D. Catarina de Bragança por Isabel Stilwell

“Catarina, luz dos meus olhos”, é assim que D. Luísa de Gusmão começa muitas das cartas que escreve à filha, rainha de Inglaterra. À única que lhe resta, nascida em novembro de 1638 no paço de Vila Viçosa, a que ainda regressará antes de morrer. A rainha que pôs a corte inglesa a beber chá, que enfrentou o drama da infertilidade, que suportou as infidelidades do marido, e que demonstrou sempre uma coragem extraordinária.

Percorro o paço de Vila Viçosa medindo a fachada a pés, tal como imagino que D. Teodósio o fez no dia em que partiu para Lisboa, talvez deixando entrar no jogo as irmãs, D. Joana e D. Catarina. Desde que o duque de Bragança aceitara a coroa, já não eram apenas filhos de um duque, mas infantes de Portugal.

Um, dois, 450 passos, terá contado o príncipe, registando a imponência daquele verdadeiro “quartel-general” que, durante 60 anos, fora bastião da resistência daqueles que não aceitavam o domínio filipino. Uma corte paralela à de Lisboa, com um luxo único no reino, e onde ninguém esquecia que a avó Catarina, neta de D. Manuel, nunca abrira mão do direito ao trono.

D. Catarina, que recebeu o nome desta antepassada, nunca esqueceria o lugar onde nasceu a 25 de novembro de 1638, mantendo sempre viva a devoção a Nossa Senhora da Conceição, a quem D. João IV entregou a coroa, determinando que a partir de então nem reis, nem rainhas, a voltassem a usar.

D. Catarina de Bragança. Anónimo, último terço do século XVII. Óleo s/ tela © Patriarcado de Lisboa.

PEÃO NUM JOGO DE XADREZ

A vida das princesas não era um conto de fadas, provavelmente nem hoje é. Pouco importava o que desejavam, porque o seu destino era o de peças movidas à vontade de terceiros num xadrez político, selando alianças e tratados através do casamento, esperando-se que, uma vez rainhas, usassem a sua influência a favor do reino de origem.

E era ainda mais assim em momentos de crise, como este, em que era primordial consolidar a independência conquistada pelos conjurados, conseguindo legitimar a nova dinastia junto de Roma e das outras monarquias europeias. Na primeira linha deste esforço estava D. Joana, a primeira princesa da Beira, mas não é de agora que a vida dá muitas voltas — a sua morte aos 17 anos, bem como a morte do herdeiro do treino seis meses antes, quando contava 19 anos, representaram um rude golpe, catapultando D. Catarina, então com quase 15, para um lugar cimeiro. Mais importante ainda quando, três anos depois, morre o rei, e D. Luísa de Gusmão se vê obrigada a assumir a regência de um país ainda em guerra e de cofres vazios.

Azulejo de D. Catarina de Bragança. Século XVII (1662) 16×12,5, Holanda, Fainça a azul sobre Branco.Museu Nacional do Azulejo. Fotografia Carlos Monteiro 1994.

Foi por esta altura que D. Catarina de Bragança teve direito a um bom retrato, e a um ainda mais excelente dote, suficientemente alto para que Charles II de Inglaterra, acabado de chegar ao trono com os bolsos vazios, o considerasse irresistível. Não confiando na pintura que lhe enviaram, mandou um espião a Lisboa confirmar se a beleza da princesa não era um artifício do artista. Porque, dizia, com o sentido de humor que o caracterizava, que embora estivesse disposto a ter uma esposa menos bela do que as suas amantes, havia mínimos abaixo dos quais um homem não podia descer. Felizmente, D. Catarina passou no exame e, em junho de 1661, tinha a princesa 22 anos, foi assinado entre Portugal e Inglaterra um tratado de aliança, confirmável pelo casamento e, claro, pela entrega do valor astronómico prometido. Vinte das cláusulas eram públicas, inclusivamente a que permitia a D. Catarina praticar a religião católica num país anglicano, mas a vigésima primeira manteve-se secreta até o facto estar consumado: previa a entrega de Tânger e Bombaim, e D. Luísa de Gusmão temia que gerasse uma revolta popular.

Óleo sobre tela, 1662, Dirk Stoop. Uma das mais importantes vistas do Terreiro do Paço que contém uma narrativa dos momentos chave que precederam a partida da infanta para Inglaterra. Ao centro, vislumbra-se D. Catarina de Bragança passeando com sua mãe D. Luísa de Gusmão e uma dama de companhia. Museu de Lisboa.

DOIS CASAMENTOS E UM DOTE (EM FALTA)

A riqueza vinda do paço de Vila Viçosa — as maravilhosas joias e baixelas, tapeçarias e móveis, que tinham maravilhado os embaixadores que visitavam os duques de Bragança — tinha sido gasta a financiar uma guerra com Espanha que parecia não ter fim. E cuja vitória dependia deste casamento. Mas de onde se iria desencantar o equivalente a cerca de 32 toneladas de ouro, para cumprir

com o dote combinado? A pobre D. Luísa de Gusmão pediu às igrejas e aos conventos, aos fidalgos e ao povo de aquém e de além-mar, nomeou até um cristão-novo como Procurador do Dote, mas quando, em abril de 1662, a armada inglesa entrou no Tejo, nem a metade da metade que deveria ser paga no ato da entrega de D. Catarina existia. Pelo menos, não em numerário, como se pretendia. Felizmente, o almirante inglês acedeu a uma solução de compromisso — afinal, já tinha tomado a praça de Tânger —, e, depois de uma bênção matrimonial celebrada com pompa e circunstância na Sé de Lisboa, a nova rainha de Inglaterra embarca.

Mas, esperem, é tempo de falar de sentimentos, aqueles que às vezes imaginamos serem invenções modernas. Mentira, sempre lá estiveram e sempre lá estarão, e a despedida desta mãe e desta filha é de cortar o coração. Salvaram-se as cartas para o comprovar, como esta, de que cito um excerto:

“Minha Catarina, Todo Meu Bem, É tal a minha desgraça que até fico sem ar ao ver esse navio desta janela, de que me sirvo muito desde que entraste para o barco e me deixaste (…). Os teus irmãos estão já cheios de saudades, e Pedro chorou muito e pediram-me licença para que os deixe voltar ao barco, o que permiti com inveja minha, mas sei que essa sorte não me foi reservada. Espero que todos tomem bem conta de ti, e não te esqueças de guardar na tua memória como és e serás sempre a minha Catarina, que Deus me deu. A tua mãe, que muito te ama”.

Nunca mais se voltariam a ver, mas trocaram uma correspondência intensa, em que D. Catarina lhe contou a desilusão por o rei não estar em Portsmouth à sua chegada, depois de um mês a bordo em que se sentiu horrivelmente mareada, mas que quando por fim o viu lhe pareceu absolutamente encantador.

Retrato de D. Catarina de Bragança. Autoria do atelier de Justus Sustermans (1597-1681) ou círculo de Justus Sustermans Óleo s/tela, c. 1662. Coleção Privada

Catarina e Charles casaram em segredo pelo rito católico e, logo de seguida, segundo o rito anglicano, à vista de todos. O vestido de noiva foi um presente do rei, branco com lacinhos azuis que se desprendiam para serem atirados aos convidados, como recordação.

Dali partiram para uma lua de mel no palácio de Hampton Court, e semanas depois desceram o rio Tamisa na galé real até Londres, onde a cidade os recebeu em festa. Começou então o choque com a realidade — Charles, que qualquer um gostaria de ter como amigo, por ser inteligente, divertido e tolerante, não era, decididamente, um marido de sonho, com um rol de amantes e filhos bastardos que procurou impor a D. Catarina. E a que a rainha resistiu, como pôde.

A rapidez com que engravidou encheu-a de felicidade, mas esperava-a um longo caminho de sucessivas desilusões, um sofrimento que só quem passou por isso pode realmente avaliar. D. Catarina estava num país estranho, sem família, e não conseguia cumprir com o principal requisito exigido a uma rainha: dotar o marido, e o reino, de um varão que garantisse a sucessão. Em abono de Charles II, temos de dizer que a apoiou sempre nesses momentos, nunca a recriminou, e quando os seus conselheiros — e até o parlamento inglês — lhe sugeriram que se descartasse da mulher, o rei nem quis ouvir falar de tal coisa. Nem tão-pouco permitiu a “candidatura” do seu filho bastardo mais velho, argumentando que o irmão James estava em perfeitas condições de lhe suceder, o que aconteceu.

Fiquei convencida de que Catarina de Bragança amou apaixonadamente o marido e, se não teve a sua fidelidade, valorizou a lealdade que sempre lhe demonstrou. E que lhe deu a energia e força para não abdicar de ser feliz. Rodeou-se de música, cultivou o gosto pela ópera, lançou a moda das saias que deixavam os tornozelos à vista, era exímia com o arco e setas — o que lhe valeu tornar-se patrona dos arqueiros ingleses —, foi pintada nos tetos do castelo de Windsor e pousou incansavelmente para os melhores pintores. Tudo isto enquanto pugnou pela independência de Portugal e pelo apoio ao comércio entre os dois países.

Prato comemorativo casamento real com a data 1662 e as iniciais CR-KR (Carolus Rex-Katherine Regina), faiança inglesa (delftware) da manufatura Lambeth, c.1662 – Museu Medeiros e Almeida

Mas a sua maior vitória, aquela de que se orgulhava mais, foi a conversão do rei ao catolicismo. Às portas da morte, é certo, como é igualmente verdade que também era católica a amante do momento, mas que importam esses detalhes?

Viúva aos 47 anos, regressou a Portugal sete anos depois, pronta a ser regente em nome do irmão, D. Pedro II, e cheia de projetos e ideias novas, mandando construir para si o palácio da Bemposta, em Lisboa, sem nunca deixar de assinar “Catarina, rainha de Inglaterra”.

Morreu no último dia do ano de 1705, aos 67 anos, pedindo para ser sepultada ao lado do seu irmão Teodósio, na igreja de Santa Maria de Belém (Jerónimos), e trasladada com ele para São Vicente de Fora, onde hoje descansa no panteão dos Bragança. Gosto de pensar que, sobre o caixão, alguém colocou um ramo de flores de laranjeira, memória da sua Vila Viçosa natal.

Retrato de D. Catarina de Bragança. Autor: Desconhecido (original de Sir Peter Lely) N.o de Inventário: PD0418 Fotógrafo: José Pessoa.
Proprietário: Museus e Monumentos de Portugal | Paço dos Duques

Medalhão D. Catarina de Bragança. Museu Medeiros e Almeida

Palácio da Bemposta ou Paço da Rainha em Lisboa, para onde D. Catarina de Bragança foi viver quando regressou viúva a Portugal, em 1693. Fotografia João Bettencourt Bacelar

D. Catarina de Bragança. Pintura e colagem sobre impressão a lazer, Maria Jacobetty Bacelar, 2024. A partir da obra de Jacob Huysmans (atrib.) Séc. XVII. óleo s/ tela. 126 cm x l 101 cm © Patriarcado de Lisboa

E, ENTÃO, O CHÁ?

Ah, pois, o chá. O chá era conhecido em Inglaterra antes de Catarina de Bragança, mas como bebida medicinal e a preços exorbitantes. O que a nossa princesa levou foi o hábito de beber chá em taças de fina porcelana, transformando-o num momento de convívio entre as suas damas (e não, o “chá das cinco” acompanhado de bolos é uma invenção da duquesa de Bedford, em 1840).

Mas levou mais: o seu dote incluía as sete ilhas de Bombaim, ou seja, garantiu-lhes por séculos e séculos o abastecimento das folhas sagradas. De tal forma se tornou a bebida dos britânicos, esquecendo a sua origem, que um espião nos alvores da Revolução Francesa escrevia que os portugueses eram de tal forma dominados pelos ingleses que… até bebiam chá.

Retrato D. Catarina de Bragança, John Riley, Londres, 1670-74 – Museu Medeiros e Almeida