eu, pela primeira vez na história da humanidade, estamos a criar algo que nos pode, de facto, substituir, e até, quem sabe, anular, enquanto ser humano. Portanto, estes movimentos todos, como é que tu te inventas ou existes, é um desafio que hoje me estimula tremendamente.
Para, através daquilo que faço, tentar aproximar pessoas. E acredito que ao tentar aproximar pessoas, e as relações, e a importância que tudo isto tem… tentamos descodificar um bocadinho aquilo que está à nossa volta, tido como medo, não é? Porque este medo, acho, pode-nos aniquilar. E o medo aqui pode ser combatido com pessoas, através de pessoas, numa união chamada empatia e afeto.

Acha que as mudanças no futuro serão positivas?
Não sei se penso que tudo vai ficar bem.
Tudo, de certeza, vai ficar diferente. E a grande virtude é: como é que tu te consegues adaptar a essa nova realidade. No fundo nós, como animais e biologicamente, somos seres que têm uma grande capacidade de adaptação.
Estes tempos estão a convocar-nos exatamente esse lado mais primário ao bárbaro. Como é que tu te reinventas e adaptas aos novos tempos, aos novos valores. Agora, seja por oposição, por concordância, mas no fundo deste diálogo que não se perca o essencial: Uma humanidade.

Que opinião tens do cinema nacional português?
Tenho duas perspetivas: uma otimista e uma não tanto, ou se calhar mais realista.
A otimista passa exatamente pela força que nós temos de matéria-prima jovem, novo sangue. Temos inúmeros realizadores e realizadoras que estão a tentar furar, que estão a tentar existir através da sua expressão, e nisso o cinema português é muito fértil. Temos vários exemplos lá fora, cineastas que estão ora a arrancar, ora já com algum trabalho feito, que estão a dar cartas lá fora. Mantendo uma personalidade, um rigor, uma visão muito própria, cultural mesmo, sobre as coisas e o mundo, e cada vez mais isso está presente.
A parte menos ou mais realista, se quiseres, é a realidade, ou seja, é o desinvestimento. Infelizmente estamos num país onde a cultura ainda é algo que é acessório, não é uma coisa que seja essencial para a formação pessoal, social e cultural de um povo, identitário mesmo.
Portanto, oscilo um bocadinho entre estas duas.

É interessante dizeres que há esses realizadores nacionais a destacar-se internacionalmente. Estará o sangue novo de cinema português, ao não permanecer em Portugal, a levar o seu talento para o estrangeiro?
Acho que é uma dialética que existe, não é? Mas neste mundo cada vez mais global, acho que cada vez mais fácil é, ou seja, cada vez mais existe esta facilidade, esta perspetiva de que é muito mais fácil um filme, um trabalho, teu, viajar pelo mundo inteiro. Então, acho que essa porta já está aberta.
E lá fora, sim, é um veículo de expressão, onde o cinema é visto com outra perspetiva. Há um trabalho de público a ser feito neste país também, de um hábito cultural, de incentivar, exatamente, idas ao cinema, ao teatro, artes de palco, enfim, exposições, museus por aí fora. Mas, acho que lá fora é inevitável, não é? Procurar os outros mercados onde o teu trabalho tenha uma outra perspetiva ou entendimento.

O cinema Portugês é um mercado ou uma indústria?
Não, eu acho que ainda não é uma indústria.
Isso tem o seu lado positivo, porque nos permite, de certa forma, não ficarmos escravos dessa onda muito forte que uma indústria nos imprime. Portanto, há uma certa liberdade artística de tu construires o filme que tu pensaste e concebeste.
Por outro lado, perdes um bocado dessa atração de mercado, não só nacional e internacional. Em casos como Espanha, aqui ao lado, já está muito mais oliado essa perspectiva de indústria. Tem a ver com a nossa escala também, não é? Com aquilo que se faz, com aquilo que se consome também.
Mas, no meu entender, a nossa realidade pequena, pode-nos potenciar nos objetos artísticos que criamos. Lá fora, acho que temos um cunho muito próprio e acho que já nos afastámos um bocadinho dessa coisa meio… Vamos beber um bocadinho à realidade francesa, não é? Essa coisa meio autoral, fechada em si mesma, nos objetos que criávamos, mais poéticos ou não, o que seja.
Mas, no fundo, o que quero dizer é que, com este sangue novo que te falei, sobretudo com este sangue novo, existe a perspectiva cinematográfica que abriu. Está a abrir, a abrir, a abrir. E encontra mais expressão lá fora, infelizmente. É essa a realidade.

O que podes falar sobre o teu novo filme?
Está dentro da lógica de ser intemporal quase. Fiz com o Sandro Aguilar, que se chama “Primeira Pessoa do Plural”, por uma simples razão: foi o trabalho onde houve um despojamento tal, meu e da minha colega atriz, que protagonizamos o filme, que é a Isabela Abreu. O ponto de partida era muito simples, era um casal que perdia uma filha.
E o filme é exatamente uma tentativa ou tentativas de diluição de dor. Como é que tu te reinventas, enquanto ser, enquanto pai, enquanto mãe, quando és confrontado com um momento tão forte como esse? Como é que tu sobrevives? Então, nessa sobrevivência eu identifico-me, porque a minha vida tem sido muito isso, sobreviver. Reinventar um bocado, como quase todo o mundo que tenta sobreviver da melhor maneira possível, mantendo os valores que tu consideras dignos, humanos e por aí fora.
Esse filme em particular foi um exercício sobre a sobrevivência. Sobre a reinvenção do teu “eu” perante uma morte. Como é que tu consegues renascer depois disso? E nessa procura, a entrega nesse filme foi de uma generosidade tremenda, porque uma vez mais, e reforço aquilo que te disse há pouco, não foi sobre nós.
Foi sobre outra coisa que estava acima de nós. Sobre essa perda, seja ela com o filho, seja ela de outra razão qualquer. Como é que tu renasces, te reinventas a partir disso?
Styling Susana Jacobetty. Maquilhagem e cabelos Tânia Doce


