MARTA GIL

Marta Gil, atriz, apresentadora e produtora, é uma presença discreta, mas absolutamente nítida no panorama nacional. A sua trajetória tem sido feita de escolhas conscientes, onde o ofício se cruza com o instinto e a entrega encontra sempre espaço para o risco. Com um percurso multifacetado entre o teatro, o audiovisual e a apresentação, nunca abandona o palco nem a busca por personagens com densidade emocional. Licenciada em Direito, formou-se também em interpretação em Portugal, Londres e Los Angeles, cultivando uma abordagem exigente e curiosa, à arte de representar. Dividida entre a exposição mediática e a inquietação criativa, afirma-se como uma intérprete em constante reinvenção, com os pés na televisão e o olhar sempre voltado para algo maior, a arte como espaço de verdade.

A em cerâmica criado pela artista Bela Silva para a capa da A Magazine , edição 13, verão 2025

Um sonho

Ganhar um Oscar.

Um medo

A morte dos que me são próximos.

Pilares silenciosos

Os meus pilares silenciosos têm muito barulho, é na música que me refúgio, numa pista de dança com muitas pessoas à minha volta! No carro a conduzir sempre com a música ligada ou em casa a dançar sozinha. Não imagino um mundo sem música!

O livro que oferecerias a alguém que gostas

“A Solidão dos Números Primos” Uma viagem sobre diferentes emoções. Aborda temas como a crise decrescimento, a sensação de culpa e a procura da redenção.

Lenço regional alentejano (Capote’s Emotion). Vestido Self Portrait (Loja das Meias Amoreiras). Barco Clube Nautico Montargil

Playlist

A minha playlist ideal envolve diferentes géneros musicais, como obrigatórios tem de estar Beatles, Arcade Fire, Amy Winehouse, Feist e música eletrónica como Laurent Garnier.

A cultura no tecido social contemporâneo

A cultura e a educação são as bases de tudo. São o pilar mais importante para formar pessoas, para uma sociedade mais evoluída e pensante. Assistimos cada vez mais através de quem nos governa, que tendem a tornar a cultura num adereço. E enquanto não perceberem que a cultura pode e é essencial para mudar mentalidades, vamos continuar a viver numa sociedade desequilibrada.

Artistas que te convocam a pensar, a sentir ou a criar de forma diferente

Em Portugal, no teatro, admiro muito o Ricardo Neves Neves, encenador português que tem feito espectáculos incríveis. Faz teatro para todos, para todo o público sem nunca perder a sua estética e o seu cunho pessoal. Na dança Olga Roriz é um marco, conseguimos sentir tudo o que ela quer transmitir através do movimento aliado à interpretação. Lá fora, o realizador Yorgos Lanthimos, realizador de Poor Things ou Kinds of Kindess, ambos com uma certa loucura que os torna únicos e até um pouco esquizofrénicos, é isso mesmo que nos faz pensar sobre o que estamos a ver. Ele arrisca muito, consegue transmitir o caos sem nunca perder a essência da história que nos conta.

Lenço regional alentejano (Capote’s Emotion). Vestido Self Portrait (Loja das Meias Amoreiras). Barco Clube Nautico Montargil

Nomes que formaram o teu olhar artístico e completam o teu ADN criativo.

Eu comecei no teatro Politeama e, por isso mesmo, tenho de referir o nome Filipe La Féria – foi a minha escola durante 4 anos, dos 10 aos 14 com 3 espectáculos. Foram tempos felizes onde aprendi muito. A realizadora Teresa Vilaverde, que realizou o filme Mutantes, conta a história de 3 jovens que não se encaixam em lado nenhum e querem mudar as coisas. Foi nesse filme que conheci a actriz Ana Moreira e fiquei completamente rendida. Acho que esse filme me fez olhar para a força humana de outra forma.

Uma experiência profissional que te confrontou com os teus limites

Trabalhei para o Teatro Maria Vitória no parque Mayer, onde assisti ao despedimento de uma assistente de camarim por ser transgénero. Revoltei-me muito, não queria acreditar que em 2025 num teatro isto fosse possível de acontecer. O teatro deve ser um sítio de inclusão onde todos são bem-vindos. Foi uma experiência onde conheci pessoas maravilhosas e onde também aprendi muito, mas este episódio mexeu tanto comigo que acabou por quase anular as partes boas que ali vivi. O mundo está a caminhar para um sítio estranho e se não tomamos uma posição sobre aquilo em que acreditamos, estamos a compactuar com isso mesmo. O silêncio não é opção.

Aguentei até ao fim porque tinha um compromisso profissional e por toda uma equipa que não tinha a ver com a decisão que foi tomada, mas sem dúvida que os meus limites estavam presos por um fio muito fraco e muito quebrável. Não me calei e denunciei o quanto pude e esta é mensagem que quero passar… que o medo nunca nos cale!

Lenço regional alentejano (Capote’s Emotion). Vestido Self Portrait (Loja das Meias Amoreiras) Barco Clube Náutico Montargil

 

O filme da tua vida

Tenho muitos, mas há um que já vi mais de 10 vezes e que continua a ser um filme marcante. Magnolia, de Paul Thomas Anderson.

Desafios do ato de ser atriz em Portugal

Vivemos num país pequeno, mas com muito talento. Comecei nesta área quando tinha 10 anos, já assisti a muitas transformações. Os tempos mudaram, há cada vez mais actores, as redes sociais têm um lugar predominante e, ou te juntas à maré, ou ficas para trás.

Hoje não é só uma questão de talento e profissionalismo, é uma questão de likes e seguidores, de aparecer e de ser visto! Já não me queixo disso, já aceitei mas tenho pena que a qualidade tenha ficado para segundo plano. Já tive fases com muito trabalho, outras sem nada para fazer e “resistência” é a palavra que me move. Só fica nesta profissão quem resiste a todos os desafios que dela fazem parte.

Fundação Calouste Gulbenkian (CAM) 2025

Capa A Magazine Pt 13