
OS DIAS DE VERÃO
A luz do Sol a fazer cintilar, como lantejoulas, a areia colada a pele. A espuma do mar a cheirar a algas. Lamber dos dedos o açúcar… trincar a areia. O iodo a perfumar a bola de Berlim. Fechar os olhos, deitar o corpo na areia quente. Escutar os gritos e os risos das crianças. Ouvir conversas sobre tudo e sobre nada.
As estações do ano sempre foram motivo de celebração e de inspiração para os artistas, mas o Verão…
O Verão é tempo a perder. A fazer perder de vista os dias, de tão longos. E o horizonte.
Piqueniques e girassóis, como os de Le Bonheur de Agnès Varda.

Palha seca, dourada, vibrante ao vento, como as cordas de um violino de Vivaldi. Os frutos do Arcimboldo, maduros e sumarentos, a rebentar nas árvores e a escorrer pelo queixo.
O gelado e as mãos pegajosas, o doce a saber a sal. As praias de Elliott Erwitt e de Martin Parr.
O vento a desfraldar as barracas, de Sophia de Mello Breyner.

As riscas, brancas e amarelas, brancas e azuis, brancas e verdes, de Daniel Burren. Noites mornas e de sonho, como a de Shakespeare. E de Mendelssohn.
E a infância a passar-nos pela cabeça.

De tudo isso são feitas as pinturas, a aguarela sobre papel, de Rodrigo Bettencourt da Câmara. A concha a fazer de godé e a História da Arte, em particular a pintura au plein air e os esboços dos aristas impressionistas, celebrada em cada pincelada.
O conceito subjacente a este trabalho é o mero prazer de pintar, de saborear as sensações e de observar as formas, as sombras, as cores e os objetos.
O verão, ou a praia, não são propriamente o tema que desencadeia a realização desta série. É o desfrutar, em absoluto, da capacidade de representar tudo aquilo que, durante aquele tempo e naquele espaço, o artista observa.
E, para o espetador, é regressar a algo que se conhece.
A praia é democrática, é lugar de manifestação do povo em repouso, todo ele de “pé descalço”.
É aproveitar a alegria das coisas simples, gratuitas, que são para todos: o mar, o Sol e a água refrescante.


