por Susana Jacobetty
Fotografia João Bettencourt Bacelar


A cidade transmontana de Mogadouro reviveu o espírito templário e conquistou um lugar na história nacional
No Nordeste Transmontano, ergue-se Mogadouro, uma cidade marcada pela ruralidade, pela força da tradição e, agora, por uma surpreendente redescoberta: o seu passado templário.
O evento “Mogadouro Templário”, que devolveu à comunidade, e ao país, uma narrativa há muito esquecida, foi organizado pela Real Associação de Trás-os-Montes e Alto Douro e pela Câmara Municipal de Mogadouro, sob o Alto Patrocínio da Casa Real Portuguesa, com direção executiva de Tiago Mendes Ferreira.

Aconteceu em Abril de 2025 e integrou-se nas comemorações dos 700 anos da morte de D. Dinis, o rei-poeta que foi também estratega político e responsável pela transição da Ordem do Templo para a nova Ordem de Cristo em Portugal. Esta ligação simbólica entre o passado régio e a espiritualidade cavaleiresca serviu de ponto de partida para a celebração de um renascimento cultural e identitário, a herança templária no Nordeste Transmontano. O monarca português, figura central na transição da extinta Ordem do Templo para a Ordem de Cristo, foi homenageado através de um programa imersivo, que cruzou história, património e identidade, promovendo o reencontro de Mogadouro com as suas raízes medievais e cavaleirescas.



A Torre de Vigia de Mogadouro é um dos elementos mais emblemáticos do património histórico desta vila transmontana, situada no nordeste de Portugal. Remanescente do antigo castelo medieval, a torre ergue-se como testemunho da importância estratégica da região durante a Idade Média, quando a linha defensiva contra os reinos de Leão e Castela exigia fortificações robustas.
Construída entre os séculos XIII e XIV, sob influência da Ordem dos Templários e mais tarde dos Cavaleiros da Ordem de Cristo, a torre destaca-se pela sua planta quadrangular e pelas grossas muralhas em granito, pensadas para resistir aos ataques e ao tempo. A sua posição elevada permitia uma ampla visão, servindo tanto funções militares como de vigilância territorial.
Hoje, a Torre de Vigia é um símbolo da identidade local, evocando a memória de um passado marcado por batalhas, senhorios e fronteiras em disputa. Restaurada e integrada no circuito turístico e cultural de Mogadouro, é também um espaço de contemplação, onde história e paisagem se fundem harmoniosamente.

Durante vários dias, o centro histórico de Mogadouro mergulhou no século XII, com vida, sons e cores medievais numa viagem sensorial até à Idade Média. Com uma feira medieval onde se misturaram artesanato, gastronomia tradicional e doces conventuais. O evento também apresentou o projeto de reconstrução simbólica da identidade templária de Mogadouro, com a criação de pontos de memória permanente e a reativação do imaginário espiritual associado aos Cavaleiros de Cristo.

Grupo o Santo Oficio / Taberna Medieval “O Caldeirão”


Um dos pontos altos foi a exposição inédita de documentos históricos raros da Ordem de Cristo, alguns dos quais apresentados ao público pela primeira vez. Estes arquivos preciosos lançaram luz sobre o papel da região na transição do Templo para o Reino de Portugal. Estes vestígios documentais ajudaram a consolidar a tese de que Mogadouro — embora pouco mencionada nos grandes livros de história — teve um papel mais relevante do que se pensava na herança templária portuguesa.

Professor Doutor Manuel Cordeiro

O evento contou com a presença do duque de Bragança, Dom Duarte Piu, atual chefe da Casa Real Portuguesa. A sua participação deu ao evento uma dimensão simbólica e institucional, reforçando o compromisso da monarquia cultural com a valorização do património histórico nacional.

duque de Bragança, Dom Duarte Piu e Susana Jacobetty

Francisco Marques Presidente da Real Associação de Trás os Montes e Alto Douro, Tiago Mendes Ferreira diretor executivo do “Mogadouro templário” e duque de Bragança, Dom Duarte Piu
Neste mesmo espírito, foi apresentado o Movimento Mogadouro Templário, uma iniciativa comunitária que visa criar grupos locais de estudo e prática de tradições templárias, como esgrima medieval, dança histórica, arqueirismo e simbologia espiritual. Este movimento pretende deixar uma marca duradoura na região, para lá dos dias festivos.
Um lugar na Rota dos Templários de Portugal
Com o apoio de historiadores e investigadores, foi formalmente apresentada a proposta de inclusão de Mogadouro na Rota Nacional dos Templários, reconhecendo a importância do território na geografia espiritual e militar da Ordem. Unindo-se assim a locais como Tomar, Almourol ou Castro Marim. A ideia é criar pontos de memória permanente na vila, onde visitantes e estudiosos possam mergulhar nas raízes templárias do território.

Mais do que um evento, o “Mogadouro Templário” afirma-se como um renascimento simbólico e comunitário, resultado de um ano de investigação, envolvimento popular e articulação institucional. Durante séculos esquecida, a marca templária volta agora a brilhar em Trás-os-Montes, devolvendo à história nacional uma peça do seu puzzle medieval.





Mais do que um evento: um movimento
O “Mogadouro Templário” não se limitou a celebrar o passado, lançou as sementes de um futuro mais consciente da riqueza patrimonial e espiritual do território. O envolvimento da Real Associação de Trás-os-Montes e Alto Douro e o entusiasmo da população local foram essenciais para criar uma atmosfera de pertença e reencontro com a história. O evento contou também com o apoio do clube Motards Mogadouro Templário, motociclistas apaixonados pela liberdade da estrada, com raízes profundas na região de Mogadouro, no nordeste transmontano, com forte inspiração no espírito dos Templários, símbolo de coragem, fraternidade e honra e, valorização da história e cultura local. Mais do que um clube, são uma verdadeira irmandade, promovendo o companheirismo, a solidariedade e o orgulho de representar Mogadouro em cada quilómetro percorrido. Participam em encontros motards por todo o país, levando consigo o estandarte da terra e dos valores que os unem.

clube Motards Mogadouro Templário

Talvez seja essa a grande conquista deste evento, não apenas trazer de volta os Cavaleiros de Cristo, mas lembrar-nos que a história vive em nós e, espera sempre o momento certo para regressar.



