POR SUSANA JACOBETTY. FOTOGRAFIA JOÃO BETTENCOURT BACELAR
Teresa Abraços nasceu em Lisboa no ano de 1966, mas é na praia da Poça em São João do Estoril que cresce. Adorava estar dentro de água a fazer carreirinhas e, assim começa a sua paixão pelo mar. Na altura usavam-se colchões para apanhar sol, para ir à água e os seus pais tinham um, da extinta marca “Repimpa”. A filha “literalmente roubava-lhes o colchão para deslizar na espuma das ondas. Tanto teimei em me pôr de pé no colchão, que consegui. O banheiro, como se chamavam os nadadores salvadores nessa época, que por acaso vem a ser bisavô do surfista Vasco Ribeiro, falou com os meu pais e perguntou se eu não tinha passado de ano, porque tinha tanto jeito que deviam oferecer-me uma prancha”.

Aos 15, 16 anos começou a fazer surf e o facto de fazer competição em ginástica rítmica desde criança ajudou-a muito no desenvolvimento intuitivo da prática desta nova modalidade. A sua primeira prancha foi comprada em quarta mão a um surfista que morava nas Azenhas do Mar: “era uma prancha muito velha que repartia com o meu irmão”. Em Portugal não havia lojas de surf e só no final dos anos 80 aparece o primeiro shaper na Linha. Surgiu a oportunidade de ir ao Rio de Janeiro em 1982 e, foi lá que mandou fazer e comprou a sua primeira prancha. “Nessa época já o Brasil estava a anos-luz da realidade do surf português”.
Teresa recorda-se que, no nosso país, o surf que via na televisão era o do anúncio da Old Spice e que um dia viu na RTP2 uma reportagem de um campeonato no Hawai. “Foi nessa transmissão que vi pela primeira vez mulheres a surfar, mas era uma coisa muito longínqua. Cá em Portugal, só passado dois anos é que vi outra rapariga a surfar, a Patrícia Lopes. Durante muitos anos não tive referências femininas, as minhas referências eram os rapazes. Naquela altura ficávamos muito cingidos à praia onde crescíamos, não tínhamos ainda idade para ter carro, portanto, os rapazes que surfavam na praia da Poça é que foram as minhas grandes referências”.

“Quando comecei a surfar senti muita discriminação. Portugal era um país muito machista e conservador e o 25 de Abril não tinha sido assim há tanto tempo. A presença feminina no desporto era escassa e resumia- -se geralmente às modalidades mais tradicionais.
As mulheres no desporto eram frequentemente mal aceites e muitas vezes não eram levadas a sério. Nessa época, a maior parte das pessoas nem sabia o que era o surf, perguntavam-me se era com uma vela, porque tinham visto no genérico da telenovela brasileira Água Viva uns praticantes de prancha à vela. Vivi com esse preconceito e desconhecimento em relação a este desporto, mas também com o facto de ser rapariga.
A casa dos meus pais era mesmo em frente ao liceu de São João do Estoril e cada vez que punha o pé fora de casa com a prancha de surf era muito comum ouvir comentários perfeitamente cretinos, como por exemplo, se ia passear com a tábua de engomar debaixo do braço. Para uma miúda tímida como eu era, chegava a ser avassalador, tentava só sair de casa a horas que sabia que eles estavam a ter aulas”.

E hoje em dia, o panorama já mudou?
Essa discriminação ainda existe um bocadinho nos dias de hoje, muito disfarçada. Noto agora também outro tipo de discriminação, o etarismo. Acontece várias vezes arrancarem na onda à minha frente, partindo do princípio que, por ser mais velha, não vou ter capacidade técnica de deslizar com velocidade na onda e chegar ao pé deles. Diria que agora já não sinto tanto uma discriminação de género, mas de idade. Hoje é completamente diferente para as meninas; são levadas a sério. Quando eu comecei, senti quase que tinha uma missão, o surf na época estava muito conotado com um estilo de vida menos recomendável. Havia um entendimento algo generalizado que o surfista era drogado, passava o tempo na praia, não queria estudar, na verdade tudo ao contrário daquilo que eu era. Senti, por um lado, que tinha que quebrar esse estereótipo, as raparigas também conseguem brilhar dentro de água e têm direito a estar no mar, a surfar. Hoje ver estas miúdas todas na água orgulha-me e é o mais importante, penso que contribuí um bocadinho para esta normalidade.

Teresa licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas –Estudos Ingleses e Alemães, na Universidade de Lisboa, agarrou a oportunidade que teve para entrar na TAP, onde a maior parte da sua carreira foi na área de Revenue Management. Durante todos estes anos, acumulou os treinos e os campeonatos: “era impensável ser profissional no surf, sobretudo uma rapariga. Foi difícil, mas consegui conciliar, embora tivesse patrocínios, mas não eram valores que dessem para viver do surf”.
“De certa forma, todas as marcas que tomaram a decisão de me apoiar na altura também apoiaram a paridade, numa época em que não era fácil uma rapariga ter patrocínios, e contribuíram indiretamente e, se calhar até de forma não consciente para essa evolução”.
Enquanto atleta, Teresa Abraços viajou muito e, uma vez na TAP, aproveitou e usufruiu de muitos dos seus destinos com ondas. Mas surfar só para seu prazer, deixou de fazer sentido e em 1998, começou a levar material escolar e pranchas para países como a Costa do Marfim, Cabo Verde, São Tomé, Moçambique, Senegal, Gana.
“Percebi que com o surf poderia dar um pequeno contributo no sentido de mudar mentalidades, chegar a um país em África onde as mulheres têm geralmente um papel muito tradicional e conseguir levá-las para dentro de água com os rapazes, para deslizarem nas ondas com uma prancha, já era algo de novo. Só o facto de eu estar a surfar, despertava a curiosidade das meninas”.
Hoje em dia são cada vez mais raras as viagens que Teresa faz para África. Encontrou outra forma apaixonante de usar o surf como meio de inclusão, ao dedicar-se à SURFaddict – Associação Portuguesa de Surf Adaptado, uma associação sem fins lucrativos, que proporciona a prática do surf, a pessoas com qualquer tipo de limitação (motora , visual ou cognitiva) e na qual é voluntária e presidente.

O que sente quando está a fazer surf, é o mesmo que sentia quando começou?
A paixão está lá sempre. Talvez agora valorize ainda mais, porque penso quanto mais tempo terei para usufruir do surf desta forma.
Qual a sua onda preferida?
Tenho muitas em Portugal, que é um país espetacular. Mas se tiver que escolher uma praia, escolho a da Poça ou a da Azarujinha. Foi onde cresci e onde estou muitas vezes.
O que ainda falta no surf portugês?
Hoje em dia é muito comum dizer-se “vou treinar”, em vez de “vou surfar”. Acho que se perdeu muito o entusiasmo genuíno e o lado espontâneo do surf . Parece que os estilos dos nossos surfistas são muito estudados e formatados, perdendo-se por vezes em demasia a espontaneidade e a identidade de cada um. Além disso, e falando especificamente dos surfistas de competição, acho que falta mais espírito de sacrifício, mais ambição e mais confiança, acreditar que é possível chegar ao nível dos melhores do Mundo.
O maior susto numa onda?
Um susto ou outro, ao ficar mais tempo debaixo de água, sem perceber onde é para cima ou para baixo, mas até hoje, nada de dramático.
Melhor surpresa de onda?
São Tomé e Príncipe e México.
Quais as suas grandes referências no surf?
Tom Curren, Kelly Slater, Lisa Anderson e a Stephanie Gilmore, que conjugam de forma exímia, a técnica com o estilo. Em Portugal uma das minhas preferidas é a Teresa Bonvalot, exatamente porque também tem um estilo muito bonito. Quando olho para a Teresa, penso que tem muitas semelhanças com o que eu se calhar seria se tivesse começado a surfar 20 ou 30 anos mais tarde. Também é goofy, ou seja, põe o pé esquerdo atrás, tem um estilo de surf fluído, algo que também sempre disseram do meu estilo, e é de Cascais (risos). No surf masculino português, admiro muito o Saca (Tiago Pires), pela coragem e determinação que teve. Numa época em que o surf ainda era muito pouco mainstream, foi fiel aos seus objetivos, conseguindo chegar à elite do surf mundial. Também gosto muito do Kikas (Frederico Morais), pela sua dedicação e pela sua personalidade. Tem sido muito interessante acompanhar o seu brilhante percurso, ainda mais agora que voltou a conseguir qualificar-se para o World Tour!

Teresa Abraços, Palácio da Cidadela, 2023. Fotografia, João Bettencourt Bacelar. Teresa Abraços vestida com Osklen, por Susana Jacobetty. Maquilhagem Tania Doce. Cabelos Carmo Catarino. Agradecimentos, Visit Cascais.


