
A Tapada Nacional de Mafra (TNM), criada por decreto real há 281 anos, é mais do que um bosque antigo: é um lugar onde se pode sentir a respiração tranquila da floresta, o sussurro das folhas ao vento, o bater de asas por entre os ramos. A cerca de 40 km de Lisboa, os seus 833 hectares murados guardam uma enorme diversidade vegetal, resultado da sua geografia variada, com vales húmidos, encostas secas e solos diversificados, e da gestão feita pelo Homem, pelos animais e até pelo fogo ao longo de quase 3 séculos.

Ao caminhar pelos seus trilhos, pode sentir-se o aroma turfoso das folhas em decomposição, o perfume doce da murta, o cheiro a resina dos pinheiros, o toque suave do musgo. Passear pela TNM é entrar num mundo onde o tempo abranda.

Na TNM podem encontrar-se zonas ribeirinhas com vegetação ripícola integrando freixos (Fraxinus excelsior e Fraxinus angustifolia), choupo- negro (Populus nigra), salgueiros (Salix atrocinerea e Salix alba) e loureiros (Laurus nobilis); zonas de pinheiros-bravos (Pinus pinaster) e mansos (Pinus pinea), manchas de quercíneas, com sobreiro (Quercus suber), azinheira (Quercus rotundifolia) e carvalho- cerquinho (Quercus faginea), oliveira (Olea europaea), mas abundam também líquenes, fetos e herbáceas, algumas raras ou indicativas de ecossistemas bem conservados. É o caso das orquídeas silvestres, cuja conservação merece uma atenção especial através de legislação dedicada (Regulamento da Comissão n.º 2384/85/CEE de 30-07-1985).

Podemos ainda encontrar com frequência zambujeiro (Olea europaea var. sylvestris), carrasco (Quercus coccifera), pilriteiro (Crataegus monogyna), urzes (Erica spp.), trovisco (Daphne gnidium), medronheiro (Arbutus unedo) e tojos (Ulex spp.) Existem ainda manchas com eucaliptos (Eucalyptus globulus) que estão a ser substituídos por espécies autóctones, e ulmeiros (Ulmus minor). Por último, regista-se também a ocorrência isolada de exemplares de castanheiro (Castanea sativa). Até à data foram inventariadas mais de 200 espécies vasculares, mas esta é uma tarefa que nunca está acabada.

As espécies autóctones fornecem alimento, sombra e abrigo a uma fauna igualmente rica, onde abundam veados, gamos, javalis, raposas, anfíbios e muitas aves. Menos abundantes, mas com estatuto de conservação, destaca-se a presença da águia-de-Bonelli (Aquila fasciata) e do açor (Accipiter gentilis), de pequenos mamíferos como o toirão (Mustela putorius) ou o morcego-de-Bechstein (Myotis bechsteinii), insetos como a borboleta fritilária-dos-lameiros (Euphydryas aurinia), ou répteis como a víbora-cornuda (Vipera latastei) na TNM.

Para além da riqueza específica assinalada, existem também na TNM três árvores classificadas como de Interesse Público, pela sua idade e dimensão: um castanheiro-da-índia (Aesculus hippocastanum L.), uma olaia (Cercis siliquastrum L.), plantados no reinado de D. Luis I por ordem do seu pai, D. Fernando II, e um sobreiro (Quercus suber L.), com a idade estimada de 400 anos, conhecido como o “sobreiro do Rei”.

A gestão do coberto vegetal efetuada na TNM tem um foco especial na conservação da biodiversidade, promovendo o seu usufruto individual e coletivo como um instrumento de educação e sensibilização ambiental e contribuindo para a valorização do património natural.
E é por tudo isto que preservar a TNM importa tanto. Porque nela vive não só uma riqueza botânica rara e uma singular riqueza faunística, mas também porque a Tapada é um convite silencioso à contemplação e ao respeito pela natureza. E para preservar é preciso conhecer.


