por Susana Jacobetty
fotografia João Bettencourt Bacelar

Manuel Martins, artesão de Ponte de Sor, nasceu em 1940. Iniciou a sua ligação ao artesanato muito cedo, começando a trabalhar aos 7 anos na arte tradicional da cestaria. Filho de uma terra com raízes profundas no trabalho manual, dedicou a vida ao fabrico de cestos, atividade que ao longo das décadas foi transmitida de geração em geração mas que hoje poucos mantêm viva. Com 85 anos, continua a ser um dos mais antigos e respeitados artesãos do concelho, guardando nas mãos e na memória os saberes de uma tradição que resiste ao tempo.

A cestaria em Ponte de Sor não foi apenas uma arte, foi uma necessidade vital num tempo em que o plástico e os materiais industriais ainda não tinham invadido os lares e os campos. Cada casa possuía vários cestos, cada um com uma função definida: transportar pão, carregar azeitonas, uvas, figos ou cereais. O ofício era transmitido por tradição oral e prática direta, e cedo as crianças aprendiam a domar o vime, um material tão resistente quanto exigente.

Manuel Martins é um herdeiro direto desta tradição. Sem escolas formais de artesanato, aprendeu observando e fazendo. O seu saber é empírico, moldado pela prática diária e pela experimentação paciente. Em tempos, Ponte de Sor teve vários cesteiros, principalmente nas zonas mais próximas dos rios, onde o vime era colhido e preparado. Hoje, poucos restam, e Manuel Martins é reconhecido localmente como um dos últimos a manter vivo este ofício com autenticidade.

A cestaria exige mais do que habilidade manual; requer conhecimento profundo da matéria-prima. O vime deve ser colhido na época certa, tratado, posto a secar e posteriormente humedecido para se tornar flexível no momento da execução. Cada tipo de cesto obedece a um trançado específico, adequado à função a que se destina.

Com o declínio do mundo rural tradicional e o advento dos materiais industriais, a arte dos cestos foi perdendo relevância económica e social. Contudo, Manuel Martins manteve-se fiel ao ofício. Continua a produzir, não já para o sustento, que há muito deixou de depender da cestaria, mas pelo compromisso pessoal de não deixar morrer uma tradição identitária da sua terra.

O seu trabalho não é apenas memória; é um testemunho ativo de um património imaterial que resiste à erosão do tempo. Manuel Martins representa um capítulo vivo da história do artesanato alentejano, onde a sabedoria das mãos continua a ser uma forma de resistência cultural.


