Entrevista Alexandra Lencastre

Por susana Jacobetty

Fotografia João Bettencourt Bacelar

Alexandra Lencastre nasceu em Lisboa em 1965 e,aos 8 anos de idade, já sabia muito bem que queria ser atriz “Quando comecei a ver os clássicos com os meus pais, os grandes planos dos filmes dessa época fascinavam–me. Os olhos, a face e a boca das atrizes eram tão perturbadoras, que me deixava envolverpor essa ambiguidade, força e energia que passavado ecrã. Embora todas as formas de arte me encantassem e seduzissem, esta era a que achavamais completa e decidi ali que queria estar ligadaa ela, foi o meu sonho”.

Licenciou-se em Filosofia na Universidade de Lisboa e depois fez o curso da Escola Superior de Teatroe Cinema. Vencedora de vários e importantes prémios ao longo da sua carreira, é no reconhecimento de seus pares e do público que Alexandra se sente realizada. Viveu 22 anos em Cascais e do que mais sente falta é da sensação de sair do estúdio e ir-se aproximando da vila pela marginal, contemplando o mar e a luz. Escolhemos o Guincho para uma conversa com a atriz

Brincos e anéis, Leitão & Irmão. Casaco, Alberta Ferretti. Blusa, Red Valentino. Calças, Diane Von Furstenberg, tudo na Espace Cannelle.

O que sente quando interpreta uma personagem?

Depende muito do meio em que estou a trabalhar, se é no cinematográfico, televisivo ou teatral, porque são processos diferentes e têm públicos diferentes. O meu preferido sempre foi o teatro, aí encontro um espaço de construção de personagem maior, há mais tempo, podemos ir ao detalhe, é possível ir muito mais fundo na dramaturgia do texto e, o processo de ensaio é muito rico.

Qual foi a personagem que mais gostou de fazer  e a mais exigente que já interpretou?

Gostei de fazer muitas. A personagem Maria de Vilhena do livro Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, com encenação do Jorge Listopad e um elenco fantástico, foi a primeira vez que tive um grande papel. Era muito nova, ainda estava no Conservatório, e fui de uma entrega total. Senti-me a ultrapassar tudo aquilo que considerava inultrapassável e improvável, foi alcançar o impossível. Fui bem dirigida, bem acolhida, deixei-me levar pelas mãos de artesãos sapientes. A partir daí senti um reconhecimento por parte do público, mas principalmente por parte do meio teatral, passei a ser atriz.

Quem foi a pessoa mais extraordinária que conheceu  no meio do cinema, teatro e televisão?

Tantas. O João Perry por exemplo, que é um ser especialíssimo, de um enorme talento, é belo e perigoso, pérfido, mas bondoso, generoso, é a antítese dele próprio, sempre foi um bocadinho o meu herói. O Luís Miguel Cintra, o Diogo Infante, a Rita Blanco que é deslumbrante, a Eunice Munhoz que vê-la era um momento de magia e entrega, Diogo Dória, José Wallenstein, Nuno Lopes, Gonçalo Waddington entre muitos outros. Realizadores, o Canijo, João Mosos, o Vendrell, entre outros. Tive a oportunidade de conhecer pessoas fascinantes como o Anthony Hopkins, Helen Mirren, Pedro Almodóvar, John Malkovich…

Brincos e anéis, Leitão & Irmão. Casaco, Alberta Ferretti. Blusa, Red Valentino. Calças, Diane Von Furstenberg, tudo na Espace Cannelle.

Há alguma personagem que gostaria  de ter feito num filme que tenha visto?

Há um filme que eu adoro revistar, O Porteiro da Noite, realizado por Liliana Cavani, com a Charlotte Rampling. O Piano realizado pela Jane Campion, com a Holly Hunter. Os filmes de Woody Allen noutra escala. E há realizadores que me deixam fascinada. Num registo mais leve gostava de ter feito a Marie Antoinette da Sofia Coppola, numa dimensão mais profunda, A Sonata de Outono de Ingmar Bergman.

E se pudesse escolher uma personagem para interpretar no futuro, de que livro gostaria que adaptassem?

Há vários, mas há um livro em especial que até ofereço todos os anos a pessoas que não conhecem, A Espuma dos Dias, de Boris Vian. Será muito difícil transformá-lo num filme, porque tem uma linguagem muito específica. Mas de uma forma egoísta enquanto artista, seria um projeto que adoraria fazer.

Quem é o seu protagonista de sonho?

Quando era miúda adorava o Errol Flynn (risos), gosto muito do ator sueco, Alexander Skarsgard. Contudo agrada-me a ideia do personagem herói que é forte, que protege, que vence tempestades, que luta contra os maus, ou seja, o grande protetor. É um príncipe, pode até não ser o nosso amor, mas será sempre um grande amor. Nós, seres humanos, sabemos reconhecer a grandeza nos outros e comovermo-nos com isso. E isso é grandioso.

Fios com pendentes, Leitão & Irmão. Casaco, na Loja das Meias de Cascais.
Camisa e calças, Etro na Espace Cannelle.

O que ainda falta fazer neste meio para melhorar as condições de trabalho e criar oportunidades para quem o escolhe?

Os apoios. Neste momento ainda vivemos na idade das trevas, fazer só teatro neste país é impossível, ninguém consegue sobreviver. Mas também acho que as pessoas que continuam a trabalhar contra o sistema (há companhias de teatro que persistem numa repetição de um modelo que criaram no início) acabam por se perder. Mas há bons exemplos, como o Teatro Nacional, o Teatro da Trindade, o Teatro Maria Matos ou o Teatro Villaret. Na minha opinião o que também é preciso, é melhorar e aumentar a humildade, às vezes há pessoas que não duvidam do seu projeto e depois não percebem porque não foi um sucesso. Acho que a liberdade na criação deve existir, mas com uma consciência, até cívica.

A sua filha também é atriz. Qual foi o melhor conselho que já lhe deu?

Desiste (risos). A Margarida era muito boa aluna, escrevia muito bem, pensou ir para letras e tinha imensos projetos e esteve muito indecisa. Tinha uma capacidade enorme de me impressionar e eu não sou muito facilmente impressionável e, por ser minha filha, eu exigia ainda mais. O conselho que lhe dou é de conseguir rapidamente vestir a pele, a alma, a voz, os movimentos da personagem e, porque às vezes, esquecemos-nos de nos despedir dela, deixá-la em plateau.

A minha outra filha, a Catarina escolheu um caminho diferente, tirou o curso de Graphic Design & Illustration em Londres e está a trabalhar na BBC, é independente e está feliz.

Realização: Susana Jacobetty
Fotografia: João Bettencourt Bacelar
Vídedo: Maria Jacobetty Bacelar
Design: Guilherme Cliché
Maquilhagem: Tânia Doce
Cabelos: Carmo Catarino
Agradecimentos: Hotel
& Restaurante Fortaleza do Guincho
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