por Susana Jacobetty

Antes de existir Portugal enquanto reino, já existia Calheiros. A casa, a linhagem, a terra. Situado nas encostas que dominam o Vale do Lima, diante de Ponte de Lima, o Paço de Calheiros é hoje um dos mais notáveis exemplares da arquitetura civil portuguesa setecentista. Mas é, acima de tudo, um lugar onde a história não se conserva apenas em pedra: continua a ser vivida.

Francisco Lopes de Calheiros e Menezes, 1º Conde de Calheiros
A família surge documentada em 1122, com Fernão Peres de Calheiros, duas décadas antes da fundação formal do país. O primitivo paço teria sido uma torre medieval, cujos vestígios arqueológicos recentes confirmam a implantação defensiva inicial. Em 1336, D. Afonso IV confirma a honra de Calheiros a Martim Martins, fixando juridicamente um senhorio que permanecerá, caso quase único, na mesma família ao longo de quase nove séculos.

A configuração atual do solar resulta de sucessivas reedificações, sobretudo a de Quinhentos e a grande campanha do século XVIII, que lhe confere a feição monumental que hoje marca a paisagem do Lima. Implantado a meia encosta, o paço abre-se em duas frentes: a de chegada, marcada pela longa alameda arbórea, pelo terreiro, pela fonte e pela capela de São Bento, e a de aparato, virada aos jardins e ao vale, com a tipologia da casa longa setecentista, enquadrada por dois torreões, numa solução rara no Norte do país.


Rei Leão. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025.
Ser Conde de Calheiros é uma honra,
em honra dos meus antepassados e de um legado
que devo engrandecer e, transmitir
com o sentido de dever cumprido

Francisco de Calheiros e Menezes, Conde de Calheiros com os Leões. Leão de Nogueira da Montanha e Rei Leão, criação D. Duarte Pio,Duque de Bragança. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025. Fato, Miguel Vieira. Polo, Missoni (Loja das Meias)

Smoking, Miguel Vieira. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025.
O brasão dos Calheiros afirma a memória heráldica, cinco vieiras de Santiago em campo azul e três estrelas de ouro. As vieiras, símbolo jacobeu por excelência, denunciam a ligação secular da casa ao Caminho Português de Santiago, de que o paço foi pouso, abrigo e proteção desde a Idade Média. O próprio Codex Calixtinus refere Calheiros como uma das paragens relevantes da rota de peregrinação portuguesa. As estrelas, por sua vez, evocam a orientação espiritual do caminho, a via das estrelas que conduz a Compostela.

Brazão de Calheiros. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025.
O Caminho passa hoje a curta distância dos muros do paço e continua a trazer peregrinos a pé, de bicicleta ou a cavalo. Mudaram os tempos, não a vocação de acolhimento. Essa continuidade é uma das marcas mais singulares de Calheiros, não é um monumento fossilizado, mas uma casa habitada.

Smoking, Miguel Vieira. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025.
No interior, a história materializa-se no mobiliário, nos retratos de família, nas tapeçarias, pratas e cristais. Entre as peças mais emblemáticas contam-se a cama atribuída à rainha D. Carlota Joaquina e o conjunto de mobiliário preparado por Junot, para a eventual estadia de Napoleão no Convento de Mafra. A capela, com retábulo barroco, integra-se no quotidiano da casa com naturalidade, sem teatralidade museológica.


Francisco Lopes Calheiros e Meneses, 2º Conde de Calheiros
Que se percebe melhor a ideia que preside a este projeto. Francisco de Calheiros toma diariamente o pequeno-almoço com os hóspedes. Não por exotismo, mas por coerência com uma tradição de hospitalidade que atravessa séculos. O turismo, aqui, não substitui a casa, integra-se nela.
O Paço de Calheiros é, assim, mais do que um solar histórico. É um território de continuidade. A linhagem medieval, a arquitetura setecentista, o caminho de Santiago, o vinho, os jardins, a vida cultural e o turismo rural encontram-se num mesmo sistema de sentido. Um lugar onde o passado não serve de cenário, mas de estrutura viva.
No Vale do Lima, o Paço de Calheiros, mantém aquilo que poucas casas europeias ainda podem afirmar com verdade, nunca deixou de ser, desde antes do reino, uma casa habitada.
A MEDALHA RICHARD H. DRIEHAUS
Em 2025, o Conde de Calheiros foi distinguido com a Medalha Richard H. Driehaus para a Conservação do Património, reconhecimento internacional que valoriza quem dedica a vida à preservação da arquitetura, da cultura e das paisagens históricas. A distinção consagra uma trajetória de mais de quatro décadas, marcada pela recuperação do Paço de Calheiros e pela promoção de um modelo sustentável de gestão do património português.
O galardão não simboliza apenas a restauração física de edifícios, mas a revitalização de comunidades e territórios. Sob a direção de Francisco de Calheiros, o Paço não apenas recuperou a sua harmonia original, respeitando técnicas e materiais tradicionais, como também se tornou referência de turismo cultural e rural, onde o património é vivido, partilhado e integrado na economia e no quotidiano local.
Esta visão estendeu-se muito além das paredes do solar. Nos anos 1980, num país ainda marcado por um setor hoteleiro pouco desenvolvido, Francisco de Calheiros participou na criação de uma nova modalidade: o turismo de habitação. Em Ponte de Lima, quatro casas senhoriais pioneiras, incluindo o Paço de Calheiros, celebraram protocolos com a Câmara Municipal, estabelecendo bases para a preservação e o uso turístico de residências históricas.
Em 1983, a fundação da TURIHAB consolidou esta experiência, estruturando a rede Solares de Portugal, que hoje integra mais de 120 casas classificadas em três categorias (Casas antigas, Quintas e Herdades, e Casas rústicas), todas com o mesmo propósito: preservar a arquitetura tradicional e a hospitalidade portuguesa.
Cada proprietário assume o papel de anfitrião e guardião da memória, oferecendo ao visitante uma experiência cultural autêntica, baseada na história, nos produtos locais e na vivência territorial.

A dimensão internacional desta abordagem também é notável. Francisco de Calheiros impulsionou a criação da rede europeia Europa das Tradições, conectando associações congéneres da Grã-Bretanha, França, Irlanda, Países Baixos, Alemanha, Áustria, Hungria, Itália e Eslovénia, e mais tarde estabelecendo pontes até ao Brasil com as Fazendas do Brasil. Esta rede demonstra que a conservação patrimonial, quando vivida e partilhada, transcende fronteiras e reforça a identidade cultural comum.
Esta ação não se limita ao património privado. Em 1991, fundou a Associação de Desenvolvimento Rural Integrado do Vale do Lima (ADRIL), através da qual canalizou fundos europeus do programa LEADER para projetos estruturantes no território. A iniciativa apoiou a recuperação de aldeias históricas, a criação de trilhos de montanha, a valorização de produtos locais e a implementação de infraestruturas culturais e recreativas, incluindo o Festival Internacional de Jardins, o campo de golfe, o hipódromo e a promoção do Caminho Português de Santiago.

Francisco de Calheiros e Menezes, Conde de Calheiros. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025. Fato, Miguel Vieira. Polo, Missoni (Loja das Meias)
No discurso de aceitação da medalha, Francisco de Calheiros sublinhou que a distinção é um tributo coletivo: aos artesãos que restauraram pedra a pedra, aos proprietários que abriram as suas casas, às comunidades que mantêm viva a tradição, e às instituições que apoiam o património. Mais do que um prémio pessoal, a medalha representa um compromisso renovado com a conservação viva, a valorização do território e a hospitalidade, como marca distintiva de Portugal.
Hoje, a sua experiência inspira um modelo de gestão cultural e patrimonial que alia tradição e inovação, promovendo a sustentabilidade do território e o fortalecimento das comunidades locais.



