MANUEL CIPRIANO GOMES MAFRA

Jarro de Manuel Cipriano Gomes no Centro de Interpretação Barro de Mafra. Fotografia João Bettencourt Bacelar

No âmbito do estudo e da divulgação da olaria mafrense, Manuel Cipriano Gomes, o fundador da cerâmica caldense a partir da tradição de Maria dos Cacos surge como uma figura relevante, pelo facto de ser oriundo de uma família de oleiros de Mafra.

Este ceramista alcançou um domínio notável de técnicas de produção cerâmica na época, nomeadamente, técnicas de modelação, decoração e de vidrados, vindo até a influenciar trabalhos de barristas mafrenses, volvidos uma centúria.

Por essa razão, o Município de Mafra tem vindo a reunir um conjunto de peças para valorização da coleção municipal de cerâmica decorativa, que pode ser apreciada no recém-criado Centro de Interpretação Barro de Mafra.

Jarro de Manuel Cipriano Gomes no Centro de Interpretação
Barro de Mafra. Fotografia João Bettencourt Bacelar

Jarro de Manuel Cipriano Gomes no Centro de Interpretação
Barro de Mafra. Fotografia João Bettencourt Bacelar

Manuel Cipriano Gomes, natural da Saibreira, Concelho de Mafra, era filho de oleiro, tendo nascido a 30 de agosto de 1831. Devido às suas origens, viria a ser conhecido de Manuel Mafra.

Ainda jovem foi trabalhar para Caldas da Rainha, como moço de estalagem. Todavia, sentindo o apelo do barro, cedo arranjou emprego na fábrica de Maria dos Cacos, considerado um operário talentoso.

Em 1853, toma de trespasse a fábrica da patroa, dando início a uma nova era na produção cerâmica local. Inicialmente, a sua produção deu continuidade às representações decorativas anteriores aí produzidas, mas logo começou a introduzir outros elementos aos modelos originais, bem como passou a usar vidrados policromáticos.

Nesta fase inicial, chama para trabalhar junto de si e da mulher, Maria José, as duas irmãs, Mariana e Maria Luísa da Conceição Gomes, as quais desenvolvem uma nova técnica decorativa apelidada de “verguinha”.

Manuel Mafra também introduz outras técnicas decorativas de sua autoria, designadamente o musgado, o areado e o efeito de granito, bem como recorre à modelação de figuras em molde que conferem alto relevo nas peças. Com estas inovações, ele dá início a uma nova produção, a cerâmica caldense, que vigora até hoje.

Sendo um homem criativo, industrioso, inteligente e empreendedor, em 1860, funda uma nova fábrica, com uma loja aberta ao público, uma novidade para a época. Este passo contribuiu para que as suas criações fossem granjeando admiradores e fama, beneficiando do facto de Caldas da Rainha, na época, ser frequentada pelas elites da sociedade portuguesa, em busca dos benefícios das suas águas termais, entre as quais, a Casa Real.

Paliteiro (1870-1887), Manuel Cipriano Gomes Mafra
Museu da Cerâmica. Nº de Inventário: MC 1742

Prato (1870-1887), Manuel Cipriano Gomes Mafra
Museu da Cerâmica. Nº de Inventário: MC 3162

Jarro. Faiança, Manuel Mafra (1831-1905) Portugal. Fábrica de Louça das Caldas, ca 1870-1890 CMFF 186; 1 CE. Casa Museu Frederico Freitas

O rei D. Fernando II, monarca instruído e amante das artes, toma conhecimento da obra de Manuel Mafra, tornando-se grande admirador da sua cerâmica. Supõe-se que teria sido o rei quem teria dado a conhecer ao ceramista as correntes artísticas vigentes, emergentes do Romantismo. Outras duas figuras influentes para o desenvolvimento artístico de Manuel Mafra supõem-se ter sido o colecionador José Palha e o artista Winceslau Cifka.

Jarro. Faiança, Manuel Mafra (1831-1905) Portugal. Fábrica de Louça das Caldas, ca 1870-1890.CMFF 170; 1 CE.39 Casa Museu Frederico Freitas

Este foi um período determinante para a ascensão de Manuel Mafra como industrial de envergadura. Em 1870, sob o mecenato de D. Fernando II, o ceramista torna-se fornecedor da Casa Real, passando a deter o privilégio de usar a coroa régia na sua marca de fábrica. Sob os auspícios do rei, as cerâmicas de Manuel Mafra são apresentadas e premiadas em grandes Feiras Internacionais e Universais, a saber: Viena de Áustria (1873), Filadélfia (1876), Paris (1878) e Rio de Janeiro (1879), ação que repercutiu um incremento da atividade fabril e exportações para mercados importantes. A conjugação de acontecimentos a partir de 1885, nomeadamente, o falecimento do rei, a entrega da gestão da fábrica ao filho, a concorrência de outras fábricas de cerâmica e a crise na indústria, viriam a ditar o seu declínio. Em 1890, os bens da fábrica que fundou, incluindo os moldes das suas criações, são leiloados.

Prato (1870-1887), Manuel Cipriano Gomes Mafra Museu da Cerâmica. Nº de Inventário: MC 3155

Ainda assim, em 1897, funda nova fábrica, mas que, devido à idade avançada e à concorrência da Fábrica de Faianças das Caldas, não alcançaria o sucesso da primeira.

Vasilha para aguardente em forma de leão Manuel Cipriano Gomes Mafra, Caldas da Rainha, Portugal Faiança, Séc. XIX. 178 x 342 x 132 mm. PDVV1899 Paço Ducal de Vila Viçosa, Fundação da Casa de Bragança

Vasilha para aguardente em forma de touro bravo,Manuel Cipriano Gomes Mafra, Caldas da Rainha, Portugal Faiança (esmaltada a castanho-escuro) Séc. XIX 321 x 324 x 160 mm PDVV1898

Manuel Cipriano Gomes Mafra faleceu em 1905, deixando um testamento, no qual os filhos não foram contemplados. Apesar destas vicissitudes, o legado de Manuel Mafra influenciou de modo determinante outros ceramistas sucedâneos, incluído o próprio Bordalo Pinheiro e hoje, as suas loiças encontram-se representadas em coleções particulares e museus por todo o mundo.

A sua obra enquadra-se no estilo romântico-naturalista da época, que surge em França e Inglaterra, no séc. XIX, com a redescoberta dos cânones estéticos do Renascimento e da valorização da natureza, nomeadamente, no contexto cerâmico, com a redescoberta dos trabalhos de Bernard Palissy, criador de um estilo cerâmico inédito, no séc. XVI, caracterizado por elevada técnica e cujos temas explorados resultavam da observação cuidadosa e da reprodução em molde, de animais e plantas, harmonizados, constituindo cenas da natureza.

Prato (1860-1870), Manuel Cipriano Gomes Mafra Museu da Cerâmica. Nº de Inventário: MC 3166

O neo-palicismo, movimento do qual Manuel Mafra é um exemplo em Portugal, recorre aos seres vivos como elementos decorativos na cerâmica, dando lições de biodiversidade, em zoologia e botânica. Contudo, estas formas de interpretação, uma encruzilhada entre a arte e a história natural, devido às preocupações estéticas e à fantasia que mostram, derivam em falhas na reprodução fidedigna e desvios científicos. Tendo desenvolvido um estilo próprio, Manuel Mafra viria a ser apelidado de Palissy das Caldas.

Prato de Manuel Cipriano Gomes no Centro de Interpretação Barro de Mafra. Fotografia João Bettencourt Bacelar

Faiança Manuel Mafra (1831-1905) Portugal, Fábrica de Louça das Caldas, ca. 1870-1890 CMFF171;1CE Casa-Museu Frederico de Freitas

Executa uma cerâmica representativa de uma natureza exuberante, romanceada, onde predominam as cenas dramáticas de luta pela sobrevivência e de predação, bem ao gosto do público da época.

Neste contexto, a par das naturezas mortas e dos animais fantasiados ou reais, proliferam as representações de répteis, tais como cobras e lagartos, compondo cenas de grande realismo, que se prestam a interpretações simbólicas, emergentes das crenças da cultura popular.

Faiança Manuel Mafra (1831-1905) Portugal, F·brica de Louça das Caldas, ca. 1860-1900 CMFF328 CE Casa-Museu Frederico de Freitas

Embora a produção cerâmica de Manuel Mafra tenha sido movida por motivações estéticas, enquadradas nas tendências artísticas do Romantismo, também as suas origens populares teriam sido influentes nas temáticas por si representadas.

Algumas marcas das peças de de Manuel Cipriano Gomes no Museu da Ceramica. Fotografia nicole Costa