
Não há alguns anos se pensava que a pintura da modalidade de fresco era uma realidade artística, se não inexistente, pelo menos muito rara e reduzida a casos esporádicos em Portugal e confinada, sempre, em ambientes de periferia. Os estudos mais recentes vieram provar o contrário, dada a quantidade e qualidade de conjuntos fresquistas (muito deles cobertos de cal ou tapados por equipamentos de talha barroca) que puderam ser descobertos em igrejas, conventos, palácios e outros espaços, sacros e profanos da nossa Idade Moderna. Alguns deles são de especial nível artístico, mostrando que existiram entre nós, desde o século XVI, artistas especializados nessa modalidade, alguns deles atuando por iniciativa régia ou servindo clientes de importância social e com conhecimento direto de um gosto que, sobretudo em Itália, sempre conheceu especial fortuna.

Pormenor Teto sala, Paço Ducal, Vila Viçosa.Fotografia João Bettencourt Bacelar
O caso do riquíssimo ciclo fresquista patrocinado pelos duques de Bragança no seu Paço de Vila Viçosa, e noutros espaços existentes nessa vila e nos seus domínios, integra-se exatamente nesse espírito de redignificação de um género artístico que seguia os bons modelos que tinham no Renascimento e no Maneirismo italiano as suas fontes de inspiração.

Pormenor do Coro Alto. Convento das Chagas, Vila Viçosa.Fotografia João Bettencourt Bacelar







Pormenores do Coro Alto. Convento das Chagas, Vila Viçosa.Fotografia João Bettencourt Bacelar
Apesar de muitos dos exemplos terem desaparecido, fruto das novas modas e gostos estéticos imperantes com o Barroco, no século XVIII, o que ainda existe de frescos do Paço de Vila Viçosa e em igrejas e capelas da zona calipolense oferece um acervo de especial importância.

Pormenor de fresco na escadaria do Paço Ducal, Vila Viçosa. Fotografia João Bettencourt Bacelar
Face ao que já se apura em conhecimento e face aos núcleos que já se estudaram, restauraram e documentaram, é hoje o momento de afirmar o prazer inestimável que advém do diálogo com a força cenográfica e a intimidade das formas artísticas que pulsam da contemplação destes frescos que se podem admirar em Vila Viçosa e documentam os tempos mais antigos da vivência ducal. Mas, além do Paço, importa visitar o Convento das Chagas e no da Esperança, a igreja de Santo António, as várias ermidas da Tapada, entre muitos outros exemplos de obras murárias a fresco realizadas na zona calipolense e que só começaram a ser revalorizadas em anos recentes.


Pormenor do teto, Paço Ducal de Vila Viçosa.Fotografia João Bettencourt Bacelar
Estas são razões que tornam tão importante a existência destes núcleos de pintura a fresco sobreviventes em Vila Viçosa, tanto no Paço dos Duques de Bragança como em outros edifícios sacros e civis da cidade alentejana. Trata-se, ademais, de um ciclo erudito com o objetivo comum de enaltecer a antiguidade de uma das famílias mais nobres do Reino e de a legitimar em nome da fama, do heroísmo, das virtudes e do pundonor de alguns dos seus membros mais célebres. Depois de 1580, Vila Viçosa será mesmo uma espécie de capital alternativa do reino, daí o extremoso investimento cultural com que a Casa Ducal dotou o Paço, centro de atividades literárias e palco de decorações requintadas.



Capela de São João Baptista da Carrasqueira – Vila Vicosa. Fotografia João Bettencourt Bacelar
A temática dos frescos maneiristas de Vila Viçosa é rica e reflete de alguma maneira a extensão do debate de corte que se desenvolvia dentro das paredes do Paço, desde o tempo de D. Teodósio I.

Pormenor Convento das Chagas de Cristo.Fotografia João Bettencourt Bacelar
O que nos chegou de tais campanhas fresquistas quinhentistas (e seiscentistas), apesar das diferenças que decorrem da subordinação a novos gostos decorativos, a adições construtivas, ao abandono de estruturas e a maus tratos causados por ignorância ou vandalismo, é ainda, na quantidade de espécimes e na qualidade plástica, significativo. Se é certo que parte das decorações palatinas assinaladas na documentação, ou pressentidas por ténues indícios, não sobreviveu até aos nossos dias, a verdade é que, face ao remanescente e, sobretudo, ao merecimento de alguns dos artistas intervenientes nestas campanhas, pode-se concluir que não existe hoje, em todo o país, outro espaço que lhe seja equiparável, mesmo no que concerne ao conhecido conjunto de frescos alegórico-mitológicos do Palácio de São Miguel, ou dos Condes de Basto, em Évora, cujas decorações pictóricas são mais ou menos coevas das que se citaram em Vila Viçosa e que, curiosamente, envolveram os mesmos artistas, conforme vem sendo revelado através das pesquisas mais recentes.

Pormenor Convento das Chagas de Cristo.Fotografia João Bettencourt Bacelar


Pormenor Convento das Chagas de Cristo.Fotografia João Bettencourt Bacelar



Pormenor Convento das Chagas de Cristo.Fotografia João Bettencourt Bacelar


