Mumadona Dias

por MANUEL LUÍS REAL CITCEM, FLUP / IEM, FCSH

Mumadona Dias nasce por volta do ano 900, no seio de uma ilustre família galaico-asturiana, mas teve uma infância peculiar, refugiada com seus pais na fronteira sul do Reino das Astúrias. A nobreza galega estava dividida no apoio à monarquia, então governada pelo rei Afonso Magno. Diogo Fernandes e Onega, seus progenitores, haviam-se abrigado na região de Viseu-Lafões, no círculo de Bermudo Ordonhes, o rebelde irmão do monarca.

Ilustração, Mumadona Dias, por Maria Jacobetty Bacelar, 2025

As pontes de diálogo limitar-se-iam ao príncipe herdeiro, Ordonho, na altura senhor de uma Galiza com pretensões expansionistas até ao vale do Mondego. Disso dá testemunho a circunstância de ter entregue a criação de um dos seus filhos ao cuidado desta família. Trata-se de Ramiro, futuro rei, de quem Mumadona foi “colaça” ou irmã de leite, e considerava “tios”, tanto a ela como ao irmão Ximeno. Ora, tal detalhe abre uma pista interessante para identificar a mãe da condessa Mumadona. A sua origem navarra parece relativamente segura. Deverá ser Onega Garcês, viúva desde 893, quando se uniu a Diogo. Seria meia irmã de Jimena Garcês, mulher de Afonso Magno e, portanto, tia-avó de Ramiro. Assim se explica a designação de “tios” aos filhos de Onega. Quanto a Diogo, pode ser descendente de um nobre castelhano, Fernando, que em 867 aparece ao lado do rei. Porém, Diogo virá a ser acusado de infidelidade ao monarca e, em 908, são-lhe confiscados bens.

Friso ornamental em calcário, da antiga igreja de Arosa (Casa Museu Fernando de Castro-Porto. Nº invº 71-Escultura). Fotografia João Bettencourt Bacelar

Mumadona casa-se jovem, com Hermenegildo Gonçalves, um nobre da casa condal de Tui e nomeado conde de Portucale. A sua transferência para Guimarães deu-se em 926, senão antes, recebendo do rei a villa de Creixomil. Daqui os condes irão autonomizar a villula de Vimaranes, para aí fundarem um mosteiro dúplice, com apoio régio. Eles adoptam uma estratégia comum na aristocracia da época, como forma de legitimação do poder, afirmação de prestígio e expansão da riqueza. Hermenegildo veio a falecer em 950, quando já a filha do casal era devota e vivia no mosteiro, em comunidade com outras noviças.

Ajimez da igreja de S. Torcato (Guimarães). Ilustração de Beatriz Nunes Santos, segundo orientação e fotografia de Manuel Luís Real

No leito de morte, o conde esteve acompanhado por um abade, de nome Ranualdus, que em 936 assistira, como ele, à fundação do mosteiro de Celanova. É um raríssimo antropónimo de origem franca, podendo coincidir com o fundador do mosteiro compostelano de La Corticela, aí substituído pelo abade Guto antes de 924. As origens galegas dos Betotes, da casa de Deza, poderão explicar a aproximação entre Hermenegildo e Ranualdus, tornando provável a fundação do mosteiro de Guimarães em data anterior e, por maioria de razão, em vida do próprio Conde.

Igreja de S. João de Calvos (Guimarães), construída no século X e remodelada parcialmente no período românico. Fotografia de Manuel Luís Real.

Após o falecimento do marido, Mumadona Dias assumiu a liderança do governo de Portucale em condições bastante difíceis: dá-se o falecimento de Ramiro, seu grande protector; morre-lhe o filho dileto, Nuno; a filha Onega rejeita a vida monástica, fugindo amantizada com um monge; e emerge um dilacerante conflito sucessório, para o trono deixado vago por Ramiro.

Mesmo assim, a condessa tomará decisões importantes durante a primeira década de mandato: amplia o património, adquire Sª Marinha da Costa, onde vai construir o seu novo paço; e conclui a edificação da basílica de S. Salvador e Sª Maria de Guimarães. Presidiu à sagração deste templo o bispo S. Rosendo, tendo assistido à cerimónia a mais alta aristocracia da região, civil e religiosa.

Estátua de Mumadona Dias (1960) de Álvaro Brée, na sua antiga localização. Fotografia Arquivo da Direção Regional de Cultura do Norte

Estava-se em 959, altura em que Mumadona concede um importante dote ao mosteiro, sob a forma de testamento, já que decide aí ingressar como conversa e transmitir o governo do condado para o filho primogénito, Gonçalo Mendes. Nesse extenso diploma deixa transparecer a enorme riqueza por si acumulada, assim como o ambiente religioso e cultural da época, para além do luxo que rodeava a família patronal.

Pormenor da estátua de Mumadona Dias.Fotografia João Bettencourt Bacelar ilustração Camila Valentina

Entretanto, chegam notícias de razias vikings nas costas da Galiza, ao mesmo tempo que a instabilidade política do Reino não cessava, reforçando a posição dominante do califado. O próprio conde de Portucale não consegue distanciar-se da correspondente teia de interesses e recebe ameaças por parte dos condes de Coimbra e de Límia. Em 968, prevenindo o adensar das crises, Mumadona decide entregar a gestão temporal do mosteiro à sua filha Onega e, para segurança dos monges, manda construir o castelo, conferindo ao conde Gonçalo a responsabilidade de proteger Guimarães e seu território. Ignora-se a data do falecimento de Mumadona Dias, mas pode concluir-se que, através destas duas nomeações, ela consegue garantir a continuidade do poder da sua linhagem, tanto no mosteiro, como no condado de Portucale.