
ANA PAULA AMENDOEIRA
Vice Presidente CCDR Alentejo
“Eu sou devedor à Terra”. Este foi o primeiro verso que se ouviu em 2014, em Paris, no dia 27 de novembro, na sede da UNESCO, após o Cante Alentejano ter sido declarado Património Cultural Imaterial da Humanidade. Um grupo de homens (grupo da casa do povo de Serpa) entrou na grande sala onde decorria a reunião com as delegações da maior parte dos países do mundo e cantou:
Eu sou devedor à terra.
A terra me está devendo.
A terra paga-me em vida,
eu pago à terra em morrendo.
Alentejo, Alentejo terra sagrada do pão…

Toda a sala rendida e emocionada e surpreendida ao mesmo tempo. E aqueles homens, os nossos, resgatavam em poucos minutos gerações e gerações de sofrimento, de pobreza, de força e de sentimento, e de comunhão com esta terra. Tantas e tantos, mesmo os muitos que já partiram, que assim viam subir ao palco do mundo este património dos pobres! Nunca agradecerei o suficiente à Vida por me ter dado este presente: estar ali, viver aquele momento com os meus, com os nossos.
As lágrimas por tudo isto vieram aos olhos da maior parte de nós, os alentejanos que estávamos naquele dia em Paris. Ainda na sala da UNESCO, e logo a esta entrada do Grupo de Serpa, escrevi um pequeno texto que aqui reproduzo parcialmente:
“Nunca vi um alentejano cantar sozinho com egoísmo de fonte
Não há quem melhor tenha feito a síntese poética do que é o cante alentejano: José Gomes Ferreira, Poeta Militante, como ele próprio se definiu, faz-nos sentir sempre a emoção, neste verso que nos atinge ternamente, a nós, alentejanos, no mais fundo da nossa alma. Porque sabemos que é verdade! Este verso encerra toda uma identidade cultural. Dizer que um alentejano não canta sozinho com o egoísmo das fontes, quer dizer que aqui, no Alentejo, existe o hábito e a tradição do cante em grupo, do convívio inevitável, da conversa longa e espaçada, de ouvir o outro, de olhar em volta, de ver e sentir e compreender o território, e da relação forte com a paisagem e com a terra.
Um programa identitário que permite compreender uma certa visão do mundo.
(…)
O cante está vivo e recomenda-se. E deve-o a muitos. Desde logo aos que cantam, a todos, organizados em grupos ou em contextos informais, apenas porque a alma lhes pede. Mas também aos que têm insistido e persistido, contra todas as adversidades e obstáculos, em continuar a fazer sempre o melhor que em cada momento lhes é possível. E isso é muito e é razão de sobra para agradecermos esta dádiva generosa deste Alentejo Todo que virá com certeza acrescentar calor cultural e alegria aos nossos dias, para que continuemos sempre a cantar com os outros, sem o egoísmo das fontes.
Paris, em 27 de novembro de 2014”

Já nesse ano antecipávamos os riscos da banalização e uniformização da cultura, se apenas ligada ao entretenimento, e como o Cante poderia reforçar a nossa cultura, e ao mesmo tempo contribuir para uma abertura ao mundo.
A mediatização das listas UNESCO levou a que na última década, grosso modo, o Património Cultural Imaterial tenha assumido uma verdadeira dimensão estelar e também que a ele se associe sempre uma valorização turística dos territórios, de tal maneira que mesmo as práticas que são inscritas como necessitando de salvaguarda urgente, portanto em risco, são rapidamente incluídas nos roteiros turísticos das regiões, e sobre salvaguarda muitas vezes nem se fala.
Ora o que nos parece mais importante no universo do que se convencionou chamar PCI (património cultural imaterial), e que os nossos etnólogos tanto estudaram, é mesmo a dimensão do conhecimento, do tradicional, dos saberes e das práticas que estão integradas em visões do mundo e , modos de vida e maneiras de pensar e de construir respostas. Saberes que, a maioria das vezes, não têm autor, mas muitos autores, desconhecidos ou não, tratados quase como uma arqueologia.

Cante Alentejano por António José Ramos Santos, vila Viçosa
Saberes e artes ligados à terra e ao céu, ao sol e à lua, aos ventos e às marés, à água e ao fogo, ao frio e ao calor, aos santos e aos demónios, às pedras e às árvores, às flores e aos frutos, às casas e às igrejas, às crianças e aos velhos, às raparigas e aos rapazes, à voz, à alma e ao coração. A Deus. À Vida!
O Alentejo tem essa possibilidade de uma região a haver! Ainda temos as respostas para olharmos de frente e em frente. É na cultura que estão muitas das respostas às grandes questões. Esta dimensão imaterial das nossas vidas é essencial para lidarmos com o tempo, com o princípio da atividade incessante e na duração ininterrupta em que a sociedade de consumo mergulha a existência humana. Essa ferida faz-nos desaprender o que os nossos ancestrais sabiam sobre o tempo e os seus mistérios. É um erro achar que podemos viver sem mistérios e sem segredos, num estado de permanente vigilância a tudo e a todos que a tudo e a todos banaliza.

Cante Alentejano por António José Ramos Santos, vila Viçosa
Os mistérios são precisos ao nosso tempo e ao entendimento que fazemos do tempo e do vagar. Os contos, as lendas e a sua transmissão oral são cada vez mais necessárias para salvaguardarmos os segredos do nosso coração, porque eles guiam-nos simbolicamente com a intuição a uma essência interior. Tudo isto está no que chamamos Património Imaterial, é por isso que ele tem de ser muito mais importante do que um cartaz para vender “os Alentejos dos serenos sofrimentos de sobreiros a sangrar”.



