
Públia Hortênsia de Castro (Vila Viçosa, 1548 – Évora, 1595), é uma figura que tem despertado o interesse de diversos investigadores nacionais e estrangeiros. A sua capacidade argumentativa em disputas públicas e o domínio da filosofia propiciaram elogios de autores coevos, como André de Resende. Frisemos ainda que, em carta escrita de Santander, em 1878, dirigida a Gumersindo Laverne, Marcelino Menéndez Pelayo, ao citar humanistas espanholas (Beatriz Galindo, Francisca de Nebrija, D. Magdalena de Bobadilla, D. Ana de Villégas, D. Cecilia de Arellano, entre outras) nomeia, entre elas, a infanta D. Maria de Portugal, Luísa Sigeia, Ângela Sigeia, Ana Vaz e Públia Hortênsia de Castro.
Mas quem era Públia Hortênsia e Castro? Ao longo do tempo, diversos autores têm procurado resposta para esta questão, notando-se alguma repetição nos discursos e ausência de novos dados. Também chamada Públia Lusitana, Públia nasceu em Vila Viçosa em 1548 e faleceu em Évora, em 1595; era filha de Tomás de Castro (parente do arcebispo de Évora D. João de Melo) e de D. Branca Alves. Nome peculiar, de inspiração romana, de uma Hortênsia que estudara literatura grega e latina, filha do cônsul Quintus Hortensius Hortalus, ilustre orador do século I a.C., sugerindo que seria vontade dos pais que a jovem calipolense recebesse uma cuidada educação. Para tal, terá tido formação inicial de professores particulares e contactou com alguns docentes da Universidade de Évora, como Luís de Molina.

Ulteriormente, e segundo a lenda, para frequentar estudos mais avançados e de molde a ocultar a sua identidade feminina terá vestido traje de homem para, com seu irmão, Jerónimo de Castro, frequentar Humanidades em Coimbra, e depois Filosofia; defendeu em Évora, em 1565 (com dezassete anos), e no domínio da Filosofia Moral, as Conclusões, prova a que terá assistido André de Resende.
Avançou ainda estudos no domínio da Teologia, defendendo em Elvas novas Conclusões na presença de Filipe II de Espanha, que lhe concederia uma tença vitalícia; esteve ainda previsto um discurso seu em 1571 no Paço de Vila Viçosa preparado para o cardeal Alexandrino e S. Francisco de Borja, não se realizando por falta de tempo no longo cerimonial. Além da infanta D. Maria (para alguns autores, terá sido sua moça de câmara, recebendo 6.000 reais anuais) colhia ainda a simpatia do cardeal D. Henrique e do duque de Bragança, D. João. Públia cedo fez parte de uma elite letrada feminina na corte quinhentista em Portugal, ligada a D. Maria de Portugal, duquesa de Viseu, filha de D. Manuel I. A infanta, com instrução cuidada, tinha ainda por perto Paula Vicente (filha de Gil Vicente), sua moça de câmara e que, além de tocar vários instrumentos, ter conhecimentos de arquitetura e pintura, era ainda tradutora; Joana Vaz, sua aia (e dama de honor de D. Catarina), natural de Coimbra, que dominava o latim, grego e hebraico, e que seria sua mestra de língua latina, estatuto que repartia com Luísa Sigeu (ou Sigeia), que sabia latim, grego, hebraico, caldeu e árabe, e algumas línguas modernas. Esta última estabeleceu na corte da infanta D. Maria conferências de estudos que alternavam com momentos musicais, assegurados por sua irmã Ângela Sigeu de Velasco (que, em 1557, casou e foi para Valladolid); as irmãs, filhas de Diogo Sigeu, haviam sido chamadas em 1542 para a corte por D. Catarina, mulher de D. João III.
Os últimos anos da sua vida foram passados em espaço claustral tendo sido, segundo repetidos relatos, sepultada no claustro dos agostinhos em Évora; constatamos, porém, a ausência de elemento tumular a ela relativo nesse local. Se é possível que obras de pavimentação o tenham ocultado, também não será improvável que o seu último refúgio tenha sido um convento da mesma Ordem nesta cidade, mas feminino, o de Santa Mónica.

Maria de Portugal (1521-1577) por Anthonis Mor. Filha de D. Manuel I e D. Leonor, aluna da calipolence Luísa Sigeia, fez do seu Paço privado uma espécie de universidade feminina, criando uma elite de mulheres cultas, que liderou.
Na sua obra destacam-se vasta epistolografia e poesia em latim e em português bem como diálogos religiosos e filosóficos (Psalmos pela victoria e felicidade do Senhor D. Duarte e declaração dos Ditos Psalmos; Flosculus Theologicalis; Poezias Várias Latinas e Portuguezas; Cartas Latinas e Portuguezas a várias pessoas). Em 1614, a sua obra estava ainda na posse do seu irmão Jerónimo, religioso da Ordem dos Pregadores, e em 1640 na Biblioteca régia.
Em termos atuais, o seu nome é lembrado, por exemplo, ao designar a Escola Secundária da localidade onde nasceu; uma das salas da Biblioteca Municipal de Elvas e ainda um Coral com o seu nome desta mesma cidade. Cabe também lembrar que Armando Nascimento Rosa recebeu em 2009 a Menção Honrosa do Prémio Teatro Bernardo Santareno, com a peça O sonho de Rosa Damasceno ou Públia Hortênsia, Marinheira Estática, prestando homenagem a atrizes e intelectuais portuguesas esquecidas e ignoradas.

Busto de Públia Hortênsia de Castro,Vila Viçosa. Fotografia João Bettencourt Bacelar
ANTÓNIA FIALHO CONDE
Universidade de Évora /CIDEHUS (Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades)

