
Nas décadas de 80 e de 90, as cidades tinham o formato de um donut. As baixas do Porto e de Lisboa foram objeto de um movimento centrifugo, que atraia para as suas periferias novos moradores. Eram os empreiteiros e o advento do crédito bancário que estabeleciam as novas fisionomias urbanas, enquanto os centros históricos se degradavam e ficavam entregues ao abandono e a uma desertificação que alimentava sentimentos de insegurança. O turismo voltou a encher o donut, mas as consequências disso não se fizeram esperar.
Os despejos tornaram-se o reverso de um movimento especulativo alimentado por um turismo massificado, que as companhias low cost incentivaram até à exaustão. A descoberta de Portugal como destino turístico pacífico, agradável e barato, na ressaca da crise financeira que levou à intervenção da troika, teve o condão da reabilitação urbana, nem sempre da forma mais desejável, que os poderes públicos não lograram, mas também o efeito pernicioso de aumentar as rendas e o valor do metro quadrado, com as devidas consequências no mercado da habitação. Foram as low cost, os alojamentos locais, o Booking.com ou o Airbnb que foram construindo as novas fisionomias das cidades.

Não se concretizaram as previsões que, supostamente, uma pandemia global deveria ditar nos nossos padrões de consumo. Com o final da pandemia, a viagem emergiu como vingança dos tempos de confinamento, agravando as dificuldades de coexistência entre vida noturna e moradores, entre turistas e locais. Milhares de pessoas protestam, no areal das praias das Ilhas Canárias, contra a presença dos turistas, a Câmara do Porto tenta limitar a circulação de autocarros turísticos, mas os operadores respondem com a ameaça de fazer parar o trânsito nos acessos ao centro da cidade. A coexistência complica-se.

As ruas, hotéis e alojamentos locais cheios de turistas, numa réplica anual do que existia, sazonalmente, no Algarve, tem de ser compatível com uma cidade na qual todos possam morar. As cidades não podem ser organizadas segundo uma hierarquia sócio-económica, que atribui um código postal em função do poder de compra. Os poderes públicos não podem ser espetadores passivos destas geografias. O preço a pagar para viver na cidade é demasiado elevado para permitir que elas não sejam, ao mesmo tempo, geradoras de exclusão, discriminação e de raiva. Era bom que conseguíssemos coexistir.




