A Batalha de S. Mamede e o seu Significado por Luís Carlos Amaral

No primeiro volume da sua História de Portugal, publicada em 1846, Alexandre Herculano analisou e explicou, de forma detalhada e objetiva, o intrincado cenário político e militar que conduziu à batalha de S. Mamede (24 de Junho de 1128) e à chegada ao poder do jovem infante Afonso Henriques (1128-1185). Sem nada dizer sobre o recontro propriamente dito, a verdade é que o erudito escritor acabou por estabelecer, em definitivo, a absoluta centralidade do episódio de S. Mamede, identificando-o como o acontecimento primordial que viabilizou a evolução do Condado Portucalense para o Reino de Portugal.

O Rei D. Afonso Henriques. pintura de Eduardo Malta para a Exposição do Mundo Português de 1940. Na Camara Municipal de Guimarães.

Mas Herculano compreendeu igualmente, que a recomposição política em curso no noroeste hispânico que S. Mamede ajudou a consumar, resultara, na essência, de uma acção colectiva, estribada no entendimento que congregou a quase totalidade dos grandes senhores portucalenses contra o domínio de D. Teresa (1095/1096-1128) e do conde galego Fernando Peres de Trava e seus apoiantes. Interessa, pois, fixar a ideia de que, com Herculano, e pela primeira vez em termos historiográficos, S. Mamede revelou-se como pedra angular da fundação da “Pátria” e do futuro reino, na medida em que o sucesso militar obtido pelo infante o colocara à frente dos destinos portucalenses, o mesmo é dizer, portugueses. Coerentemente, concluiu ainda que a batalha representava o verdadeiro início da construção da realeza do príncipe Afonso Henriques, relegando para patamar secundário a mitificada batalha de Ourique (25 de Julho de 1139).

Quadro representativo da aclamação de Dom Afonso Henriques como Rei de Portugal. O pintor veio de França com o pintor Debret para fundarem a Academia de Belas Artes no Rio de Janeiro. Aparecem símbolos romanos e o Príncipe é levantado no escudo, como antigamente acontecia com os chefes gauleses. O centro do quadro não é Dom Afonso, mas o cavalo que está iluminado e simboliza o poder que o povo português lhe entrega. Encomendado por D. João VI pouco tempo depois da chegada da família real ao Brasil, no seguimento das invasões francesas. Fotografia João Bettencourt Bacelar

O actual conhecimento da História de Portugal, nesta como em várias outras matérias, é devedor e herdeiro dos caminhos abertos pelo grande historiador oitocentista, pelo que se justifica inteiramente que o invoquemos (e homenageemos), no momento em que começamos a celebrar os 900 anos da batalha de S. Mamede. Mas destaque merece também o anónimo cónego regrante de Santa Cruz de Coimbra que, pouco antes ou pouco depois do falecimento de Afonso Henriques (6 de Dezembro de 1185), redigiu os Annales Domni Alfonsi Portugallensium regis (Anais de D. Afonso, rei dos Portugueses).

No registo dedicado à batalha, não hesitou em atribuir-lhe um carácter decisivo na afirmação de Afonso Henriques e na criação do reino. Ou seja, tanto para o bem informado cónego crúzio dos finais do século XII, quanto para Herculano, o combate travado nas imediações de Guimarães representou o verdadeiro começo, o momento a partir do qual se tornou efetiva a governação e manifestou a grandeza do primeiro rei e, consequentemente, do reino vindouro.A relevância do que acabamos de constatar deve ser destacada se atendermos ao facto de que os Annales Domni Alfonsi representam o primeiro texto de natureza historiográfica construído em torno do que viria ser o “rei fundador”. Assim sendo, comemorar S. Mamede deve ser também dar “nova vida” àqueles que, no seu tempo e nas suas circunstâncias, souberam interpretar com acerto o significado e as decisivas consequências da vitória alcançada pelo infante e pelos ricos-homens e infanções* portucalenses.

A mais antiga representação de D. Afonso Henriques. Museu da Igreja de S. Pedro de Rates, Póvoa do Varzim.

“Era 1166, mense Iunio in festo S. Joannis Baptistae infans inclytus Donnus Alfonsus comitis Henrici et reginae D. Tarasiae filius, magni imperatoris Hispaniae D. Alfonsi nepos, Domino auxiliante et divina clementia, et propitiante studio et labore suo magis quam parentum voluntate aut iuvamine, adeptus est regnum Portugallis in manu forti. Siquidem mortuo patre suo comite D. Henrico, cum adhuc ipse puer esset duorum aut trium annorum, quidam indigni et alienigenae vendicabant regnum Portugallis, matre eius regina D. Tarasia eis consentiente, volens et ipsa superbe regnare loco mariti sui, amoto filio a negotio regni. Quam iniuriam valde inhonestam nullatenus ferre valens, erat enim iam grandaevus aetate et bonae indolis, convocatis amicis suis et nobilioribus de Portugal,  qui eum multo maxime, quam matrem eius vel indignos  et exteros natione, volebant regnare super se. Commisit cum  eis praelium in campo S. Mametis, quod est prope castellum  de Vimaranes; et contriti sunt et devicti ab eo et fugerunt  a facie eius et comprehendit eos. Obtinuit ipse principatum  et monarchiam regni Portugallis.”

“Na Era de 1166 [A.D. 1128], mês de junho, na festa  de S. João Baptista, o ínclito infante D. Afonso, filho  do conde Henrique e da rainha D. Teresa, neto do grande imperador da Hispânia D. Afonso, com o auxílio do Senhor e da divina clemência, e ainda por seu zelo e esforço dedicados – mais do que por vontade ou auxílio de seus pais –, obteve o reino de Portugal com mão forte. Uma vez que tinha falecido o seu pai, o conde D. Henrique, quando ele ainda era uma criança de dois ou de três anos,  uma certa gente indigna e estrangeira reivindicava  o reino de Portugal, com a sua mãe, rainha D. Teresa,  a dar-lhes o seu consentimento, desejando também ela, com soberba, reinar em lugar do seu marido e afastar  o filho dos negócios do reino. Como ele não fosse capaz  de tolerar, de forma alguma, uma injustiça tão grande  e verdadeiramente desonrosa, pois já era de maior idade e tinha bom carácter, tendo reunido os seus amigos e os nobres mais ilustres de Portugal – os quais, sem comparação, desejavam que fosse ele a reinar sobre si, mais do que a sua mãe ou a tal gente indigna e estranha à nação –, travou com eles batalha no campo de S. Mamede, que fica perto do castelo de Guimarães;  e foram por ele destroçados e vencidos, e fugiram da sua face, e ele aprisionou-os. Obteve, assim, o governo  e a monarquia do reino de Portugal.”

Texto original e tradução publicados em: Annales Domni Alfonsi Portugalensium Regis | Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses, edição, introdução, notas e índices de Luís Carlos Amaral e Mário Jorge Barroca, tradução do latim de Manuel Francisco Ramos. Guimarães, 2024, p. 56-59.

Pormenor de quadro dos reis de Portugal, desde D. Afonso Henriques a D. João IV, provavelmente mandado fazer pelo próprio a partir de retratos que estariam no Paço da Ribeira para colocar no Paço de Vila Viçosa. Século XVII. Coleção privada.

A PRIMEIRA TARDE PORTUGUESA, de Acácio Lino. Óleo sobre tela (1922), Comp. 736 x Alt. 318. Museu da Assembleia da República Nº de Inventário: MAR 2145