EXPOSIÇÃO AVENIDA 211 X MAC/CCB

por Susana Jacobetty

Fotografia João Bettencourt Bacelar

No segundo aniversário do Museu de Arte Contemporânea de Lisboa, o MAC/CCB revisita um dos capítulos mais singulares da arte portuguesa recente. A exposição Avenida 211, um espaço de artistas em Lisboa, recupera a memória viva do edifício da Avenida da Liberdade, número 211, que entre 2006 e 2014 funcionou como um território experimental de criação, colaboração e resistência artística.

Idealizado e gerido por António Bolota, engenheiro civil e artista, o espaço abrigou dezenas de nomes que marcariam a cena contemporânea — Francisco TropaJoão Maria Gusmão e Pedro PaivaGabriela AlbergariaKunsthalle Lissabon, entre muitos outros. Cada artista recebia uma chave, símbolo de uma convivência baseada na confiança e na autonomia. A natureza do projeto era informal e generosa: um refúgio num tempo de austeridade, onde o fazer artístico se confundia com o gesto de partilhar.

Antes de a Avenida da Liberdade consolidar o seu estatuto de eixo do luxo, o número 211 foi um enclave de liberdade e experimentação. Ali nasceram obras, colaborações e ideias que se cruzaram com a Bienal de Veneza, com o cinema de João Botelho ou com concertos organizados pelos Filho Único. A sua história, feita de improviso e de cumplicidade, tornou-se um ponto de inflexão na forma como Lisboa pensou o espaço artístico independente.

“A inauguração da exposição Avenida 211, no segundo aniversário do MAC/CCB, tem um significado particular. Entre 2006 / 2014, foi um local de criação, de trabalho coletivo e de experimentação, tendo por base todos os valores que tanto apreciamos e admiramos. É um privilégio podermos hoje apresentar as obras desses 60 artistas”.

Nuno Vassallo e Silva Presidente do Conselho de Administração da Fundação CCB

Com curadoria de Nuria Enguita e Marta Mestre, a mostra no MAC/CCB recompõe esse espírito fundador através de um “arquivo vivo” de obras, documentos, sons e testemunhos. Mais do que reconstruir um passado, a exposição revela uma teia de relações e intensidades que continua a interpelar o presente. As curadoras propõem cinco percursos conceptuais, que reconstroem o ambiente colaborativo e indisciplinado da Avenida.

“A Avenida 211 foi um lugar de pujança criativa e liberdade num tempo de contração económica”, recorda Nuria Enguita. Marta Mestre sublinha que o projeto “gerou memórias impossíveis de conter numa só narrativa”, e Bolota reconhece que, dez anos depois, “a mesma alegria e liberdade persistem nesta exposição”.

“O espaço Avenida 211 teve um impacto na atual arte contemporânea, porque permitiu que aquela geração de artistas portugueses, criasse um percurso e se firmasse e projetasse na arte nacional e internacional. Será difícil voltar a ter um espaço assim no centro de Lisboa, mas não impossível”.

António Bolota, artista, engenheiro cívil e gestor do espaço Avenida 211

A inauguração, a 24 de outubro, assinala três dias de programação gratuita — conversas, concertos e atividades para famílias — que reafirmam o museu como território de encontro e reflexão. Até 5 de abril de 2026, Avenida 211 reabre simbolicamente as portas da Liberdade, um lugar onde a arte continua a ser, antes de tudo, um exercício coletivo de imaginação e resistência.

AVENIDA 211: Um espaço de artistas em Lisboa

MAC/CCB Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural de Belém

Exposição temporária, Piso -1

Curadoria: Nuria Enguita e Marta Mestre

Investigação: Giorgia Casara e Sara de Chiara

Arquitetura: André Maranha

Design: Sofia Gonçalves

De 25 de outubro 2025 a 5 de abril 2026

Com a participação de Adua Guerra Santos, Alexandra do Carmo, Ana Manso, Ana Santos, André Guedes, André Maranha & Tomás Maia, André Romão, António Bolota, António Poppe, Armanda Duarte, The Barber Shop, Bruno Cidra & Gonçalo Barreiros, Carla Filipe, Catarina Dias, Catarina Pinto Leite, Daniel Barroca, David Maranha & Manuel Mota, Diogo Bolota, Diogo Evangelista, Diogo Saldanha & Marta Maranha, Eduardo Petersen, Filho Único, Francisca Manuel, Francisco Tropa, Gabriela Albergaria, Gonçalo Pena, Gonçalo Sena, Gwendolyn van der Velden, Isadora Neves Marques, Joana Escoval, João Maria Gusmão + Pedro Paiva, João Queiroz, Kunsthalle Lissabon, Lara Torres, Liene Bosquê, Luísa Jacinto, Mariana Ramos, Mattia Denisse, Musa paradisiaca, Nuno Martins, Osso Exótico, Otia Tvta, Parkour, Paulo Morais, Pedro Barateiro, Pedro Henriques, Pedro Morais, Pedro Tropa, Projecto Teatral, Susana Pomba, Teresa Santos, Thierry Simões, Tomás Cunha Ferreira, Vera Marmelo, Virgínia Mota.

One Comment

  1. Pingback:News – PH – Balcony