Exposição In Ponderance & Play

Fotografia João Bettencourt Bacelar

Sentar-se consigo próprio—no meio de um pensamento, de uma dentada, de uma lembrança—é, por si só, uma forma de ritual. Esta exposição detém-se nos espaços silenciosos onde a reflexão se transforma em anseio e o lúdico roça o luto.

Na intimidade da psique humana, oscilamos entre o impulso e a sensibilidade, entre o hemisfério esquerdo e o direito do cérebro.

Com obras dos pintores antilhanos Reggie Colas e Ainsley Burrows, sediados em Frankfurt e Baltimore, respectivamente, In Ponderance & Play reúne dois colaboradores de longa data numa meditação sobre a alegria, a perda e o desejo. Através de pinceladas vivas e de uma paleta suave e lúdica, as suas figuras encaram-nos directamente—olhares que trespassam, desarmam e perduram.

Aqui, o lazer torna-se recipiente: por vezes sagrado, outras vezes indulgente. As figuras reclinam-se, reúnem-se, celebram e devolvem o olhar—ou então dissolvem-se em ritmo, cor e gesto. Sob a sua delicadeza habita uma profunda ressonância emocional, um aceno à memória diaspórica e à tensão persistente entre a vulnerabilidade e o poder.

Que poderíamos descobrir se déssemos voz às nossas pausas?

Ainsley Burrows

Nasceu em 1974 em Kingston, Jamaica, Criado em Brooklyn NY, vive actualmente em Baltimore. é um artista multidisciplinar que explora histórias não contadas e emoções não expressas. A trajetória artística profissional de Burrows começou após um acidente de carro que mudou sua vida no início dos seus 20 anos, que o levou a abandonar um programa de MBA e dedicar-se completamente à sua paixão pela arte. De 2009 a 2020, Burrows criou centenas de pinturas, transformando seu talento literário numa linguagem visual, utilizando principalmente tinta acrílica sobre tela.

Reggie Colas

É um artista haitiano-americano cujas pinturas em acrílico sobre tela, uma fusão de figuração e abstração, oferecem um vislumbre da indiferença negra. A sua obra, especialmente os retratos de grandes dimensões, apresenta figuras que parecem emergir (ou desaparecer) de vazios saturados de cores vivas, como se fossem falhas visuais — momentos fugazes que o espectador não deveria presenciar. Absorvidas nos seus próprios pensamentos e movimentos, mesmo quando olham diretamente para fora da tela em direção ao público, as figuras de Colas nem procuram nem evitam o olhar do espectador, embora estejam longe de não ter consciência dele.

A sua indiferença revela a ilusão ocidental que reduz as pessoas à sua utilidade, ao seu poder ou à falta dele — uma ideia historicamente comunicada na tradição da retratística através da forma como o sujeito é posicionado em relação àquilo que ‘possui’ — membros da família, criados, livros e globos sendo motivos recorrentes. Independentemente do poder, Colas sugere com as suas personagens gentilmente imponentes que talvez elas simplesmente existam — e isso já é suficiente.