Beatriz Costa por Alice Vieira

Fui muito amiga da Beatriz Costa. Em criança lembro-me de gostar muito de a ver nas revistas do Parque Mayer porque no final de tudo, quando as pessoas já se estavam a levantar para se irem embora, ela puxava a cortina e dizia “adeus meninos, até amanhã!” E, tal como eu, usava cabelo curto e com franja. Às vezes via-a na esplanada da Brasileira, com gente muito conhecida na altura (Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, etc).

Beatriz Costa em Aldeia da Roupa Branca, MNT 753490. Museu Nacional do Teatro e da Dança. Autor Octávio Bobone, século 20. Fotografia Paulo Baptista, 2025.

Depois perdi-lhe o rasto. Sabia que vivia no Hotel Tivoli, e pouco mais. Mas a primeira vez que falei com ela, lembro-me perfeitamente foi nos Armazéns do Grandella, na secção onde se vendiam brinquedos. A minha filha, muito pequenina então, fazia uma birra danada porque queria uma boneca e eu não a queria comprar, ela tinha bonecas e mais bonecas, para quê mais uma.

E, de repente, vinda sabe-se lá donde, vejo a Beatriz Costa ao nosso lado, com essa boneca nas mãos:

-Coitadinha da menina! Tome lá a boneca! Ficámos amigas. E nos anos em que trabalhei no “Diário de Noticias” ia muitas tardes vê-la ao Hotel Tivoli. O Almirante Gago Coutinho tinha tido uma grande paixão por ela e ordenara aos seus familiares que, depois de ele morrer, eles teriam de continuar a pagar tudo, absolutamente tudo de que ela precisasse.

Beatriz Costa e Marlene Dietrich. Autor desconhecido.

Casa Museu Beatriz Costa, Malveira.Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025.

E assim foi feito. E ela era uma mulher muito inteligente, era um gosto conversar com ela. E era muito amiga dos seus amigos: o meu filho e a minha filha receberam várias ofertas dela (lindas colchas de renda para ambos, por exemplo). Viveu muitos anos no Brasil—onde era tão famosa como a Carmen Miranda-amiga de Jorge Amado e de muitos outros escritores. E escreveu vários livros :”Sem Papas Na Língua”, “Quando os Vascos eram Santanas “, “Nos Cornos da Vida”, “Eles e Eu”, ”Mulher Sem Fronteiras”. Mas o seu país estava sempre no seu coração e quis ser enterrada no cemitério da Malveira, a terra onde tinha nascido.

Cartaz do filme Canção de Lisboa de Almada Negreiros, Casa Museu Beatriz Costa, Malveira. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025.

Beatriz Costa na revista “O Mexilhão”. Teatro Variedades. MNT 7487. Museu Nacional do Teatro e da Dança. Autor Desconhecido / Foto Luzitana, 1931. Fotografia
Paulo Baptista, 2025.