
Por Susana Jacobetty
Visitar ou ficar no Palácio Hotel do Estoril é muito mais do que uma escolha turística, é percorrer os corredores da História, ainda que esta seja mais recente. A origem deste hotel começa com Fausto Figueiredo (1880-1950), natural de Baraçal, na Guarda, que cedo foi para Lisboa licenciar-se em Farmácia. Mais tarde ingressou no conselho de administração da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, organização da qual vem a ser presidente, assim como vice-presidente e presidente da Câmara de Cascais. Mas será com a compra da Quinta da Vianinha, uma extensa propriedade no Estoril, que ficará para a História como o grande pioneiro e dinamizador do turismo internacional em Portugal.
O projeto começa em 1913, mas devido a constrangimentos inerentes à Primeira Guerra Mundial, as obras pararam e só foram retomadas em 1928. É inaugurado em 1930, tornando-se no hotel mais moderno de Portugal, tendo como primeiros hóspedes o futuro imperador do Japão, o príncipe Hirohito e sua mulher.




O Casino, que na época também pertencia à família, abre em 1931. Foram, igualmente, construídas as arcadas do Estoril, o Tamariz, um campo de golfe, o Hotel do Parque com as famosas termas, já usadas pelo rei D. José e que hoje são um spa. Nessa época e, porque os Caminhos de Ferro lhe pertenciam, Fausto Figueiredo trouxe o Sud Express diretamente de Paris, até à estação de ferro do Estoril.

Casamento da princesa italiana Maria Pia de Sabóia, com o príncipe Alexandre da Jugoslávia. Palácio Hotel Estoril, 12 de Fevereiro de 1955.
Em decorrência da Segunda Guerra Mundial foram várias as famílias reais e nobreza que procuram Portugal enquanto país neutro. O Hotel Palácio era o mais novo e moderno do país, estava estrategicamente perto de Lisboa, mas afastado o suficiente para permitir um dia a dia tranquilo, tornando-se numa escolha óbvia desta leva de exilados de luxo, como o rei de Itália, a família real de Espanha, a rainha da Bulgária e a rainha da Roménia. Ali se realizaram dois casamentos reais, a filha do rei de Itália, em 1955, com dois mil convidados e a filha do conde de Barcelona, em 1964. Mas para além de reis e rainhas, o hotel também era frequentado por espiões e, foi ali que nasceu a icónica personagem de Ian Fleming, James Bond, 007.
Casino Royale (1953), foi o primeiro livro da saga, inspirado precisamente no Casino do Estoril e no Hotel Palácio, tendo muitas semelhanças com estes espaços, fáceis de reconhecer por quem vive e conhece bem estes locais.
Manuel Guedes de Sousa, atual diretor do hotel, conta-nos algumas histórias dessa história. “James Bond nasceu no Hotel Palácio. Em 1941, o hotel e o casino eram do mesmo proprietário e nessa altura, Ian Fleming, escritor inglês, jornalista e oficial da Inteligência Naval Britânica, é enviado para Lisboa, com o objetivo de controlar um espião duplo sérvio, Dusko Popov, com o nome de código de Triciclo, que trabalhava com os ingleses e com os alemães. Todas as noites ia ao casino, diz-se que a jogar com o dinheiro dos aliados, sempre rodeado de mulheres muito bonitas, era convidado para as grandes festas que se davam no Estoril e em Cascais, tinha uma vida de príncipe e vivia como um rei, numa altura em que todos se ressentiam e retraiam com a guerra.
Nessa época, os aliados estavam no Hotel Palácio e os alemães no Hotel Atlântico, atual Hotel Intercontinental, que exibia uma cruz suástica na sua entrada. Consta que muitas vezes os alemães e os ingleses se encontravam no bar do Hotel Palácio e que o concierge do hotel era uma pessoa a quem a imprensa recorria. Informava-os de quem estava a beber champanhe, se os ingleses ou os alemães, o que queria dizer que tinham ganho uma batalha. Este senhor ficou conhecido pelo champagne news“.

Livro oferecido pelo neto de Dusko Popov ao Palácio Hotel Estoril.
O neto de Popov é convidado para visitar o Hotel Palácio num evento de homenagem dos 100 anos de Ian Fleming organizado pela Câmara Municipal de Cascais. Falou sobre a amizade entre os dois agentes dos serviços secretos que voltaram a encontrar-se no final da guerra e, mantiveram uma amizade que perdurou até ao final das suas vidas.
Em 1968, rodaram o sexto filme de 007, Ao Serviço de Sua Majestade, maioritariamente em Portugal, ficando a equipa hospedada no hotel durante três meses. O exterior do hotel, o lobby, a piscina e a vista dos quartos são parte integrante de muitas das cenas do filme, que teve como protagonista o modelo australiano, George Lazenby, que se fez passar por ator no casting. José Diogo Vieira, um funcionário do hotel, de 18 anos, é convidado para entrar numa cena do filme, o que viria a revelar-se um momento decisivo na sua vida.
É possível ver o funcionário do hotel em imagens de: Ao Serviço de Sua Majestade, entregando a chave do quarto nº 516 ao agente James Bond. José Diogo Vieira, ainda hoje trabalha no hotel, é um dos chefes de portaria do Palácio, mas também, podemos considerá-lo um grande embaixador deste espaço.




