

Por: MANUEL JOÃO RAMOS
É difícil encontrar recanto mais desconsolado na zona do Parque Expo que o ermo junto ao Trancão e aos pilares da Ponte Vasco da Gama. Entre ervas secas, bancos degradados e piso de cimento quebrado, erige-se uma obtusa estátua dedicada a Catarina de Bragança, filha de D. João IV. A estátua faz lembrar uma “Barbie do século XVII” disse alguém há tempos. Plantada num descampado nas margens do “Jardim do Passeio dos Heróis do Mar”, a estátua exprime bem o abandono e o incómodo da desmemória lusa em relação a uma mulher vendida à coroa britânica em nome da salvaguarda de uma “velha aliança” que sempre pareceu mais um tratado colonial que outra coisa. A vida de Catarina em terras inglesas foi aparentemente miserável.
Desquerida por Carlos II, católica entre protestantes, sofrendo o opróbrio duplo da fealdade e da infertilidade, de pouco lhe valeu ter levado como enxoval o chá, as laranjas e os garfos civilizadores para as ilhas de Albion, junto com algumas minúcias territoriais: Bombaím e Tanger. Quando o seu cunhado, James, duque de York e futuro sucessor da coroa, comprou Nova Amsterdão aos holandeses, rebaptizou a cidade como Nova Iorque e deu a uma parcela desolada do novo domínio colonial inglês o nome de Queens, como evocação de Catarina.

Busto de D. Catarina de Bragança em frente ao Palácio da Bemposta, Lisboa. Fotografia João Bettencourt Bacelar.
No final dos anos 80 do séc XX, um dedicado agente da delegação nova-iorquina do Turismo de Portugal concebeu o plano de juntar dinheiro público e privado para erigir uma estátua de 15 metros na frente ribeirinha de Queens, honrando a memória de Catarina e, dignificar a presença lusa em terras americanas. Graças aos seus contactos junto do governo de Cavaco Silva e da finança norte-americana, conseguiu reunir milhão e meio de dólares, e convencer as autoridades municipais e portuárias a abraçar o projeto, com a bênção de Duarte Pio de Bragança e de Donald Trump de Queens. A inauguração da estátua em Nova Iorque teria coincidido com a abertura da Expo 98, em Lisboa, não fosse o facto de os ativistas afro-americanos e irlandeses- americanos de Queens se terem revoltado contra a ideia de homenagear uma rainha britânica e, por isso, formalmente ligada ao tráfico de escravos.

Audrey Flack, junto à estátua em bronze que acabou derretida.
A estátua acabou por ser destruída, um longo processo tribunal opôs a escultora Audrey Flack à sociedade dos Friends of Queen Catherine, e Catarina faltou à chamada nas festividades da glorificação dos oceanos. Mais tarde, por volta de 2012, ouviu-se falar de uma tentativa também gorada de erigir uma versão miniaturizada da estátua numa rua do Little Portugal, em Stockwell, no Sul de Londres. A resistência afro-britânica assentou nos mesmos argumentos: a rainha era não só estrangeira como estava ligada ao pecado mortal do tráfico de escravos transatlântico.


Fotografia João Bettencourt Bacelar

Fotografia João Bettencourt Bacelar
Sem pompa nem circunstância, a mesma miniatura de estátua acabou por surgir no descampado dos confins do Parque Expo, em data difícil de determinar. A sua figura atarantada sustenta-se sobre uma meia bola, ostentando cara redonda e lábios cheios (a escultora tentou assim dourar a pílula da rejeição, fazendo passar a rainha por personagem “multirracial”, maneira simpática de dizer que os portugueses não são bem brancos). Em época de questionamento da razão de ser das estátuas de memórias incómodas, esta reminiscência de Catarina na margem do Mar da Palha simboliza bem o nosso desconforto face às vítimas da migração feminina.

Fotografia João Bettencourt Bacelar
MANUEL JOÃO RAMOS
Professor Associado ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa


