Por Susana Jacobetty
Fotografia João Bettencourt Bacelar

O Teatro Variedades reabriu ontem ao público no Parque Mayer, com dois espetáculos do encenador Ricardo Neves Neves, depois de estar encerrado durante 30 anos.

“É um privilégio tremendo fazer parte do primeiro dia da reabertura de um teatro. O parque Mayer é um lugar mítico e faz parte do imaginário dos portugueses. O seu eco ultrapassou a cidade de Lisboa, é um local que pertence ao país. Depois de vários anos meio adormecido, na sombra, no entanto resistente, com o teatro Maria Vitória a apresentar revistas todos os anos e em cena durante vários meses. Foi durante muito tempo um sítio de ruínas e perigo, de decadência e de um caminho triste para o teatro. O teatro Capitólio foi recuperado à poucos anos e, agora com a recuperação do teatro Variedades, temos novamente três teatros a funcionar, infelizmente o teatro ABC foi demolido e não há perspectivas de se voltar a erguer. No entanto, ter três teatros num género de pequena Broadway à portuguesa, é um entusiasmo não só para a cidade e para os espectadores, mas sem dúvida que também o é para os artistas. Os espaços em Lisboa são raros e, nas últimas décadas, fecharam muitos teatros e cinemas que não foram substituídos. Felizmente este teatro voltou à vida, o que é uma belíssima boa notícia. De alguma forma também nos alivia em termos da pressão na procura de espaços, porque o que fazemos no palco é público, sendo necessário que haja um local onde nos possamos apresentar, senão o espetáculo não acontece. Para este momento da história do Parque Mayer, fiz a proposta de inaugurar com dois espetáculos”.
Ricardo Neves Neves
ENTRARIA NESTA SALA
Com Sílvia Rizzo, Ivo Alexandre, Sissi Martins e Manuel Marques, entram em cena Maria Matos, Vasco Santana, Beatriz Costa e António Silva no espetáculo Entraria Nesta Sala. Estas quatro figuras muito queridas e bem conhecidas do público português, vão viajar no tempo numa máquina ultra moderna e supersónica, com o objetivo maior de libertar a Europa subjugada por Hitler.

“O ponto de partida das duas peças foi escrever sobre o cinema português. No princípio foi sobretudo revisitar o espectro do cinema da época áurea dos anos 20, 30 e 40, que perdura até hoje. Estes filmes encerram em si um género de matéria prima muito valiosa, dão-nos muitas pistas para avançar por diversos lados. Essa época do cinema dourado, tanto em portugal, na europa e no mundo, refletem um grande conjunto de inovações, revoluções sociais e culturais, tendo as duas grandes guerras como pano de fundo. A peça Entraria Nesta Sala, passa-se em 1945, final da segunda guerra mundial, todo o contexto na altura em que estes filmes foram realizados é tremendo. É tudo muito inspirador e, poder trazer este espetáculo ao Parque Mayer, ao teatro Variedades, sabendo que estes atores que se transformam em personagens, passaram também por este sítio, por estes quatro teatros que existiam nessa época, que fizeram parte da vida de todos eles, é muito emocionante. É uma homenagem a esses artistas mas também a outros, como o Ribeirinho, que escreveu algumas frases que trazemos com muita emoção para o espetáculo. Escolhi estas quatro personagens representativas da glória dessa época e, escolher os atores para este elenco, foi uma inclinação quase imediata.
A reescrita da história é uma coisa que me fascina. Muitas vezes somos enganados pela história, só décadas e séculos depois, apercebemos-nos que houve uma outra história. Há fatos que não temos completamente a certeza se existiram, em muitos casos a história é qualquer coisa que nos contam, que alguém escreveu no papel e assumiu-se como verdade. Não há uma completa verdade. O que faço aqui é contar a mentira como se fosse verdade e imaginar que estes atores são teletransportados até Berlim e, que são eles os responsáveis pelo fim da segunda guerra mundial. É tornar super heróis, figuras que já consideramos heroínas”
“Se pudesse viajar no tempo ia para os anos 60, para o Parque Mayer, para poder ver como era esta dinâmica ao vivo e a cores.”




Manuel Marques – António Silva
“O meu primeiro direto, que foi com o Herman José, foi justamente para fazer o António Silva. Em 2002 fiz também uns sketchs desta personagem nos Globos de Ouro e preparei-a até à exaustão, é uma personagem que vem de trás, mas que a trabalhei de uma forma muito mais apurada. O António Silva é o meu ator preferido daquela época, pelos tempos que ele tinha de comédia, pelo seu gesticular, pela forma de colocar a voz, enfim. Estrear o renovado Teatro Variedades no Parque Mayer com esta peça, acrescendo a enorme responsabilidade de interpretar esta personagem, que também andou por aqui, é para mim uma honra”.
“Se pudesse viajar no tempo, pensei muitas vezes ir ao passado, mas já me chamaram a atenção que escolher ir ao passado pode ser muito giro mas cheira mal (risos). Mas mesmo assim gostava de lá ir, talvez ao tempo dos dinossauros. Não gostaria de ir ao passado recente, acho que não podemos corrigir aquilo que foi feito. Claro que estas personagens querem pôr fim à segunda guerra mundial e, eu também gostava de o poder fazer, mas todos esses acontecimentos fazem parte do processo de evolução da humanidade e, é tudo cíclico. Não sei se será um perigo viajar no tempo, sobretudo para o passado”.

Sissi Martins – Beatriz Costa
“Para além de ser a reabertura de um teatro na cidade de Lisboa e, mais um marco neste país que tantas vezes deixa teatros serem demolidos, este é sem dúvida um momento muito importante. Além disso, interpretar a Beatriz Costa e poder brincar com estas personagens icónicas, num teatro onde também eles trabalharam e foram dos maiores artistas portugueses, é uma enorme responsabilidade, mas também é uma experiência muito divertida entrar neste mundo do Ricardo Neves Neves e, poder partilhar o palco com estes atores, grandes artistas, que tanto dão ao país, é muito gratificante.
“Se pudesse viajar no tempo fazia esta viagem e matava o Hitler. Voltava aos anos 40 e não deixaria que muitos teatros da cidade de Lisboa fossem abaixo”

Sílvia Rizzo – Maria Matos
“Há catorze anos que não fazia teatro, mas porque adoro este imaginário nonsense do Ricardo Neves Neves e, ao mesmo tempo, que nos obriga a pensar em assuntos muito importantes, pensei que se fosse para voltar, seria com ele. Quando recebi este convite, fiquei surpreendida e apreensiva. Mas o Ricardo é um encenador maravilhoso, fez-me sentir muito apoiada, assim como também pelos meus colegas, o Ivo, com o Manel e a Sissi, que são magníficos. Este ressuscitar destes quatro vultos, que não é de todo uma imitação, mas sim uma homenagem, permite lembrarmos-nos de quem foram e dos seus papéis nos filmes antigos. Há um texto que eu falo no final, que a Maria Matos diz, que é um texto do Charlie Chaplin do filme O Grande Ditador, infelizmente ainda hoje é atual. A forma como o Ricardo vai buscar todas estas referências e transforma-las nestas loucuras incríveis, é fantástica. Estava nervosa, estávamos todos, é normal, é uma estreia. Mas acho que correu muito bem. fiquei muito feliz de estar de volta ao teatro desta forma. É importante que as gerações mais novas conheçam estes filmes da época de ouro portuguesa, para poderem também eles ter essas referências, mas principalmente, para conhecerem estes atores geniais”.
“Se pudesse viajar no tempo e se a máquina tivesse bateria ia para todo o lado. Fazia várias viagens. Acho que ia de trás para a frente e tentava mudar algumas coisas. O desaparecimento de pessoas com capacidade de provocar a mudança pela positiva no mundo, fez com que as evolução não seguisse de melhor forma. Parece que as melhores pessoas são as mais sacrificadas e, as piores são as que ficam”.

Ivo Alexandre – Vasco Santana
“Representar o Vasco Santana é ao mesmo tempo uma grande responsabilidade e um grande desafio. Trabalhei esta personagem para eeste espetáculo em concreto, de uma forma a ficar próxima do Vasco Santana, acrescentando o meu lado criativo à personagem, apesar de não termos muita informação em arquivo de como ele era realmente na primeira pessoa. Há apenas uma entrevista para a rádio, de resto a imagem que temos dele, é das suas múltiplas personagens no cinema. O que o Ricardo Neves Neves pretendia desde o princípio, era que as personagens não fossem bidimensionais, mas sim tridimensionais, que pudessem ir mais além que o expectável, ou seja, construir para além da imitação, criando personagens que tivessem outro tipo de credibilidade em cena. A peça é extremamente divertida, cheia de apontamentos nonsenses, mas tocando também em assuntos sérios. Penso que esses cruzamentos, são também uma forma de conseguirmos honrar estas quatro figuras tão importantes para a cultura portuguesa”.
“Se pudesse viajar no tempo ia para o princípio do século XX. Foi uma época muitíssimo interessante, com muitas coisas a despontar, nomeadamente o cinema”.

Beatriz Barosa

Natalina Correia e António Calvario

Beatriz Barosa e Ana Marques

Marques D’Arede
“Três teatros a funcionar no Parque Mayer!
A peça Entraria Nesta Sala é uma viagem entre a memória portuguesa e a atualidade, traz-nos o espírito lisboeta que é aquilo que queremos para a cidade. Abrir um espaço artístico com uma ideia do que pode vir a ser Lisboa, nesta nova sociedade, é um belo primeiro passo que esperemos agora que possa crescer”.
Nuno Moura
Diretor Museu do Teatro e Dança
THE SWIMMING POOL PARTY

The Swimming Pool Party conta com as interpretações de Ana Brito e Cunha, Ana Cloe, Filipe Vargas, Helena Caldeira, José Leite, Marta Andrino, Rúben Madureira e Sandra Faleiro no peculiar caso de assassinato no Teatro Variedades.

Pode um grupo de amigos e familiares, em estranha party de fim de temporada, ao som da bossa nova e conversas presunçosas, levar a um desfecho mortal e suscitar a pergunta whodunit?Sim, quando neste grupo se mistura uma bizarra trupe de conversa oca e surda, em que o lema na vida é viver no fio da navalha, banhando-se num mundo de superficialidade.Não se afiguram necessários os inspetores Hercule Poirot ou Maigret para desembrulhar este crime em que o assassino está entre nós.Desenganem-se. Neste texto original de Ricardo Neves-Neves, o enredo é muito mais dramático, as causas mais obscuras, as personagens uns canalhas desprezíveis, e o final trará o eito. Querem ser cúmplices deste crime?






“Viva o Teatro, Viva a Cultura, Viva Lisboa”!
Carlos Moedas, Teatro Variedades, Parque Mayer, 2024

