

Joana de Verona, Guimarães 2024, fotografia joão Bettencourt Bacelar
Por Catarina Pereira
A Cantarinha dos Namorados de Guimarães, também conhecida como Cantarinha das Prendas, é um objeto de grande valor simbólico, utilizado tradicionalmente no concelho como sinalizador de sentimentos afetivos entre as pessoas. Esta peça não é uma criação recente. Na verdade, a arqueologia indica-nos que os oleiros vimaranenses já produziam este objecto singular desde, pelo menos, o século XVI.
Originalmente, o cântaro era uma peça utilitária destinada ao transporte de líquidos, principalmente água, beneficiando da capacidade do barro para manter o conteúdo fresco por mais tempo. A distinção do recipiente vimaranense para outros similares residia, todavia, na sua decoração, muitas vezes elaborada com relevos e pó de mica, conferindo-lhe um caráter luxuoso. Assim, uma mulher que carregasse à fonte um cântaro decorado demonstrava uma posição económica destacada, ou indicava que a peça lhe tinha sido oferecida por um pretendente como gesto de amor.

Uma década depois, em 1980, um antigo oleiro, Joaquim de Oliveira, descendente da família de oleiros alcunhados de «Rainha», conseguiu o apoio do município de Guimarães para reabrir a antiga olaria da família Machado, conhecida como dos «Réus». Em 1984, a Câmara Municipal de Guimarães adquiriu o edifício, que se tornou a Olaria da Cruz de Pedra, e, com a ajuda do mestre Joaquim, a produção da Cantarinha dos Namorados foi reiniciada. Esta ação resgatou a peça da extinção e revitalizou o seu significado romântico e histórico. Manuel Meneses de Sousa, outro oleiro, também contribuiu para esta iniciativa, preservando as técnicas tradicionais associadas à manufactura da cantarinha.

Nos finais dos anos 1990, com o apoio do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), a Oficina organizou os primeiros cursos de formação para a produção da cantarinha. Joaquim de Oliveira foi o mestre oleiro que conduziu estes cursos, conseguindo formar apenas três novas oleiras, devido à complexidade das técnicas necessárias ao levantamento de uma peça na roda de oleiro. Bela Alves, uma dessas artesãs, foi contratada pela Cooperativa Municipal e até dezembro de 2022, dedicou-se exclusivamente à produção da cantarinha na Loja Oficina, um espaço de ateliêr e venda de artesanato em Guimarães. Atualmente, a produção continua nas mãos de Bruna Freitas, garantindo a continuidade desta tradição.

A Cantarinha dos Namorados é um testemunho tangível da história e da cultura de Guimarães. O seu nome e a sua forma têm sido preservados e adaptados ao longo dos séculos, garantindo a continuidade de um património único. A perpetuação desta peça depende não só da formação de novos oleiros, mas também do reconhecimento e valorização da sua importância cultural e histórica. A cantarinha não é apenas um objeto utilitário; é um símbolo de amor, tradição e do património comum, que merece ser preservado para as gerações futuras. Assim, a Cantarinha dos Namorados continua a ser um elo entre o passado e o presente, artefacto que conta histórias de amor e de dedicação, refletindo a rica e multissecular História da olaria de Guimarães.




