Florbela Espanca e Taylor Swift por Ana Luísa Vilela

Florbela Espanca. (entre 1913 e 1918). Fotografia João Maria Espanca, Photo Calypolence. Coleção privada.

A figura de Florbela Espanca (1894-1930) instalou definitivamente, na imaginação do leitor mediano – o enorme público, longo consumidor dos seus versos e ávido comentador da sua vida – a associação entre a poetisa e a mulher. Na verdade, a poesia de Florbela parece, muitas vezes, genial e trivial; vibra de modo tão irritantemente intenso, banal e dramático como a vida de qualquer um dos seus imensos leitores. Cada leitor terá a sua Florbela; cada um responderá, a seu modo e com a sua linguagem, a essa figura que o interpela, na qual ele reconhece o seu próprio rosto, os seus mesmos impasses e a vertigem
da sua pessoal existência.

Esta identificação imediata por parte do público vive muito de um acaso biográfico: o facto de serem tantas, tão conhecidas e tão ostensivamente teatrais as imagens fotográficas que conhecemos de Florbela. O seu pai, João Maria Espanca, era uma figura singular, muito oitocentista, muito longevo e muito livre, republicano convicto, fotógrafo, antiquário e bon-vivant. Fotografava constantemente os filhos, que verá morrer muito novos. Apeles, três anos mais novo do que a irmã, foi tenente- aviador nos heroicos anos 20; pintor bastante dotado, impetuoso e aventureiro, morrerá aos comandos do seu hidroavião, em 1926. Profundamente abalada, Florbela suicidar-se-á em 1930.

Apeles Espanca.Fotografia joão Maria Espanca, Photografia Calypolence. Coleção privada.

Dia do casamento de Florbela Espanca. com Alberto de Jesus Silva Moutinho. 8 de dezembro de 1913, Vila Viçosa.Coleção privada.

É particularmente importante o papel da imagem, quando falamos de Florbela. Vedeta desde criança, modelo fotográfico, nela o excesso de exposição e de pose pode ter coincidido com a vertigem identitária e a agónica autoconsciência. Longe das novíssimas tendências de biografar a sua arte – tal como o faz, hoje, por exemplo, uma vedeta pop como Taylor Swift – Florbela soube, por si mesma, metabolizar em arte as suas experiências pessoais, das mais traumáticas às mais exaltantes.

Florbela e Apeles Espanca, 1904. Fotografia joão Maria Espanca

Teve um nascimento irregular, como todos os heróis. No Alentejo de finais do século XIX, era ainda tolerável esta situação bíblica: perante a esterilidade da esposa, o marido procriou com uma criada, que manteve exclusivamente com esse fim, enquanto os dois filhos eram ainda pequenos. Morta ainda jovem, a mãe de Florbela tinha sido, ela própria, abandonada pelos pais. Florbela teve uma esmerada educação formal, pois frequentou o Liceu e chegou a matricular-se na Universidade. Casou cedo, divorciou-se duas vezes, apaixonou-se muitas mais. Começou também cedo a escrever. E toda a sua obra – relativamente escassa, pois morreu com 36 anos, a idade das divas – é dominada pela sua irreprimível liberdade de espírito, pela sua feroz independência de caráter e de comportamento. Não se estranha, portanto, que a condição da mulher e, sobretudo, a enunciação feminina do desejo amoroso sejam os filões temáticos maiores de uma obra cuja força passional, melódica e performativa inspiram, ainda hoje, a pintura, o cinema, o teatro, o bailado, a música.

Florbela Espanca, 1909. Fotografia joão Maria Espanca, Photografia Calypolence.

Florbela Espanca 1910

Florbela tornou-se uma vedeta também depois da sua morte, por mão de Guido Battelli, primeiro obreiro desse estranho vedetismo post-mortem. É uma vedeta ainda em 2024, quando se cumprirão 130 anos desde o seu nascimento em Vila Viçosa.

Dois acontecimentos importantes marcam, este ano, a história da fortuna florbeliana. Um, mais académico, é a publicação recente, pela Universidade de Évora, do monumental Caleidoscópio Florbela, da autoria de Maria Lúcia Dal Farra, a maior especialista sobre a poetisa calipolense. É um livro que se tornará a principal obra dereferência nos estudos sobre Florbela. Outro, mais turístico-cultural. consiste no projeto, lançado pela Câmara Municipal de Vila Viçosa, de um circuito florbeliano na sua vila natal; este circuito integrará também um núcleo museológico, acolhendo nomeadamente o espólio florbeliano, constituído por manuscritos, fotografias e objetos pessoais, doados ao Grupo Amigos de Vila Viçosa pelo terceiro marido da poetisa, Mário Lage.

Florbela Espanca 1910.

Assim, ao longo do tempo, vão-se estabelecendo, reproduzindo e mantendo duradouros mecanismos de construção da imagem de Florbela, consistentemente transformada em produto de consumo cultural. Objeto de sedução, identificação ou repulsa, a figura física e artística da poetisa tornou-se um ecrã de projeção de fantasias, desejos, fobias, obsessões. Isso é talvez normal numa estrela pop. É caso único na nossa literatura.

ANA LUÍSA VILELA, Professora Associada Universidade de Évora

Florbela com Virgínia, filha do visconde de Idanha, Virginia da Assunção Moreira Freire Corrêa Manoel Torres de Aboim, casada com Sebastião Sarzedas, filho de Joaquim António dos Reis Tenreiro Sarzedas, Governador Civil de Évora. Fotografia por Mário Gama Freixo em 1904, Campo Grande em Lisboa.

Projeto de Gabriela Santos aluna do Curso de Design da Escola das Artes da Universidade de Évora, coleção de caixas de fósforos com o tema de Florbela Espanca no âmbito da cadeira de Tratamento Vetorial e Editorial, com base em fotografias cedidas por Joana Bacelar Espanca.