Pavia por Custódia Casanova

Anta – Capela de São Dinis. Monumento Nacional desde 1910

PAVIA É UMA PEQUENA VILA MUITO BELA!

Nela um dos lugares a visitar é o Miradouro, onde se pode apreciar uma paisagem verde com um olival tradicional, cheio de oliveiras milenares, que ainda nos dão azeitona. Mais além, do outro lado da Ribeira de Têra, é o montado que se avista e pela tardinha o céu mostra-nos “ os poentes incendiados”, como escreveu Fernando Namora.

Oliveiras milenares em Pavia

Os olivais tradicionais e montados guardam ainda no seu seio as plantas que o saber popular soube aproveitar e transmitir de geração em geração e que, ao longo do ano, ainda é possível colher por aqui: espargos silvestres, cogumelos, túberas, as plantas medicinais e aromáticas (orégãos, poejos, marcela, fel-da-terra, alecrim, rosmaninho) ou ainda as alabaças, os saramagos, os cagarrinhos e as bagas de Murtinho para fazer geleia ou licor, assim como os medronhos e as amoras silvestres que são néctares dos deuses.

E que dizer do cantar dos grilos ou das cigarras pela hora do calor, do canto das rolas, do pio dos mochos e pela noitinha o concerto do coaxar das rãs, da existência das corsas, das raposas e de outros animais que a biodiversidade, nos permite usufruir… Grandes vultos da literatura escreveram sobre Pavia. Florbela Espanca (Cartas), José Saramago (Viagem a Portugal), Urbano Tavares Rodrigues (Luz da Cal) e Fernando Namora (Retalhos da Vida de um Médico e O Trigo e o Joio).

Namora enquanto aqui viveu, não exerceu apenas medicina. Atento à vida e relações sociais dos lavradores, dos camponeses, estes que por vezes “apenas uma laranja” tinham como paga, analisou as suas maneiras de ser e escreveu, o romance, O Trigo e o Joio, testemunho sobre os alentejanos pavienses, da década de 40 do séc. XX. É este romance que deu origem ao Roteiro Literário Namoreano, do mesmo nome. No centro da vila há uma Anta transformada em capela, dedicada a S. Dinis e mais quatro igrejas, todas bem conservadas e que merecem visita. No entanto, a mais bela de todas, é a Igreja Matriz ́ (Séc. XVI), classificada como Monumento Nacional tal como a Anta-capela.

Custódia Casanova

Ceifeiras 1951 (Antónia Danças, Rita Danças e Constantina Danças). fotografia Belisanda Caeiro

“À volta da igreja, as casinhas brancas, com altas chaminés que lhes furam o dorso atarracado, fecham-se num reduto que a voracidade calma do trigo não consegue romper” .

F. Namora.

O edifício da Junta de Freguesia é do séc. XVII e ali funcionou a Câmara Municipal até 1838. A Torre desta praça pertenceu aos Cavaleiros da Ordem de Avis D. Dinis deu-lhe o 1o Foral em 1278 e D. Manuel I o Foral de Leitura Nova, em 1516. A pedido de D. Dinis ou ainda de D. Afonso III, um Cavaleiro de nome Roberto, vindo de Pavia, do Ducado de Milão, aqui se instalou com um grupo de imigrantes e daí terá nascido o nome da bela vila de Pavia.

Primeira página do foral novo de Pavia, doado por D. Manuel I em fevereiro de 1516 (Junta de Freguesia de Pavia)

Sem Titulo, Manuel Ribeiro de Pavia. Tinta da china e anilinas. 39,5 x24 cm, Coleção Rui Feijó

“Pavia, em 28 de Julho de 1916 Julinha

Eis-me no coração de Portugal. Numa modesta e pequenina aldeia, adormecida e quieta, onde o vento tem vozes humanas ao bater às nossas janelas que olham para o poente, sobre um monte cheio de pios de aves e murmúrios de folhagem amarelecida e triste. A Ribeira corre lá abaixo beijando os pés às casinhas brancas, humildes e pobres, espreguiçando-se ao sol…

e àquele sussurro da água, têm maior amplidão os nossos sonhos e mais altas aspirações as nossas almas. As lavadeiras batem as roupas, as flores de eloendro caem com murmúrios abafados na água muito azul, e não sei se serão mais cor-de-rosa as suas pétalas se certas mãos delicadas que, dentro da água, torcendo o linho branco, fazem também lembrar pétalas suavíssimas de alguma grande flor desfolhada. Ao longe, as ruínas dum ninho; mais longe ainda, como um fio de prata, a ribeira correndo… As mulheres daqui são quase todas belas, com corpos perfeitissimos. A fonte fica em baixo, de forma que é todos os diasuma romaria de risos, de canções, de nomes chamados em voz alta para o conversado ouvir, à tarde, à hora nostálgica em que o mundo se encosta para sonhar, e em que os risos da ribeira se transformam em soluços. Cântaros cheios e elas que sobem aos grupos a ladeira da fonte, são belas assim! Um poeta não as sonharia mais esculturais quando sobem, erectas e agéis, a íngreme estrada bordada a madressilvas… Moças
de Jerusalém! Parece-me até reconhecer a Samaritana, naquele grupo de morenas a sorrir, como outrora sorriu Jesus ao oferecer-lhe a água límpida!…

Adeus, querida. Todos os beijos da tua

Florbela”

Excerto do livro Cartas (1906-1922), Obras Completas de Florbela Espanca, Volume V. Recolha, leitura e Notas por Rui Guedes, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1986

Ceifeira.Grafite, 32,5 x 32 cm.Coleção Casa-Museu Manuel Ribeiro de Pavia

Custódia Casanova

Pavia, José Manuel Ferreira, 2017.