
POR JOSÉ PAULO VIEIRA E ANDRÉ PEREIRA
Com uma presença milenar no Noroeste Ibérico, o garrano desenvolveu estreitos laços com os povos que habitaram este território, em tempos de paz e em tempos de guerra. O garrano funde-se com a História de Portugal. Lado a lado com o Homem, tanto em árduas batalhas, como a puxar o arado, montado ou atrelado nas pequenas e grandes viagens. A sua memória surge em moedas de ouro cunhadas na primeira dinastia, assim como na literatura portuguesa oitocentista. Até à segunda metade do século XX, antes da mecanização dos trabalhos agrícolas, o garrano desempenhava um papel muito importante na economia agropastoril, sendo intensamente utilizado pelas comunidades rurais. O garrano será paulatinamente destituído das suas nobres missões, especialmente a partir da década de 40 do século XX.

fotografia João Bettencourt Bacelar
Os garranos são animais de pequena estatura (altura no garrote inferior a 1,35m), com peso aproximado de 290 quilos, de perfil de cabeça recto ou côncavo, cabeça fina e grande. A pelagem é castanha escura, sendo a crina e a cauda pretas e muito densas. As manadas de garranos povoam os baldios das montanhas do Noroeste de Portugal e Galiza, onde ainda são criados num regime semisselvagem graças à sua robustez e excelente adaptação a este habitat.

fotografia João Bettencourt Bacelar
Há mais de oito anos, consolida-se uma estratégia de preservação baseada na investigação científica e de diferenciação turística à escala regional. Constituem âncoras centrais desta estratégia a preservação da raça garrana e do seu habitat nas serras de Arga e de Santa Luzia. Os primeiros passos no sentido do estudo sistematizado do comportamento e cognição do garrano em estado semisselvagem têm sido dados desde 2016, por um grupo de investigadores da Universidade de Quioto e da Universidade de Sorbonne Nouvelle, com um protocolo estabelecido com o município de Viana do Castelo. O trabalho de campo desenvolvido na Serra de Arga, espaço de montanha que reúne as condições ideais para a observação destes equídeos no seu espaço natural, possibilitou importantes avanços no conhecimento respeitante à composição, mobilidade e dinâmicas dos grupos de garranos.
A par destas investigações, o município de Viana do Castelo tem desenvolvido um conjunto de iniciativas de valorização do garrano. Em julho de 2021 promoveu o I Congresso Internacional de Equinologia e Turismo Equestre, tendo reunido mais de quatro dezenas de investigadores, de sete países distintos, que lideram trabalhos pioneiros no estudo, conservação e valorização de equinos e das suas relações ecossistémicas e com o Homem. Duas referências mundiais da ciência animal participam por vídeo – conferência: Jane Goodall, fundadora do Instituto Jane Goodall & Mensageira da Paz das Nações Unidas e Tetsuro Matsuzawa, professor emérito da Universidade de Quioto e cofundador do projeto Horse Cognition.

fotografia José Paulo Vieira
O projeto Percursos do Homem e do Garrano, promovido nos anos de 2017 e 2018 pelo município e cofinanciado pelo programa NORTE 2020, elegeu como missão aproximar o garrano das populações e visitantes, conferindo-lhe um novo protagonismo na fruição turística e de lazer dos espaços naturais de excelência e promovendo a divulgação das características, habitat e potencialidades da raça.

fotografia José Paulo Vieira
O projeto Vilas e Aldeias Equestres entre Arga e Lima, cofinanciado pelo programa Valorizar, do Turismo de Portugal, em implementação desde julho de 2020 até ao presente, representa a união dos municípios de Viana do Castelo, Caminha e Ponte de Lima em prol da construção de um destino equestre internacional. Esta imbrincada relação do garrano com a nossa identidade coloca-nos, simultaneamente, perante um desafio e uma oportunidade: preservar este legado cultural e genético e reinventar as funções do garrano nos modos de vida, aspirações e necessidades das novas gerações, a fim de tornar sustentável a preservação desta importante espécie autóctone e de valorização do seu território nativo.


