
Certamente que a vida de “homem do mar” de D. Luísd eve ter pesado na paixão que sempre manifestou por Cascais, esta “terra de pescadores”, tão amada quea escolheu para morrer. Cremos que não parece haver maior manifestação de apreço por um lugar do que escolhê-lo para morrer, levando assim ao extremo aquilo a que Michel Butor chama l’esprit du lieu. E a terra, interpretando à sua maneira esse conceito butoriano, agradeceu-lhe de muitos modos essa paixão, sendo que aquilo que mais interessa referir é o facto de a Câmara Municipal de Cascais e um grupo de fundadores privados ter decidido atribuir o nome do Rei à Fundação que “tem por fim criar, desenvolver, acolher, divulgar e tornar acessível a cultura no Município de Cascais”.


“Mandaram-me segundas provas do Esboço sem terem corrigido as primeiras. É novo isto na minha vida de escritor há 40 anos. Vai tudo para que vejam e se admirem… da minha paciência. O papel é exelente”.
Camilo Castelo Branco
E é importante salientar que, também no âmbitodas investigações oceanográficas, D. Luísfoi um importante precursor, tendo sido ele – há que recordar isso – que inculcou no filho, D. Carlos, a paixão por esses estudos.

Caricaturas realizadas pelo Rei D. Luís I. Exposição Memórias da Praia da Corte. Palácio da Cidadela de Cascais, Fundação D. Luís I
D. Luís não terá sido um “cientista” no sentido mais estrito do termo, mas foi alguém que dedicou muitodo seu tempo ao estudo do progresso técnico, como aconteceu com muitos outros reis e aristocratas do século XIX, que, marcados pelo espírito do liberalismo, quiseram destacar-se pelas suas qualidades intelectuais. Todavia, o que neste caso mais importa assinalar é a sua propensão para as artes (música epintura) e para as línguas, o que o conduziu a emprender um conjunto de atividades (execução de peças musicais no violoncelo – possuía um Stradivarius -), abertura de uma galeria de pintura no Palácio da Ajuda que podía ser visitada por quem o quisesse fazer, tradução de obras de William Shakespeare.

20 Mil Léguas Submarinas de Julio Verne, exemºplar do Rei D. Luís I. Exposição Memórias da Praia da Corte. Palácio da Cidadela de Cascais, Fundação D. Luís I.
Todas estas qualidades de D. Luís I têm naturalmenteque ver com a sua inteligência e sensibilidade, masnão pode ser minimizado o papel desempenhado pelos pais, muito particularmente por D. Maria II, ques e preocupara em educá-lo de uma forma muito completa, proporcionando-lhe mestres competentes em todas as disciplinas: e em todas mostrou grande proficiência. Desde muito jovem, no quadro dessa esmerada educação a que foi sujeito, D. Luís estudou línguas estrangeiras. Tendo privilegiado o estudo da língua alemã por vontade expressa do pai, dedicou-se ainda ao estudo do francês, do inglês, do espanhol e do italiano, como complemento da aprendizagem da língua materna de D. Fernando, o que fez do jovem príncipe um verdadeiro poliglota. Em 5 de agosto de 1847, C.Mylton Graveley foi nomeado professor de inglês dos príncipes, decisão que muito terá contribuido para uma das mais interessantes opções de D. Luís, que continuoua aperfeiçoar os seus conhecimentos nesta língua lendo os grandes clássicos ingleses, entre os quais Shakespeare, como não poderia deixar de ser

Rei D. Luís I com o seu violoncelo Stradivarius, que data de 1725 e o único em Portugal com a assinatura do seu construtor
Durante o seu reinado, D. Luís quis exteriorizar a sua admiração pelo Bardo traduzindo para português algumas de suas obras, certamente aquelas que mais apreciava. Deste modo, após o aturado labor de váriosanos, D. Luís publicou em 1877 uma tradução de Hamlet. Uma segunda edição surgiu em 1880 com a nota:”Propiedade cedida por Sua Majestade o Rei à Associação de Créches”. Em 1879 apareceu O Mercador de Veneza, oferecendo o Rei parte dos proventos da edição à «Sociedade das Casasde Asilo da Infancia Desvalida de Lisboa». Seguiu-se a tradução deRicardo III, aparecida em 1880, e por último a de Otelo, O Mouro de Veneza impressa em 1885. Esta é a única das traduções de D. Luís em que o nome do real tradutor se mencionana edição. O rei ainda iniciou a tradução de quatro obras mais, empresa que ficou por completar e de que se conservam manuscritos: A Fera Domada (The Taming of the Shrew), Romeu e Julieta, A Violação de Lucrecia (The Rape of Lucrece) e Vénus e Adonis.
Segundo conta nas suas memórias Thomaz de Mello Breyner, conde de Mafra, D. Luís, quando estava a traduzir, dedicava-se por completo a essa tarefa, sem, no entanto, deixarde colocar posteriormente o resultado à consideração de reconhecidos homens de letras, como António José Viale, Tomás Ribeiro e Luís de Campos, debatendo com eles os aspetos mais polémicos. É, pois, de realçar este interesse do rei pela literatura inglesa, sobretudo porque estava a trabalhar numa língua que não usava diariamente, ao contrário do que acontecia como alemão.Embora a obra de Shakespeare não fosse desconhecida em Portugal, a verdade é que com D. Luís se dá uma importante inflexão na receção das suas obras, já que foi ele o primeiro a traduzi-las diretamente do inglês: as traduções anteriores tinham sido feitasa partir de versões francesas.

Exemplar de um livro de Shakespeare traduzido pelo rei D. Lúis I. Exposição Memórias da Praia da Corte. Palácio da Cidadela de Cascais, Fundação D. Luís I.
Se recorrermos novamente ao diário de Thomaz de Mello Breyner, pessoa bastante próxima da casa real que setornaria médico e amigo pessoal de D. Carlos, ficaremosa saber que D. Luís gostava de cirandar pelo Palácioda Ajuda, em roupão, durante a manhã, e fechar-seno seu gabinete de trabalho onde se entregava à arteda tradução. Considerando todas as traduções que fez, identificam-se muitas horas de trabalho árduo, sendo que os livros, como já se deixou entrever, se destinavama ofertas pessoais do rei, com as eventuais vendas a reverter para obras de caridade. Eis um rei culto, liberal, que honra a Fundação com o seu nome.


