
Por LUÍS CARLOS AMARAL

D. Afonso Henriques, por Gabriel Sousa,(2024)
“DEFENDEU PORTUGAL INTEIRO COM A SUA ESPADA” EM TORNO DE AFONSO HENRIQUES, PRIMEIRO REI DE PORTUGAL
A frase que encima este texto integra o registo inicial dos denominados Anais de D. Afonso, rei dos Portugueses (Annales Domni Alfonsi, Portugallensium regis). Este texto, o primeiro dedicado exclusivamente à vida e ações de Afonso Henriques, foi redigido por um anónimo, cónego do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, em data muito próxima do falecimento do monarca, ocorrida em 6 de dezembro de 1185. Por essa altura, muita coisa decorrera já desde que o filho dos condes Henrique de Borgonha e Teresa de Leão assumira o poder na Terra Portucalense, na sequência da vitória alcançada na Batalha de São Mamede, travada junto de Guimarães, no dia 24 de junho de 1128. Concebidas e escritas em ambiente que Afonso Henriques frequentou assiduamente, as notícias que compõem os Anais, apesar de fragmentárias, revelam o propósito, na sua concatenação, de transmitirem uma imagem “oficial” do monarca, ou seja, a do “rei fundador”. Dito por outras palavras, a figuração do príncipe que, não tendo “nascido” rei, se fez rei, graças aos seus extraordinários méritos e ao respaldo da divina providência.

A primeira vez que aparece a palavra Portugal em carta de doação da Igreja de S. Bartolomeu de Campelo por D. Afonso Henriques em 1129.
Como seria expectável, e de acordo com os costumes e mentalidades da Hispânia do século XII, a dimensão mais sublinhada é a do abnegado e perseverante cavaleiro cristão, fortemente empenhado no combate aos infiéis muçulmanos e na proteção da Igreja e das populações cristãs. Não estranha, portanto, que o texto analístico comece precisamente com a notícia da investidura como cavaleiro do jovem Afonso Henriques, ocorrida na Catedral de Zamora, na festividade do Pentecostes de 1125 (17 de maio). Verdadeira entrada na vida adulta e pública, a cerimónia contém elementos premonitórios de notáveis acontecimentos, demonstrando que, desde o início, o príncipe estava destinado a uma vida singular. Deixando de lado o característico teor apologético inerente a este tipo de literatura, a verdade é que, para os seus contemporâneos, a face guerreira de Afonso Henriques prevalecia sobre todas as outras e, no momento da sua morte, já ninguém duvidava que a existência do reino de Portugal se devia, prioritariamente, à excecionalidade do cavaleiro que fora. A frase citada no título funcionou assim, para o redator dos Anais, como uma espécie de guião, que foi desdobrando em sucessivas “estórias” que, com poucas exceções, narram grandes feitos bélicos.

D. Afonso Henriques, contra capa do livro História de Portugal, edição Monumental, de 1929. Editora Portucalence, Barcelos.
Nascido em torno de 1109, no mesmo ano em que faleceu o seu avô materno, Afonso VI de Leão e Castela, Afonso Henriques cedo deve ter começado a inteirar-se do complexo cenário político, militar e eclesiástico que enformava os reinos cristãos hispânicos. Com efeito, a morte do “imperador” apenas acelerou as já bem visíveis tensões internas da monarquia, acossada também pelo aumento da pressão islâmica vinda do Sul. Particularmente graves eram os conflitos na região do Noroeste galaico-portucalense, espaço no qual o infante “português” fez a sua aprendizagem. E foi ainda na região de Entre-Douro-e-Minho que alcançou definitivamente o poder, após o reecontro de São Mamede. Evento nuclear, quase “fundacional”, o resultado de São Mamede permitiu uma alargada recomposição dos poderes políticos e militares das terras a Sul do Minho, criando as condições que permitiram a gradual transformação do condado Portucalense no reino de Portugal.

D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal. Escultura de Soares dos Reis, Inaugurada a 20 de setembro de 1887 pelo rei D. Luís, em Guimarães. Existe uma réplica desta estátua, no Castelo de S. Jorge em Lisboa, que foi inaugurada em 1947, por ocasião da comemoração dos 800 anos da Conquista de Lisboa aos mouros
Logo em 1131, o infante deslocou-se para Coimbra, que se converterá na primeira cidade régia portuguesa, a partir da qual encetou a expansão militar que o levou até aos territórios de além Tejo. O ciclo das principais campanhas e conquistas é bem conhecido: 1135, edificação do castelo de Leiria; 1139, Batalha de Ourique; 1147, conquista de Santarém e Lisboa; 1158, conquista de Alcácer do Sal; 1169, malograda conquista de Badajoz. A este percurso guerreiro associou Afonso Henriques várias outras ações, quer promovendo diversas estruturas eclesiásticas – recorde-se, por exemplo, que esteve ligado à fundação dos mosteiros de Santa Cruz de Coimbra (1131) e de Santa Maria de Alcobaça (1152), e à restauração das dioceses de Lamego, Viseu e Lisboa (todas em 1147) –, quer, em plena continuidade de iniciativas anteriores, multiplicando a outorga de cartas de foral, fazendo crescer o número de concelhos e favorecendo o povoamento do reino. Quer, finalmente, desenvolvendo uma intensa rede de relações políticas e diplomáticas à escala ibérica e europeia, que muito concorreram para o reconhecimento da independência portuguesa.

D. Afonso Henriques, escultura de João Cutileiro, (2001)
D. AFONSO HENRIQUES FOI UM HOMEM EXTRAORDINÁRIO E IMPONENTE, DONO DE UMA PERSONALIDADE FORTÍSSIMA. FISICAMENTE FORA DO COMUM, RESISTENTE, ÁGIL E SAUDÁVEL, VIVEU ATÉ AOS 76 ANOS. TERIA DE ESTATURA ENTRE 1,60M E 1,70M, MAS TEMOS DE TER EM CONTA QUE A ALTURA MÉDIA NO SÉCULO XII ERA DE 1,50M. A TRADIÇÃO CONSAGROU QUE SERIA ARRUIVADO, MAS SÓ COM A ABERTURA DO TÚMULO POR UMA COMISSÃO CIENTÍFICA, SERÁ POSSÍVEL DETERMINAR DEFINITIVAMENTE TODAS ESTAS CARACTERÍSTICAS.

Sardinha D. Afonso Henriques, por João Bettencourt Bacelar (2017)

D. Afonso Henriques por Henrique Ok…. (2024)
De infante e poderoso senhor regional, apoiado num invulgar grupo de nobres e eclesiásticos, entre os quais emerge a figura do arcebispo bracarense, D. João Peculiar, Afonso Henriques construiu um forte e sofisticado poder e foi elevado à categoria de rei, sendo reconhecido, de forma gradual, no interior dos seus domínios, na Península e no conjunto da Europa. Já no final da vida, em 23 de maio de 1179, recebeu do papa Alexandre III a bula Manifestis Probatum Est, através da qual a Igreja de Roma reconheceu, pela primeira vez, o seu título régio e o estatuto de reino da terra portuguesa. Nessa altura, porém, a realeza de Afonso Henriques era, há décadas, um facto consumado e respeitado internacionalmente. Com os séculos, a memória da sua pessoa e dos seus feitos alargou-se e enriqueceu-se com elementos muito diversificados, claramente vocacionados para a sua mitificação, constituindo-o em uma espécie de factor identitário e agregador de Portugal e dos portugueses de todos os tempos.


D. Afonso Henriques por Francisco Damasceno (2024)

D. Afonso Henriques por Pedro Não Bonito (2024)

Datada do final do século XII ou início do século XII, esta poderá ser a mais antiga representação do primeiro monarca português. Já coroado e de espada em punho, o rei enverga também o manto real. (Créditos: Museu Arqueológico do Carmo/ José Pessoa/IMC)


