Cavalos Marinhos da Ria Formosa

Por Susana Jacobetty

Ilustração Francisco Damasceno

A estação marítima do Ramalhete foi criada em 1988 nos antigos armazéns de atum junto à Ria Formosa. Em 1994 é adquirida pela Universidade do Algarve para ser uma estação experimental. 

A sua gestão é realizada pelo CCMar, Centro de Ciências do Mar, um centro de investigação autónomo dentro da Universidade. É aqui que se conduz toda a investigação sobre ervas marinhas e animais aquáticos, incluindo cavalos-marinhos.

 A A Magazine conversou com Jorge Palma, investigador no CCMar e professor na Universidade do Algarve, que começou a dedicar-se ao estudo e investigação dos cavalos-marinhos em 2007. Licenciado em Biologia Marinha pela Universidade do Algarve, e com um doutoramento em Zoologia Marinha, foi contagiado pelo entusiasmo do então aluno Danilo Americano, fascinado por cavalos-marinhos, e que lhe suscitou a vontade de querer aprofundar a sua investigação nesta área.

Os cavalos-marinhos da Ria Formosa começaram a ser investigados em 2001 por Janelle Curtis, investigadora Canadiana que pertencia ao Project Seahorse, uma ONG internacional para a conservação de cavalos-marinhos e biodiversidade marinha. Nessa altura, foi referenciada a maior densidade de cavalos-marinhos do mundo. Existem 42 espécies de cavalos-marinhos em todo  planeta, havendo apenas duas na Europa.

 Entre 2007 e 2009, o investigador Iain Caldwell vem à Ria Formosa com o propósito de continuar o trabalho com os cavalos-marinhos e constata o primeiro grande decréscimo de população: 93% de decréscimo no cavalo-marinho de focinho comprido e 74% no cavalo-marinho de focinho curto. O CCMar avança com um processo de investigação e análise na ria com o objetivo de apurar as razões dessa circunstância. Foram encontrados vários fatores, incluindo a degradação ambiental do habitat consequente de ação humana, que provocou um decréscimo de áreas propícias para a ocorrência de cavalos-marinhos, devido à utilização de artes de pesca de arrasto ilegais e nocivas aos fundos da ria.

Cavalo-Marinho, série “Neutral” Bordalo II. Universidade do Algarve 2021.

Fotografia João Rodrigues, Ria Formosa, Faro, 2017.

OS CAVALOS MARINHOS APRESENTAM UMA CAPACIDADE DE CAMUFLAGEM, CONSEGUINDO AJUSTAR A SUA COR CORPORAL AO AMBIENTE CIRCUNDANTE. UTILIZAM ESSA APTIDÃO TANTO PARA PROTEÇÃO, COMO ENQUANTO PREDADORES. A CAPACIDADE DE CAMUFLAGEM VARIA LIGEIRAMENTE ENTRE AS DIFERENTES ESPÉCIES, MAS AS EUROPEIAS TÊM AMPLAMENTE ESSA CAPACIDADE.

Os cavalos-marinhos partilham o seu habitat com diversas espécies, que têm valor comercial. A sua captura legal tem um impacto reduzido, mas a ilegal como a rede de arrasto de vara, que arrasta pelo fundo da ria para capturar espécies abaixo do tamanho mínimo permitido em Portugal, é devastadora. O uso continuado e reiterado numa mesma área tem um efeito drástico, dramático e periga a sobrevivência das espécies e é o que tem acontecido na Ria Formosa no Algarve.

Relativamente aos cavalos-marinhos, a pesca ilegal da ria é feita de duas formas. A primeira é colateral e indireta, nada tendo a ver com a sua captura mas sim de outras espécies como o linguado, o choco, ou os alcabrozes, que aparecem muitas vezes nos restaurantes como entrada.  Há todo um circuito ilegal para a captura desses peixes. Ao serem capturados com uma rede com uma malha muito pequena, todas as outras espécies são capturadas.

Fotografias João Bettencourt Bacelar. Ramalhete, 2022.

NESTA IMAGEM, PODE OBSERVAR-SE UM CASAL DE CAVALOS- MARINHOS, DE FOCINHO CURTO (HIPPOCAMPUS HIPPOCAMPUS) EM COMPORTAMENTO DE CORTE. O ANIMAL MAIS À ESQUERDA É UM MACHO COM A SUA BOLSA E, PELO DIÂMETRO DA MESMA, É POSSÍVEL 

QUE JÁ TIVESSE RECEBIDO ALGUNS OVOS. OU TERIA APENAS A BOLSA JÁ BASTANTE DISTENDIDA E PRONTA PARA RECEBER OS OVOS. O ANIMAL MAIS À DIREITA É UMA FÊMEA. CASO SE TRATASSE DE UM MACHO, NA POSIÇÃO EM QUE SE ENCONTRA E MESMO COM O OUTRO ANIMAL À FRENTE, SERIA POSSÍVEL VER PARTE DA BOLSA.

Ilustração Ana Ramos.

A segunda forma de pesca ilegal é a direta e verificou-se a partir de 2014/2015 quando o interesse comercial por cavalos-marinhos ficou mais conhecido. Com a rede ilegal de arrasto de vara, esta pesca é maioritariamente efetuada por particulares durante a noite e ao fim de semana. A razão que motiva este trágico ilícito prende-se com o mercado asiático e a crença da medicina tradicional, que utiliza cavalos-marinhos moídos como ingrediente nos seus tratamentos.

 Através de um grupo de instituições que visa a salvaguarda e preservação das espécies de cavalos-marinhos da Ria Formosa, nomeadamente as autoridades locais e algumas nacionais, como a autoridade marítima, Agência Portuguesa do Ambiente, Câmaras Municipais de Faro e Olhão, Universidade do Algarve, IPMA, ICNF e instituições privadas, foram criadas duas áreas protegidas dentro da ria. Nestes santuários, a navegação só pode ser efetuada pelos investigadores credenciados. A Polícia Marítima tem contribuído com a fiscalização da ria e desses santuários, e tem-se constatado um aumento de população dentro da área protegida. No entanto, nos últimos três anos tem-se mantido um decréscimo de 95% nas zonas não protegidas da Ria Formosa. Embora exista a intenção num futuro próximo de serem colocadas estruturas anti arrasto de forma a precaver a pesca ilegal, há necessidade de medidas céleres e eficazes.

Fotografias João Bettencourt Bacelar. Ramalhete, 2022.

Ilustração João Bettencourt Bacelar.

Cavalo marinho de focinho comprido (H. guttulatus)
Fotografia Jorge Palma. Ria Formosa, Algarve, 2022.

Ilustração Camila Valentina

Em Novembro de 2021, pela primeira vez, os investigadores libertaram no santuário 50 cavalos-marinhos de focinho curto, com cerca de 6 meses descendentes de pais selvagens criados em cativeiro, e 10 cavalos-marinhos selvagens que estavam retidos para reprodução. Não faz sentido libertarem-se indivíduos fora da zona protegida nas circunstâncias atuais onde ainda existe a probabilidade de captura. 

Os cavalos-marinhos apresentam pintas no corpo que são comparáveis às nossas impressões digitais, não há dois iguais. É realizada a sua fotoidentificação antes de serem libertados, o que possibilita o seu acompanhamento, que é feito mensalmente em mergulhos realizados pelos investigadores no mesmo local onde foram libertados.

O CCMar tem por objetivo criar condições para os cavalos-marinhos existentes na ria poderem por si próprios aumentar as suas populações. À partida não se devem libertar indivíduos nos ecossistemas naturais. Esta libertação só foi realizada porque a população estava muito baixa, aconteceu dentro da área protegida e permite estudar e investigar o que acontece a estes animais, percebendo os seus movimentos, através da fotoidentificação.

 Os cavalos-marinhos formam casais. Durante o comportamento de corte, normalmente iniciado pelo macho, este muda de cor para chamar a atenção da fêmea. Esta, se tiver ovos num estado de desenvolvimento adequado e que possam ser transferidos para o macho, corresponde e muda também ela de cor. Este comportamento prolonga-se por 2 a 3 dias até formarem um casal. A fêmea passa então os ovos para dentro da bolsa do macho e este fertiliza-os internamente, onde se desenvolvem durante um mês até nascer um pequeno juvenil. Entretanto, a fêmea produz mais ovos enquanto o macho toma conta dos anteriores. 

Ilustração Alexandra Grelha

A época de reprodução acontece nos meses de junho, julho, agosto e setembro. Idealmente seriam quatro ciclos reprodutivos, mas normalmente acontecem só uma ou duas vezes. O cavalo-marinho de focinho curto pode começar a reproduzir-se aos 3 meses de idade e os de focinho comprido a partir de 6/7 meses de idade. Um cavalo-marinho na costa portuguesa tem uma longevidade de uma média de 3 anos. 

Em Inglaterra, onde a água é mais fria, pode chegar aos 6 anos. Isto acontece porque o seu metabolismo é mais lento, não havendo tanto desgaste celular.O cavalo-marinho tem como a sua grande característica diferenciadora a forma do corpo. São peixes ósseos onde a sua morfologia evoluiu ao longo de milhões de anos. Por exemplo, a barbatana caudal desapareceu há cerca de 20 milhões de anos e desenvolveram uma cauda que utilizam para se agarrarem a estruturas onde podem permanecer imóveis durante várias horas. Só quando não há muita corrente é que se libertam para se movimentarem e caçarem. Se gostam do ambiente em que estão, não se afastam muito. 

Ilustração João Bettencourt Bacelar

Fisionomicamente as 42 espécies são muito semelhantes entre si, no entanto há diferenças como o comprimento: os mais pequenos são os tropicais com 2 cm, sendo os da Nova Zelândia os maiores com 34 cm. Acredita-se que todas estas espécies evoluíram de um ancestral comum na altura que os continentes ainda não estavam na posição atual. E, mesmo com a sua limitação em nadar, conseguiram ao longo dos últimos 15, 20 milhões de anos colonizar todos os oceanos, com exceção do Ártico e da Antártica, evoluindo depois e adaptando-se à sua realidade aquática local. Através de estudos realizados pelos investigadores da estação do Ramalhete, consegue-se verificar que, apesar da grande diminuição de população, a sua variabilidade genética não está comprometida. 

Os cavalos-marinhos em cativeiro demonstram alguma habituação ao humano. Se tiverem fome, identificam que o humano lhes dá comida. Demonstram um comportamento hierárquico entre os machos e de dominância principalmente na altura de formar casais. Também é possível observar que há cavalos-marinhos mais tímidos e outros mais destemidos. Individualmente têm comportamentos diferentes. 

Ilustração Ana Farinha

O cavalo-marinho é uma espécie predadora que compõe o seu habitat, exercendo o seu papel ecológico no ciclo da vida animal. São animais bastante sensíveis e carismáticos e por isso considerados espécies representativas do seu ambiente. Quando se está a proteger os cavalos-marinhos, está-se a proteger todas as espécies da Ria. Está a proteger-se a biodiversidade.

Enquanto humanos podemos ajudar desconfiando da venda de peixe pequeno abaixo do tamanho legal, sabendo que para o apanhar a malha da rede foi muito apertada e utilizada no fundo da ria, o que periga a vida de várias espécies assim como do seu habitat.

Ilustração Inês Lopes

SE ENCONTAR OU VIR UM CAVALO-MARINHO NA RIA FORMOSA, NÃO TOQUE, NÃO APANHE, NÃO LEVE PARA CASA, ATÉ PORQUE É ILEGAL. OBSERVE APENAS E DEIXE-O EM PAZ NO SEU HABITAT. A PROBABILIDADE DE ELE MORRER NAS SUAS MÃOS É DE 100%. RESPEITE O SEU DIREITO À VIDA, AJUDE A PRESERVAR ESTA ESPÉCIE PRÉ-HISTÓRICA QUE NESTE MOMENTO CORRE O RISCO DE EXTINÇÃO.