O TEMPO EM QUATRO TEMPOS

Por:

João Maria D’Eça de Queiroz Couceiro da Costa

Um milénio, um século, uma década, um ano… O traçado deixado por um destino que entrelaça a História da Casa de Margaride à História da nossa cidade, Guimarães.

Não querendo testar as minhas sortes frente ao Destino, tentarei fazer justiça a este Destino que agora se cumpre, escrevendo estes pensamentos em ciclos de quatro tempos, tais quais os “quatro costados”, isto é, os nossos avós, a nossa ancestralidade – o Tempo.

Sabendo a Sorte do meu acordo com o Destino, decidiu esta fazer-me a amabilidade de ter a oportunidade de discorrer sobre a linha do Tempo, em quatro tempos. Falar de Margaride é falar de todos os tempos, e falar do Tempo, em Margaride, é desde logo evocar essa enorme figura alto-medieva – a condessa Mumadona, a primeira Senhora conhecida de Margaride, é lembrar os mais de mil e três anos desta Casa e é sempre honrar todos aqueles que antes de nós aqui estiveram e que aqui cumpriram o seu destino. Quis também o Destino dar-me uma pinga de sangue da Mumadona e também de outras personagens que aqui se radicaram desde o início de Quinhentos, numa longa sucessão que até hoje perdura tal como se sucedem as estações no ano, os quatro tempos do Tempo.

Seria por certo compreensível, ao falar de Margaride, falar das suas pedras, mas, inspira-me o Tempo a antes construir este argumento falando como a Natureza se renova a cada ano: sob a folhagem das copas das árvores, sobre os caminhos desta terra centenária e por entre a vida dos canteiros do Jardim da Casa de Margaride.

Admito que não me era óbvia a dimensão cultural do Jardim. Entendia a raridade do conjunto arbóreo, a circunstância de ser o único jardim privado, no Norte de Portugal, duplamente classificado como Património Nacional, a singularidade dele conter três árvores autonomamente inscritas na listagem Patrimonial, a excecionalidade de uma delas ter sido eleita este ano como Árvore do Ano de Portugal, mas, acima de tudo, admirava a evidente beleza da composição, pois o meu conceito de cultura tinha como peça central grandes figuras, criações ou momentos históricos e não uma Camellia japonica ou uma pereira.

Olhando para o Jardim como para uma obra de arte, esta dimensão cultural fica cada vez mais clara e impressionante. Se não vejamos: que outra obra de arte pode contar com as mãos de múltiplos artistas que a formaram, esculpiram, trataram ao longo de quase quatro séculos? Que outra obra de arte cresce, vive, morre e renasce anualmente? É uma obra que não é estática e que nunca será um trabalho acabado. Que outra obra de arte faz o artista sentir-se menos artista pela certeza de um trabalho efémero enquanto o faz, e sentir-se mais artista pela possibilidade de reinvenção que ocorre a cada primavera?

POIS É AÍ, NA PRIMAVERA, QUE SE DÁ O TEMPO DE CRIAR

É tempo de limpar os caminhos, é tempo de plantar, é tempo da obra reinventar-se mais uma vez. Aí o artista é mais artista. O Jardim da Casa de Margaride tem a particularidade, partilhada com outros jardins criados no mesmo período temporal, de ser um jardim assimétrico: floresce nos canteiros nos meses de primavera e verão e floresce nas copas das árvores nos meses de outono e inverno. Esta particularidade mune o artista de novas formas de pensar e recriar o Jardim a cada ano que passa e permite ao observador, inclusive o mais desatento, encontrar algo de novo a cada visita.

Depois de recriada a obra, o artista tem agora de a cuidar. Manter a obra, que é também uma ode à vida, é tão ou mais importante que o processo de criação, pois o verão caminha a ritmo apressado, apressando também a vontade de passear lentamente por entre os arbustos que ladeiam as flores, agora beijadas por um sol que convida à sombra. Para além deste paradoxo sensacional, passear pelo Jardim permite o encontro com a vida em todo o seu fulgor.

POIS AÍ, NO VERÃO, É TEMPO DE ENCONTRAR

Não é só beleza que se encontra em cada recanto do Jardim, se se olhar com olhos de quem quer ver, podemos também encontrar o esforço de quem trabalha quando o sol ainda (ou já não) brilha. Podemos encontrar a dedicação de gerações a esta obra que vive na sua própria linha cronológica, e que, depois das tórridas tardes de verão, caminha agora rumo aos pachorrentos ocasos do outono. As folhas começam a cair, as flores começam a transformar a sua delicada beleza em nutrientes que servirão para alimentar a tela, sobre a qual o artista já sonha a próxima reinvenção. A beleza melancólica de um fim que traz certezas de um novo início. Já não se vê o fulgor do verão, agora abre-se espaço para o tempo em que se pode sentir, numa folha caída ou numa flor em tons de castanho, a efemeridade da obra, a efemeridade da vida.

POIS AÍ, NO OUTONO, É TEMPO DE SENTIR

Sentir tristeza por estar próximo mais um dos fins da obra infinita, sentir o desconforto da passagem de uma tarde quente para uma noite fria, sentir a paz no silêncio do ocaso, agora que as cigarras já não cantam. O artista senta-se, agora mais encasacado do que antes, e observa todos os que pela obra passam com ar melancólico. Olha-os com a altivez própria de quem sabe o último tempo da obra. Sabe que nada é final. Sabe que tudo o que nasce tem de renascer e sabe que a sua obra guarda para o escuro e frio o seu ponto de maior brilho. Sabe que antes de voltar a criar, a obra tem primeiro de renascer.

POIS AÍ, NO INVERNO, É TEMPO DE RENASCER

E o Jardim renasce. Renasce envolvendo todos os seus elementos numa cena com fundo acinzentado, preenchida com o habitual verde, agora salpicado em tons de rosa e branco. As camélias tomam conta das copas das árvores dando vida à obra que outrora se pensava acabada. E quando chega o tempo de dar a sua vida, fazem-no dando a derradeira pincelada na composição, emprestando ao chão a sua cor, ao mesmo tempo que nutrem a tela para que outras cores possam tomar o seu lugar nas longínquas tardes de verão.

E é assim que o ciclo se completa. Ano após ano, década após década, século após século e agora também, milénio após milénio. Visitar os Jardins da Casa de Margaride é viajar pelo tempo em ciclos de quatro tempos, é visitar a obra, sempre inacabada, dos artistas que por lá passaram. É criar, encontrar, sentir e fazer renascer a História a cada ano, a cada estação.

O artista por lá anda, a pensar, sonhar e criar a sua reinvenção da obra. Ouvir pela sua voz aquilo que acabo de escrever só faz com que estas linhas percam qualquer relevância. Sente-se o amor, a dor, o orgulho e o sentido de uma missão que este crê ter-lhe sido confiada pelos seus antecessores ao invés de um merecido orgulho pelas pinceladas dadas por si. Mas com o Destino não se deve testar as sortes e quis o destino que fosse ele o derradeiro artista do milénio e quis a Sorte que fosse o meu Pai.