Os Livros Extraordinários de D. Manuel II

O Museu-Biblioteca da Casa de Bragança em Vila Viçosa, tem no seu espólio verdadeiros tesouros nacionais. Colecionados por D. Manuel II, o último rei de Portugal, formam uma biblioteca de uma enorme relevância, não tanto pela sala onde se encontram, mas sobretudo pelos seus livros raros e preciosos. No seu espólio podemos encontrar, por exemplo, a primeira edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões, ou Os Livros Antigos Portugueses, escrito pelo rei e praticamente desconhecido.

“Os livros são amigos silenciosos e fieis, juncto dos quaes se apprende a licção da vida…A meta do nosso esforço é erguer bem alto o nome do nosso paiz, demonstrar os feitos dos Portuguezes…o amor da história e a sua licção originaram a nossa paixão dos livros antigos, das edições raras e primevas, contemporaneas d’essa epocha…Ao estudo da epocha uniu-se, pois, o estudo dos seus livros, e, com desvelo, mas não sem sacrifícios, formámos a nossa Biblioteca Portugueza do seculo XVI…”

Rei D. Manuel II na Introdução do volume I de Os Livros Antigos Portugueses, Inglaterra,1929.

 

Pintura de D. Manuel II, por Henrique Medina, século XX. Museu-Biblioteca da Casa de Bragança.

O grande objetivo do rei D. Manuel II foi reunir livros quinhentistas que contassem a História da tipografia portuguesa e através dela, poder contar a História de Portugal a partir do reinado de D. Manuel I (século XVI) até 1800. Com base na imensa recolha de livros portugueses pelo Mundo e o seu posterior estudo, D. Manuel II escreve Os Livros Antigos Portugueses, em três volumes. O estudo sobre cada uma das obras existentes, que se revela ainda hoje uma referência na área, tem como base não só a biblioteca quinhentista, mas também toda as obras de apoio que o rei reuniu em Inglaterra ao longo dos anos.

Estes três volumes são referentes exclusivamente aos livros antigos portugueses do rei, onde o autor detalha com rigor e por ordem cronológica livro a livro, desde a sua componente física, materialidade, características, desde do seu design gráfico, qualidade e estado de conservação, história do livro, conteúdo, mas também em que circunstâncias tinha sido escrito, impresso e como era a sociedade da época. Escreve minuciosamente sobre tudo o que podia ser contado, inclusive a sua envolvente. Escreve por exemplo sobre os Descobrimentos, o porquê de se fazerem todas essas viagens além-mar e em que circunstância a política portuguesa da época decorreu, etc…

Edição de subscrição de Os Livros Antigos Portugueses. Subscription edition of the Early Portuguese Books.

Os Livros Antigos Portugueses 1929 – Volume I (1489/1539) Os Livros Antigos Portugueses 1932 – Volume II (1540/1569)

Os Livros Antigos Portugueses 1935 – Volume III (1570/1600) Early Portuguese Books 1929 – Volume I (1489/1539)

Early Portuguese Books 1932 – Volume II (1540/1569) Early Portuguese Books 1935 – Volume III (1570/1600)

Para poder subsidiar o custo da impressão do livro, que foi escrito em bilingue (português e inglês), o rei faz uma subscrição prévia. São realizadas três impressões distintas. A primeira, generalista de 650 exemplares, uma segunda tiragem especial de 45 exemplares em papel Van Gelder para os subscritores, em que todos os exemplares são numerados, dedicados e assinados à mão pelo rei. E uma terceira edição de apenas três exemplares no mais fino papel inglês de fabrico manual, com uma encadernação e acabamentos superiores.

@Museu-Biblioteca da Casa de Bragança.

Dessa terceira e especialíssima edição, um exemplar foi oferecido ao rei Jorge V de Inglaterra e encontra-se na biblioteca particular da família real britânica, outro ao papa Pio XI, e o terceiro ficou com D. Manuel II, e encontra-se na caixa-forte do Museu-Biblioteca da Casa de Bragança em Vila Viçosa.”Como a sua mesa de trabalho não era muito grandee estava sempre cheia de flores, era sobre o tapete da sala que se amontoavam, durante as horas de trabalho, as pilhas de livros que tinha de consultar. As dez páginas de bibliografia que vêm no fim do primeiro volume atestam a perfeição da obra do Rei D. Manuel. No meio da sua livraria, Sua Magestade foi um investigador científico que se consagrou a oferecer aos outros,o conhecimento da literatura antiga da sua pátria.”

“Como a sua mesa de trabalho não era muito grande e estava sempre cheia de flores, era sobre o tapete da sala que se amontoavam, durante as horas de trabalho, as pilhas de livros que tinha de consultar. As dez páginas de bibliografia que vêm no fim do primeiro volume atestam a perfeição da obra do Rei D. Manuel. No meio da sua livraria, Sua Magestade foi um investigador científico que se consagrou a oferecer aos outros, o conhecimento da literatura antiga da sua pátria.”

Stanley Morison no texto El-Rey e os Seus Livros do volume III, de Os Livros Antigos Portugueses.

@Museu-Biblioteca da Casa de Bragança.

O rei morreu pouco depois de editar o volume II, sendo a impressão do terceiro volume póstuma. “Com o fim de cumprir os seu desejos tantas vezes manifestados de querer servir o seu país também por esta forma, autorizei a Senhora Maggs, editores, a continuarem a publicação da obra”, escreve a rainha Augusta Vitória, viúva de D. Manuel II, no Natal de 1933, em Fulwell Park, Inglaterra.

Mrs. Maggs era Margery Withers, a inestimável bibliotecária e secretária do rei D. Manuel II, a quem este se refere no “Proemio de Louvores” no princípio do volume I, datado de janeiro de 1929, como sendo: “alguém que não teríamos podido efetuar a nossa obra… Podemos e devemos dizer, lealmente, que Miss Withers tem sido uma assistente digna de todos os elogios, a quem queremos testemunhar a nossa tão sincera como profunda gratidão.”

Correções às provas de impressão feitas pessoalmente por D. Manuel II. Corrections to the printing proofs made personally by D. Manuel II.

Letras capitulares da Vita Christi. 1495. OS Livros Antigos Portugueses de D. Manuel II, volume I.

@Museu-Biblioteca da Casa de Bragança.

@Museu-Biblioteca da Casa de Bragança.

Primeira edição de Os Lusíadas de Luís de Camões. ©Fundação da Casa de Bragança.

PRIMEIRA EDIÇÃO DE OS LUSÍADAS DE LUÍS DE CAMÕES.
UM FATO CURIOSO, A BIBLIOTECA TEM DUAS PRIMEIRAS EDIÇÕES DESTE LIVRO, IMPRESSO NO MESMO ANO E LOCAL,
NO ENTANTO COM UMA INEXPLICÁVEL LIGEIRA DIFERENÇA.

@Museu-Biblioteca da Casa de Bragança. Diferença:  ão / am.

SOBRE O REI D. MANUEL II

D. Manel II no seu escritório em Fulwell Park, Inglaterra.

Com o fim da monarquia, em 1910, D. Manuel II (1889- 1932) vai para Inglaterra exilado. Tinha 20 anos. Ficando o seu património em Portugal e inacessível, a única fonte de subsistência que tem advém de um seguro de vida que o pai, o rei D. Carlos, fez nesse país. A primeira casa onde viveu foi emprestada pelo rei de Inglaterra e os primeiros tempos não foram fáceis. A coroa inglesa e a coroa espanhola tentaram fazer ver ao Estado português que para serem reconhecidos como jovem república teriam de respeitar os direitos naturais dos antigos membros da família real. A casa de Bragança era propriedade pessoal e não da coroa; legado secular, pertença da família Bragança, antes desta chegar ao trono.

Em Inglaterra, o rei dedica-se à restauração da monarquia, mas tem tempo para se dedicar ao que verdadeiramente gostava, os estudos históricos. A partir de 1920, num primeiro momento, o monarca pensa fazer a biografia do rei D. Manuel I, que considerava não estar ainda suficientemente trabalhada e estudada. Ainda se interessa por D. Luísa de Gusmão e pelo período da Restauração, pelo que começa a comprar e a reunir documentação e livros.

A British Library foi bastante relevante para o seu trabalho, mas era fundamental reunir um corpus
e constata que não existe em Portugal um estudo sobre a tipografia quinhentista à semelhança do que existia em outros países. Com o apoio da livreira inglesa Maggs Bros, cujos funcionários podiam deslocar-se a Portugal para comprar livros em seu nome, prosseguiu a aquisição sistemática de exemplares portugueses. Criando assim, um acervo de livros considerável, uma biblioteca única, apesar dos grandes problemas de tesouraria que tinha.

Uma das particularidades desta biblioteca, e que a torna hoje tão pertinente, é a boa conservação dos seus exemplares.O rei gostava muito de livros, o que implicava cuidar deles muito bem, por isso, fazia um enorme investimento na sua conservação. Quando não estavam em condições, mandava-os encadernar na empresa londrina Sangorski & Sutcliffe, considerada uma das mais importantes e luxuosas do mundo na sua área. O livro era encadernado com requinte, depois era-lhe colocado uma capa, e por fim guardado dentro de uma caixa sumptuosa com furos para o ar sair, ideal para a sua conservação.

Aos 24 anos, D. Manuel II faz o seu testamento e, apesar de ainda haver a possibilidade de ter filhos, prevê a criação de um museu em Portugal que se denominaria Museu da Casa de Bragança, onde seriam integradas todas as coleções dos usufrutuários dos seus bens, como os seus livros, manuscritos e incunabulos.

Todo o espólio privado do rei em Vila Viçosa ficou para o Estado, assim como os livros que reuniu no exílio. Em 1933, por decreto do então primeiro-ministro António de Oliveira Salazar, o Estado colocou em vigor o testamento do rei D. Manuel II e criou a Fundação Casa de Bragança.

Marcelo Rebelo de Sousa, atual Presidente da República portuguesa, foi presidente desta instituição entre 2012 e 2016, lugar para o qual pediu suspensão, mas porque é um cargo vitalício, poderá voltar a ocupá-lo se assim o desejar no fim do seu mandato enquanto primeira figura do Estado Português.

A BIBLIOTECA MEDIEVAL DO PAÇO DUCAL

Confirma-se a existência de uma biblioteca imensa para a época, no Paço Ducal de Vila Viçosa, considerada até uma das maiores bibliotecas nobres da europa, no inventário de 1563 sobre o levantamento das obras que integravam o palácio. Embora não haja certeza do local onde se encontraria, sabemos que não seria no piso térreo e o mais provável é que fosse no andar nobre. A partir de D. Teodósio I, quinto duque de Bragança, é no piano nobile que se concentram os espaços de vida do duque e família próxima. Em 1640, D. João II, oitavo duque de Bragança e IV de Portugal, leva consigo este espólio para o Paço da Ribeira, em Lisboa, que se perde no terramoto de 1755.

EXLIBRIS DE D. MANUEL II.