
por: ANA PAULA MACHADO, Conservadora Museu Nacional Soares dos Reis e ANTÓNIO PONTE, Diretor Museu Nacional dos Soares dos Reis
A caminho do bicentenário, o Museu Nacional Soares dos Reis, sem perder a sua identidade, procura reinventar-se, trilhar novos caminhos, reler as suas coleções e rever as suas narrativas, tendo em vista uma maior eficácia na valorização do património cultural à sua guarda e honrando a história de que é herdeiro.
Criado por D. Pedro IV em 1833, O atual Museu Nacional Soares dos Reis nasce com a designação de Museu Portuense de Pinturas e Estampas, instalando-se no Convento de Santo António, na zona oriental da cidade (Jardim de S. Lázaro), sob direção do pintor João Baptista Ribeiro, com um programa cultural e pedagógico inovador, de apoio aos artistas da Academia Portuense de Belas Artes e divulgação da arte mediante a organização de exposições públicas, tendo sido confirmado por D. Maria II, em 1836, no âmbito das reformas da instrução pública levadas a cabo pelo ministro Passos Manuel, sendo o primeiro Museu de Arte do nosso país.

A criação deste museu insere-se num contexto internacional de criação de museus e de valorização da cultura, das artes e do património cultural saído da Revolução Francesa, que o Liberalismo vem reforçar. Em 1839. o acervo do Museu transitou para a direção da Academia Portuense de Belas-Artes, promovendo fortalecimento da relação entre o museu e o ensino artístico no século XIX, abrindo as portas à entrada na coleção do Museu da Coleção de Artes plásticas da Academia. O Museu que tinha recebido os bens de mosteiros extintos e abandonados vê alargada e reforçada a sua coleção ampliando a sua influência e importância. É neste contexto que vemos surgir como uma representação de enorme valor artístico e patrimonial no conjunto das coleções do Museu o acervo entregue pelo pai de Henrique Pousão à Academia Portuense de Belas Artes.

A História do Museu avança, a integração de bens artísticos de tipologias diversas continua, mas a obra de Pousão mantem-se como um referencial e marca de forma indelével o percurso e a atratividade do Museu Nacional Soares dos Reis.
Ao longo dos anos, o Museu Nacional Soares dos Reis traçou a sua História a par da História política e social do país. A nova proposta expositiva propõe aos visitantes um roteiro pela História do Museu definido a partir do processo de constituição da sua coleção que servirá de fio condutor para toda a programação do Museu até ao seu bicentenário. Este Museu é um Museu que se refunda a cada período, que responde e se reinventa a cada dificuldade, que ultrapassa barreiras.

A coleção com diversas origens pauta-se pela presença de obras de arte referenciais no contexto da arte portuguesa. Os trabalhos de Henrique Pousão, como referimos, são um marco identitário do Museu Nacional Soares dos Reis, que, a par com obras de António Soares dos Reis, Marques de Oliveira, Silva Porto, Aurélia de Sousa sustentam uma narrativa que nos permite percorrer dois séculos e meio da História da arte nacional, sendo recorrentemente solicitadas para integrarem exposições nacionais e estrangeiras que reforçam a importância destes trabalhos.

Henrique Pousão (1859 – 1884) foi talvez o mais auspicioso talento da arte portuguesa do século XIX. Do breve lapso de tempo que foi o da sua vida ficou- -nos uma obra inovadora, original, surpreendente na sua coerência e maturidade, promessa abruptamente quebrada de acerto da arte portuguesa com a arte europeia do tempo.
Henrique César de Araújo Pousão nasceu em Vila Viçosa a 1 de janeiro de 1859. Filho de um juiz (Francisco Nunes Pousão) viveu, por força dessa circunstância, em diferentes pontos do país. Em 1872, fixa-se no Norte, iniciando os estudos artísticos na Academia Portuense de Belas Artes.
Em novembro de 1880, parte para Paris como pensionista do Estado para estudar pintura de paisagem. Numa saída para pintar contrai bronquite. A sua saúde débil degradar-se-ia precipitada e fatalmente daí em diante. No verão via-se já obrigado a terapia em La Bourboule, no Puy de Dôme. Aproveita para pintar. Aldeia de Saint-Sauves, paisagem estruturada pelas massas de cor, anuncia já o motivo que obsesivamente perseguiria, a luz.
Em busca de clima mais favorável parte para Roma, instalando-se depois em Capri, visitando Nápoles, Pompeia e provavelmente Florença.
Pinta Cecília e Esperando o Sucesso, tipos pitorescos da Ciociaria (na região do Lácio) e temas clássicos da pintura europeia, cuja representação subverte, numa inesperada e desafiadora humanização dos modelos, captados como que em instantâneo fotográfico, fora da pose.
Deslumbrado pela luz mediterrânica, encontra o lugar certo para uma pesquisa plástica autónoma e pessoal que vai além do impressionismo, certamente visto em Paris.

Em Casas Brancas de Capri e Janela das Persianas Azuis pinta a luz solar impiedosa sobre a geometria dos volumes brancos de casario. Interessam-lhe a sombra “cromática” e a luz das coisas, muito mais do que as coisas em si, no antecipado entendimento dessa “libertação” da pintura, que será “essencialmente uma superfície plana coberta de cores dispostas numa determinada ordem” antes de ser “um cavalo de batalha, um nu feminino ou uma anedota qualquer”.
Em outubro de 1883 a progressão da doença obriga-o a regressar a Portugal. Em março de 1884 morre, vítima de tuberculose, com 25 anos de idade. Em apenas 22 meses pintara as obras que fariam dele figura cimeira da pintura portuguesa, três delas classificadas hoje como tesouros nacionais. A sua obra obra está exposta no Museu Soares dos Reis desde 1934, desde há muito em sala que lhe é integralmente dedicada.






